O vento deita abaixo uma árvore na Ribeira Lima e isso faz começar uma história. Xavier é um artista plástico que se põe a investigar o vento. Conhece Lydia, uma historiadora de arte interessada em escultura, e a sua vida complica-se alegremente. Maria, a ex-mulher de Xavier, é uma atriz em busca de si própria. E a filha dos dois, Luz, quer nada mais nada menos do que resolver o mundo.
Neste tempo da pós-verdade, qual o lugar da criação artística? Num mundo cada vez mais literal, ainda há espaço para o espírito?
Mas o romance também traz o seu contrarromance. Dimas, um heterónimo do autor, entra na história à procura do famigerado sucesso. Invejoso, busca formas de sugar o ortónimo e acaba a sabotar o livro: liberta as personagens secundárias, apodera-se de referências alheias, rouba páginas para se safar, baralha os registos da narração. Noutro plano, esta história de histórias — que vai da Ribeira Lima a Berlim, do Porto a Madrid, de Bruxelas a Heidelberg, de Lisboa a Lublin — constitui uma pergunta europeia, num tempo de divisões e guerra. Este é um romance sobre o tempo, em diferentes sentidos. Aqui há morte e nascimento, aprendizagem e mistério, e restaurantes, autoestradas, desenhos animados, música, citações, recortes de realidade, política.
JACINTO LUCAS PIRES nasceu a 4 de Julho de 1974, no Porto. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, foi cronista do diário A Capital e publicou nove livros pela editora Cotovia: Azul-Turquesa (ficção, 1998), Abre para Cá (contos, 2000), Livro Usado (viagem, 2001), Escrever, Falar (teatro, 2002), Do Sol (romance 2004), Perfeitos Milagres (romance, 2007), Assobiar em público (contos, 2008) e O verdadeiro ator (romance, 2011). Para o teatro escreveu Universos e Frigoríficos (1998, CCB/Actores Produtores Associados), Arranha Céus (1999, TNSJ/Teatro Bruto), Escrever Falar (2001, Maus Hábitos/.lilástico), Coimbra B (2003, Coimbra Capital da Cultura/.lilástico) e Octávio no Mundo (2006, PANOS/Culturgest). Mantém o blogue pessoal O que eu gosto de bombas de gasolina1 . Além disso frequentou a New York Film Academy, tendo realizado, com argumento seu, as curtas-metragens Cinemaamor (1999) e B.D. (2004). Na música escreveu letras e canta em Meio Disco, primeiro álbum da banda Os Quais. Foi mandatário da juventude da candidatura de Manuel Alegre nas eleições presidenciais de 2011.
Uma maneira tão interessante e falaciosa como muitas outras de classificar os romances é em função do seguinte critério: o romance é movido pelo enredo (uma estrutura narrativa que o autor define e aplica) ou pelas personagens? “Vento nos Olhos” pertence, claramente, a esta última categoria. O seu principal e assinalável mérito é o de pôr o leitor diante de personagens mais ou menos a meio das respectivas vidas e sustentar uma ficção complexa com base nos seus desejos, acessos de curiosidade, receios e desgostos. Assistimos a diferentes versões desse processo, intenso e exigente, que consiste em viver a vida da melhor maneira que se conseguir, em equilíbrio frágil entre o possível e o sonho, entre o ensimesmamento ditado pela dor e os saltos de fé que, de repente, surgem como uma solução inesperada, sancionada pela razão e pelo entusiasmo, para um problema que parecia insolúvel. “Vento nos Olhos” é um romance ousadamente maximalista – pelas numerosas linhas de enredo que incorpora, pelos múltiplos pontos de vista, pela coexistência de um registo mais convencional com uma vertente mais burlesca – esta protagonizada por um escritor azarado, em busca de inspiração, de dinheiro e de paciência para lidar com uma mãe gastadora e carente de atenção. Nenhum destes focos domina ou sobressai: “Vento nos Olhos” mantém um equilíbrio tenso que só se solta quando o escritor-heterónimo desaparece, de tanto duvidar de si próprio, e o romance, obedientemente, acaba porque se esgotou a matéria da ficção. A seguir, vem a vida. Resta o vento, o golpe de vento que enceta o livro e que reaparece com frequência, aludido, metaforizado ou real. Só este, demasiado frágil para se extinguir, parece poder perdurar para além do último capítulo.
“O vento nos olhos faz lágrimas. Aí está a prova de que é real a relação entre vento e espírito: o vento nos olhos faz lágrimas.”
Esta é a frase mais bonita do livro. E talvez seja a sua essência — não sei. O que sei é que há algo que já não me motiva e não me basta: as palavras bem alinhadas, bonitas, só por si. Este livro está muito bem escrito. Mas só isso não me serve. Falta-lhe (falta-me) um cimento, uma cola que lhe dê solidez. E aqui tudo é muito aéreo, disperso, com muitas vozes e pontos de vista. Se calhar é propositado, porque o tema é o vento. Não sei. Por entre estas aragens, ciclones e correntes de ar, onde tudo é intelectual, muito culto, artístico, teatral, performativo, de sala de exposições e de tertúlia literária, custou-me encontrar o foco. Talvez o defeito seja meu. Não sei. Uma das vozes, a de um heterónimo que inveja o seu ortónimo, pareceu-me particularmente confusa e maçadora: confesso que li alguns dos seus capítulos na diagonal. No entanto, a escrita é muito criativa, inventiva, alguns laivos são realmente originais. Às vezes peca por excesso de referências culturais e corre o risco de ser altiva. Mas, no geral, é agradável.