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Lavagante
Em Lavagante, José Cardoso Pires aborda o ambiente opressivo de Portugal no início dos anos 60, marcado pela censura e a acção policial. A história, que se desenrola num contexto de perseguições e prisões políticas, acompanha o romance entre um médico oposicionista e uma jovem estudante, destacando a influência da repressão na vida privada e nos relacionamentos pessoais. O livro utiliza a imagem do lavagante — um crustáceo — para ilustrar a natureza primitiva e a falta de refinamento do país.
72 pages, Paperback
First published December 1, 1963
About the author
José Cardoso Pires
41 books123 followersJOSÉ CARDOSO PIRES nasceu na em São João do Peso, concelho de Vila de Rei, distrito de Castelo Branco, a 2 de Outubro de 1925. Estudante na Faculdade de Ciências de Lisboa, trocou as matemáticas superiores pela marinha mercante. Entre 1969 e 1971, foi docente de Literatura Portuguesa e Brasileira no King’s College, em Londres. Foi director literário de editoras lisboetas e director-adjunto do Diário de Lisboa (1974-75). Estreou-se com Os Caminheiros e Outros Contos (1949) e obteve o Prémio Camilo Castelo Branco com o romance O Hóspede de Job (1964). Dentro do neo-realismo, retoma a tradição satírica setecentista. Entre outros, escreveu os romances O Delfim (1968), Dinossauro Excelentíssimo (1972), Balada da Praia dos Cães (1982, Prémio da Associação Portuguesa de Escritores), Alexandre Alpha (1987), República dos Corvos (1988). Escreveu para o teatro O Render dos Heróis (1960) e Corpo Delito na Sala de Espelhos (1979). Deu ainda a lume a colectânea de ensaios Cartilha do Marialva (1960) e o volume de crónicas E agora, José? (1978) e A Cavalo no Diabo (1994). Em 1997 publicou De Profundis - Valsa Lenta e Lisboa, Diário de Bordo que lhe valeram o Prémio Pessoa desse ano. Foi condecorado pela Presidência da República com a Comenda da Ordem da Liberdade, em 1985. Faleceu a 26 de Outubro de 1998, em Lisboa.
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Community Reviews
Displaying 1 - 15 of 15 reviews
January 25, 2026
Então expliquei-lhe que o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se.
Lavagante pode parecer um título estranho para um livro que não seja de biologia, mas nesta história faz todo o sentido. Um pedido de boleia de Cecília a Daniel transforma-se num episódio da BBC vida selvagem e, à medida que vamos avançando na ação, percebemos quem é o lavagante e quem o safio. Estamos em plena ditadura e revolta estudantil de 1962, e isso terá um preço a pagar quer por Cecília, quer por Daniel.
Só tendo lido este título de JCP, acho curioso como muitas das suas histórias conseguem ser adaptadas ao cinema. Se são alguma coisa de jeito, não sei dizer, pois nunca assisti a nenhum dos filmes (Balada da praia dos cães, O Delfim, Lavagante), mas deve ser dos autores portugueses com mais livros adaptados ao ecrã, com exceção talvez da Agustina.
Apesar de não ter achado uma trama espetacular, gostei de ler esta pequena novela.
Lavagante pode parecer um título estranho para um livro que não seja de biologia, mas nesta história faz todo o sentido. Um pedido de boleia de Cecília a Daniel transforma-se num episódio da BBC vida selvagem e, à medida que vamos avançando na ação, percebemos quem é o lavagante e quem o safio. Estamos em plena ditadura e revolta estudantil de 1962, e isso terá um preço a pagar quer por Cecília, quer por Daniel.
Só tendo lido este título de JCP, acho curioso como muitas das suas histórias conseguem ser adaptadas ao cinema. Se são alguma coisa de jeito, não sei dizer, pois nunca assisti a nenhum dos filmes (Balada da praia dos cães, O Delfim, Lavagante), mas deve ser dos autores portugueses com mais livros adaptados ao ecrã, com exceção talvez da Agustina.
Apesar de não ter achado uma trama espetacular, gostei de ler esta pequena novela.
October 30, 2025
O que me fascina em José Cardoso Pires é o pudor. A contenção. O dizer sem dizer e, ainda assim, sentir-se tudo. Em ‘Lavagante’, esse gesto literário alcança uma forma quase absoluta. É uma novela, ou talvez um protótipo de romance, mas é nessa economia de meios que reside a força do texto. Publicado a partir do manuscrito dos finais da década de 60, para mim, está finalizado: nada falta, nem sobra.
A frase que guardo como lição de estilo (e de vida) é: “Doutra maneira seria o strip-tease que conduz ao amor confessional e o amor confessional é a coisa mais complicada que Deus ao mundo deitou.” Belíssima e cruel, revela a ironia lúcida e o pudor intelectual do autor. O strip-tease simboliza a exposição gratuita, o gesto de se desnudar pelo impulso ou pelo desejo de comover, não pela necessidade de verdade. O amor confessional, pelo contrário, é inevitável, trágico, perigoso. Amar e confessar entrelaçam-se, mas sempre com dignidade e contenção. É a escrita da revelação, que permanece fiel à essência sem ceder ao espectáculo emocional.
O livro observa o mundo com distância. Há uma dimensão social subjacente: a repressão da ditadura, a violência do olhar sobre a mulher, a sombra do machismo. Cecília surge como uma heroína moderna, livre de preconceitos, vista pelos outros como objecto de desejo e inveja. Carrega uma liberdade que se sente idealizada, desejada, mas que o autor, com inteligência, subjuga. Salaviza, o inspector da PIDE, encarna essa força opressora, silenciosa mas inexorável. Cecília é também metáfora da pátria que se sonha livre mas se autoconsome nas teias da ditadura, uma autofagia tão portuguesa de que nem hoje, passados quase sessenta anos, nos livramos.
O médico Daniel é outro ponto de observação. Homem corajoso, mas prudente, impede-se de esculpir a mulher ideal (ou a pátria ideal) como um Pigmalião. Este traço, introduzido com delicadeza pelo autor, revela uma consciência viva da diferença entre sonho e realidade. Daniel vive entre fascínio e medo diante desse feminino em potência. É ao mesmo tempo singular e universal. A narrativa vibra no equilíbrio entre desejo, amor e lucidez, mesmo na contenção mais extrema.
O filme de Mário Barroso dramatiza Cecília num destino trágico mais explícito — uma Tosca de Puccini — mas é no livro que sentimos a força da escrita contida, da verdade insinuada, do olhar atento sobre a mulher, a ditadura, o desejo e a liberdade. Cardoso Pires escreve como um príncipe desencantado, mas de um lugar de verdade. Não há exagero, não há espectáculo; apenas a humanidade de quem sabe mais do que o que escreve. E o leitor sente. Sente muito. Na economia e na exactidão das palavras, dos gestos, da acção.
‘Lavagante’ não é apenas um livro: é um exercício de leitura atenta, de escuta, de contemplação. É a prova de que a literatura portuguesa sabia, naquele tempo, falar com pudor e, ao mesmo tempo, desnudar o mundo.
A frase que guardo como lição de estilo (e de vida) é: “Doutra maneira seria o strip-tease que conduz ao amor confessional e o amor confessional é a coisa mais complicada que Deus ao mundo deitou.” Belíssima e cruel, revela a ironia lúcida e o pudor intelectual do autor. O strip-tease simboliza a exposição gratuita, o gesto de se desnudar pelo impulso ou pelo desejo de comover, não pela necessidade de verdade. O amor confessional, pelo contrário, é inevitável, trágico, perigoso. Amar e confessar entrelaçam-se, mas sempre com dignidade e contenção. É a escrita da revelação, que permanece fiel à essência sem ceder ao espectáculo emocional.
O livro observa o mundo com distância. Há uma dimensão social subjacente: a repressão da ditadura, a violência do olhar sobre a mulher, a sombra do machismo. Cecília surge como uma heroína moderna, livre de preconceitos, vista pelos outros como objecto de desejo e inveja. Carrega uma liberdade que se sente idealizada, desejada, mas que o autor, com inteligência, subjuga. Salaviza, o inspector da PIDE, encarna essa força opressora, silenciosa mas inexorável. Cecília é também metáfora da pátria que se sonha livre mas se autoconsome nas teias da ditadura, uma autofagia tão portuguesa de que nem hoje, passados quase sessenta anos, nos livramos.
O médico Daniel é outro ponto de observação. Homem corajoso, mas prudente, impede-se de esculpir a mulher ideal (ou a pátria ideal) como um Pigmalião. Este traço, introduzido com delicadeza pelo autor, revela uma consciência viva da diferença entre sonho e realidade. Daniel vive entre fascínio e medo diante desse feminino em potência. É ao mesmo tempo singular e universal. A narrativa vibra no equilíbrio entre desejo, amor e lucidez, mesmo na contenção mais extrema.
O filme de Mário Barroso dramatiza Cecília num destino trágico mais explícito — uma Tosca de Puccini — mas é no livro que sentimos a força da escrita contida, da verdade insinuada, do olhar atento sobre a mulher, a ditadura, o desejo e a liberdade. Cardoso Pires escreve como um príncipe desencantado, mas de um lugar de verdade. Não há exagero, não há espectáculo; apenas a humanidade de quem sabe mais do que o que escreve. E o leitor sente. Sente muito. Na economia e na exactidão das palavras, dos gestos, da acção.
‘Lavagante’ não é apenas um livro: é um exercício de leitura atenta, de escuta, de contemplação. É a prova de que a literatura portuguesa sabia, naquele tempo, falar com pudor e, ao mesmo tempo, desnudar o mundo.
December 11, 2020
Lavagante succeeds another posthumous one by Cardoso Pires, Dispersos I (2005), where he had collected material published in periodicals, prefaces to books and exhibition catalogues. There, a note to the reader, signed by Don Quixote, suggested the limits of the decision to edit that compilation, on the premise that the writer would not take such an initiative, due to his well-known perfectionism. The Lavagante book again poses the problem of editorial intervention that turns a text into a book, promoting a celebratory resurrection of José Cardoso Pires. It is, after all, an induced reunion with the writer's audience, attracted by the announced rarity of an almost unheard-of, by the authority of the editor and by usual markers in the paratext of the author figure: a photograph of Cardoso Pires on the back cover, the facsimile of two handwritten pages of the text, reproduced at the opening of the book, which gives material proof of one of its versions. There is also the logo of the writer's name, fixed as an authorial emblem since the times of Moraes and now reproduced on the left side of the book.
Source: http://coloquio.gulbenkian.pt/cat/sir...
Source: http://coloquio.gulbenkian.pt/cat/sir...
May 15, 2019
(PT)"Lavagante" é uma história relativamente inacabada de José Cardoso Pires sobre um amor entre dois espíritos relativamente solitários, nos anos 60 do século XX, num Portugal ainda amordaçado pela ditadura. Publicado inicialmente em 1963, seria o ensaio de um futuro romance que acabou por dar lugar a "O Delfim", um dos romances mais marcantes da carreira de Cardoso Pires.
"Lavagante" só aparecerá em 2005, sete anos depois da morte do escritor, em comemoração daquilo que viria a ser o seu 80º aniversário natalício.
É um romance pequeno e relativamente maduro em relação a obras mais antigas como "O Hóspede de Job", mas não deixando de ser politico e critico da sociedade que se vivia nesse tempo, não só na critica politica, mas também do machismo predominante, algo do qual veremos muito n'"O Delfim". No demais, é agradável de ler, e de uma certa forma, parece estar acabado em termos de "principio e fim", se quisermos observar isso dessa forma.
"Lavagante" só aparecerá em 2005, sete anos depois da morte do escritor, em comemoração daquilo que viria a ser o seu 80º aniversário natalício.
É um romance pequeno e relativamente maduro em relação a obras mais antigas como "O Hóspede de Job", mas não deixando de ser politico e critico da sociedade que se vivia nesse tempo, não só na critica politica, mas também do machismo predominante, algo do qual veremos muito n'"O Delfim". No demais, é agradável de ler, e de uma certa forma, parece estar acabado em termos de "principio e fim", se quisermos observar isso dessa forma.
Read
January 2, 2026Há textos e pequenos exercícios dos autores maiores da nossa língua que se vão perdendo nos tempos (muitas vezes graças às condições em que foram escritos e editados, ou mesmo, pelo facto de não terem sido editados em virtude da censura fascista ou por outras dificuldades consequentes do quadro em que foram produzidos) este pequeno romance, ganhando novas vidas por duas vezes, mais de 40 anos após ser concluído, merece, só por esse dado, ser visitado.
November 10, 2025
pena ser tão pequenino
July 30, 2026
"A liberdade não desaparece de uma vez; ela se perde aos poucos, no silêncio."
Lavagante, de José Cardoso Pires, é uma novela curta ambientada no Portugal do Estado Novo, durante os anos de maior repressão da ditadura. A história acompanha o encontro entre um jovem médico e uma estudante universitária, enquanto o medo, a vigilância constante da PIDE e a desconfiança passam a fazer parte da vida cotidiana. Em vez de transformar a política no centro da narrativa, o autor mostra como um regime autoritário invade as relações humanas, os afetos e as escolhas individuais.
O que mais me chamou a atenção foi justamente essa abordagem. Lavagante retrata a angústia daqueles anos de forma leve e acessível, com um foco muito mais humano, civil e social do que político. O romance serve como porta de entrada para compreender o clima da época sem recorrer a discursos pesados ou excessivamente históricos.
Além disso, a leitura é envolvente. A relação entre as personagens mantém o interesse do início ao fim, enquanto o humor discreto, os diálogos e as metáforas enriquecem a narrativa sem a tornarem difícil de acompanhar. A simbologia do "lavagante", por exemplo, dá uma nova dimensão à história e convida o leitor a refletir mesmo depois da última página.
Recomendo especialmente para leitores mais jovens ou para quem deseja começar a explorar a literatura portuguesa sobre a ditadura. É um livro breve, elegante e inteligente, que mostra como a opressão política se revela, antes de tudo, nas vidas comuns.
Lavagante, de José Cardoso Pires, é uma novela curta ambientada no Portugal do Estado Novo, durante os anos de maior repressão da ditadura. A história acompanha o encontro entre um jovem médico e uma estudante universitária, enquanto o medo, a vigilância constante da PIDE e a desconfiança passam a fazer parte da vida cotidiana. Em vez de transformar a política no centro da narrativa, o autor mostra como um regime autoritário invade as relações humanas, os afetos e as escolhas individuais.
O que mais me chamou a atenção foi justamente essa abordagem. Lavagante retrata a angústia daqueles anos de forma leve e acessível, com um foco muito mais humano, civil e social do que político. O romance serve como porta de entrada para compreender o clima da época sem recorrer a discursos pesados ou excessivamente históricos.
Além disso, a leitura é envolvente. A relação entre as personagens mantém o interesse do início ao fim, enquanto o humor discreto, os diálogos e as metáforas enriquecem a narrativa sem a tornarem difícil de acompanhar. A simbologia do "lavagante", por exemplo, dá uma nova dimensão à história e convida o leitor a refletir mesmo depois da última página.
Recomendo especialmente para leitores mais jovens ou para quem deseja começar a explorar a literatura portuguesa sobre a ditadura. É um livro breve, elegante e inteligente, que mostra como a opressão política se revela, antes de tudo, nas vidas comuns.
March 6, 2026
Com muita pena minha, foi um dos poucos casos em que o filme me fez sentir mais que o livro. A forma de contar histórias de Cardoso Pires é bonita, mas acentua demasiado a posição de marialva de Daniel e afirma “verdades absolutas” acerca da posição da mulher na sociedade que não estão nem perto da realidade. Novamente, foi uma história bonita, sentida, mas que deixa a desejar.
October 21, 2025
Este é daqueles livros que para a semana já me esqueci que o li
December 17, 2025
cecilia e femme fatale final boss
December 22, 2025
Este livro é a minha cara! Simples, rápido e eficaz retrato da opressão, da perseguição, da falta de liberdade, do sufoco que era viver sob um regime ditatorial.
December 22, 2025
este livro evidencia bem os mil e um tons de cinzento portugueses na época da ditadura
December 26, 2025
Ler este livro significa um reencontro com José Cardoso Pires, escritor de malícias e das rudes subtilezas da vida.
December 16, 2025
Nada a apontar, amor pleno às escondidas com as condições que a sociedade da época consedia, já agora, a Cecília é uma vendida.
January 20, 2022
Uma bela fotografia da solidão agridoce.
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