No dia em que Alejandro nasceu, no ano de 1984, em Miami, filho de pai incógnito e de uma mãe doente que morrerá pouco depois, e antes ainda de ficar entregue às tias que odeiam homens e que tentarão torná‑lo imprestável, estávamos longe de imaginar que ele sobreviveria, quanto mais ver‑lhe reservado um papel na história. Fugindo das suas tias e da frustração de não se tornar faroleiro, Alejandro embarca num cruzeiro quase sobrenatural, desembarcando por acaso em Lisboa, num mundo pós‑Grande Apagão — um cataclismo planetário que desligou todos os sistemas eléctricos por meia hora e deu a todas as mulheres um imenso orgasmo —, e encontra os caminhos que o levarão a cruzar‑se com os restantes protagonistas: Alex, o anão revolucionário com o seu amado golfinho Pablo, o sociólogo Hélder, dado a conspirações e teorias da recolhonização, e Catarina, uma mulher numa misteriosa missão que a obriga a saltitar entre continentes em busca de um homem muito especial.
Vem aí uma epidemia nunca antes vista e de consequências imprevisíveis, mas os elos da engrenagem já estão a girar. Preparem‑se para o contágio.
“Já a mãe, nas poucas ocasiões nas quais conseguia desviá-la da sua vida de pêndulo, oscilando sem cessar entre uma vassoura e um tacho, limitava-se a passar-lhe a mão gretada pelo rosto e a dizer-lhe, regressando ao esfregão de palha d’aço, isso é melhor perguntares ao teu pai rematando assim a batatinha circular da lógica doméstica.”
Um livro original, hilariante, cheio de sentido de humor, repleto de peripécias, sarcasmo, ironia, uma sátira da sociedade contemporânea. Por vezes, perdi-me na leitura mas diferente de tudo o que já li!
Não havendo nenhum spoiler propriamente dito, não consigo escrever sobre este livro sem o citar - o que pode estragar o efeito surpresa de algumas expressões para quem o for ler (e, se não passarem daqui, leiam o livro. Leiam, que é maravilhoso)
Foi o livro mais engraçado que li em muito tempo. As frases são longas, às vezes parágrafos inteiros e a pessoa embala e de repente tem que travar para ter a certeza do que leu. Não há página sem um adjectivo ou descrição como a “velha corcunda resvés ângulo recto” ou o inacreditável (quem é que se lembra de escrever isto?) “nevermind avant la lettre” para descrever um vôo nudista no Zoomarine. São páginas e páginas destas. Valério Romão domina o português a seu belo prazer, alternando o profícuo uso de caralhadas com comparações finíssimas, carregadas de referências literárias ou só mundanas (de Gramsci ao Festival Boom). O livro é tão bem escrito que me fez dar gargalhadas alto, roer-me de inveja por não me ter lembrado das comparações maradas (mas que se tornam óbvias depois de lidas) e admirar como são destruídas a Academia (ok, só mais uma citação - a Academia é o local onde se mantém “a teimosa mesmidade de distância entre onde se estava e onde se gostaria de chegar”), a gentrificação, o machismo e ainda, no meio disto tudo, ser uma viagem mágica pela portugalidade (expressão que, estou em crer, o autor arrasaria de várias formas diferentes). Ao mesmo o tempo, Valério Romão criou uma série personagens bizarras, interessantes e que vivem as peripécias mais loucas (amor por golfinhos ou trocas de comentários em blogs sobre o fim do mundo) e que anseio por encontrar no segundo volume. Todas as personagens secundárias são épicas e um cenário riquíssimo (do presidente da Câmara da Figueira da Foz a braços com uma crise de confucionismo aos ucranianos da porrada, passando por uma série de idosos muito sui generis) para toda a história. O Desfufador fez-me rir muito, apeteceu-me citá-lo a cada página. Foi como se tivesse acabado de descobrir o objecto livro. Dou 5 estrelas porque não dá para dar 6.
O enredo é intrincado mas cativante. A história avança a bom ritmo, nunca há a sensação de estarmos perdidos e de o livro não ir a lado nenhum. Mas, absolutamente brilhante é o estilo de escrita, tão inesperado quanto divertido. Expressões como “Maremoto de banha”, “Cordilheira de toucinho”, “vista a tendência para o mexilhão acabar enrabado quando duas forças se decidem pela discórdia localizada”, ou “Pichotinha engelhada” são semeadas no texto com mestria e não gratuitamente para parecer irreverente. Eu estou curiosíssimo para ler o segundo volume, e estou fortemente interessado em juntar-me à NALGA.
Uma leitura, para mim, muito fora da caixa, uma escrita muito rica, uma crítica mordaz.
Não conhecia a escrita do autor e fui surpreendida pela positiva. Exige a nossa atenção ao detalhe mas recompensa-nos com uma visão ampla e abundante do cenário.
Ri alto com algumas das descrições, fiquei mais introspectiva com outras, porque este também é um livro para refletirmos sobre a sociedade em que vivemos.
Estou muito, muito curiosa para saber onde os nossos protagonistas vão parar. Principalmente a Catarina!
Este livro é absolutamente diferente de tudo o que já li. Cheio de metáforas e usando uma linguagem por vezes corriqueira, fui acompanhando a vida de quatro personagens: Alexandre - um anão que tem um início de vida trágico mas que após fazer amizade com um golfinho, ganha uma força de gigante para enfrentar tudo e todos; Helder - na infância é obrigado a crescer e a tornar-se um homem rude do campo. Quando regressa à cidade torna-se professor de sociologia e procura reconhecimento a todo o custo. Alejandro - com uma infância sempre rodeado e protegido por mulheres consegue escapar da teia feminina para ser capacho que Pedro, um empregado de mesa de um cruzeiro. Catarina - a personagem que me provoca mais curiosidade pois neste volume ela é apenas observadora e dá-nos a conhecer o seu diário
Há momentos muito engraçados que me fizeram dar gargalhadas. Há algumas passagens mais confusas porque o autor entra num devaneio que para mim se torna um pouco difícil de acompanhar. Há situações relatadas ao pormenor que me transportaram automaticamente para o meio da acção.
Este é um livro para ser lido com bastante atenção e que está escrito de uma forma que me fez lembrar Saramago.
Tive necessidade de fazer apontamentos para não me esquecer de nada até que venha o segundo volume que espero ansiosamente.
Escárnio num ritmo vertiginoso com três personagens masculinas mal bafejadas pela sorte. Burlesco com o Alex que, levou uma bicada no traseiro e uma sentença que o limitou ao nanismo e outras nefastas circunstâncias, coitadinho com o Hélder isolado num desterro algarvio para se revelar mais tarde um oportunista hábil ou desgraçado com o Alexandro, filho de uma ex-tóxicodependente com uma qualquer limitação cognitiva mas com carisma. Tudo com estes três dá uma enorme confusão, com muitas peripécias, numa linguagem forte, com calão mas que reconhecemos do corrente no discurso oral. Contudo, meti outras leituras pelo meio porque parecia descambar e ponderei largar. O humor e a crítica valorizo e este romance é mesmo para reinar e gozar. Não o larguei.
A peste beata ao estranja. 😂 A gentrificação. Um gozo (como já referi), com tantos aspectos banais e críticos do dia a dia, mas também muitos absurdos e excessos, sem conexão real. E personagens “fora de série”.
Imperdível para homens nascidos algures nos anos 70 que cresceram em Portugal. Tenho algumas dúvidas de que possa agradar muito a outras demografias...
Começou um divertido 5, foi decaindo para um 3 numa confusão de sequências deambulantes, volta a um 4 com um fim que finalmente traz coesão à história com boa escrita a acompanhar, mas acaba por não fechar a história. Fiquei a sentir que a obra não alcançou o seu potencial, talvez o perdoe no volume 2.
Certamente um dos melhores livros portugueses a sair na segunda década do século XXI. Há aqui uma escrita profundamente estilística, feita de frases longas, quase sem pontos finais, que ao início exige habituação, mas que depois se torna surpreendentemente fluida. Quando se entra no ritmo, lê-se como se já se conhecesse aquela cadência desde sempre.
O que mais impressiona é a capacidade de captar o zeitgeist contemporâneo com uma precisão rara. Não apenas no diagnóstico, mas na forma. A sátira atravessa o livro inteiro e não funciona como mero alívio. É uma ferramenta afiada. Ri-se, muitas vezes às gargalhadas, mas esse riso vem sempre acompanhado de um desconforto subtil, como se a piada revelasse mais do que devia.
Romão constrói figuras que são quase arquétipos do presente. O professor em decadência que se deixa arrastar por teorias da conspiração, por exemplo, não é só uma caricatura. É um retrato inquietante de uma fragilidade muito concreta. E depois há o pano de fundo urbano, onde a gentrificação surge não como conceito abstrato, mas como perda sentida. Os capítulos iniciais captam com enorme sensibilidade o espírito de Portugal dos anos 80, criando uma nostalgia inesperada, sobretudo quando evoca lugares como o Cais do Sodré, esse espaço que já foi vivido como pertença e que hoje é sobretudo uma paragem turística.
Mas o livro não se esgota na ironia ou na memória. Há uma dureza muito precisa quando entra em territórios mais sombrios. O vício no jogo de Pedro é tratado com uma frontalidade que corta o humor e obriga a encarar o problema sem filtros. É talvez aí que o livro revela a sua maior força. A capacidade de oscilar entre o riso e o desconforto, entre o exagero e a lucidez.
No fim, fica a sensação de que esta é uma obra que diz muito sobre o tempo em que foi escrita, mas que o faz sem nunca se tornar panfletária. Tudo passa pela linguagem, pelo ritmo, pelo exagero controlado. E isso torna-a não só relevante, mas difícil de esquecer.
Nunca tinha lido nada de Valério Romão, mas com este livro ganhou um fã. Comprei o livro pois achei a capa e título interessantes. Vê-se claramente que o autor domina a língua portuguesa, o que torna o livro numa leitura fresca, divertida e sobretudo refletiva. É um livro super engraçado, onde o uso do humor e da sátira quer a nível da masculinidade e da turistificação lisboeta, atingem o leitor num ponto rebuçado entre ambos temas. Todas as personagens têm traços de personalidade muito vincados, o que me deixa curioso para ver como vão se relacionar no próximo volume. Mal posso esperar pelo próximo!
Um livro que me foi complicado de ler embora tenha gostado a nível geral. Tem várias temáticas, sempre com um sentido de humor presente. Uma sátira muito bem escrita,com capítulos enormes. Temos Alejandro que foi criado por tias que odeiam homens, um anão que é amigo de um golfinho e uma mulher que anda em busca de um homem de um homem especial. 3 personagens que vão sendo desenvolvidas ao longo das 416 páginas que o livro tem de uma maneira muito bem feita. Para quem não gosta de ver palavrões escritos não recomendo pois volta e meia vai aparecer um “caralho” escrito e várias vezes “colhoes”
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Tão surpreendente quanto criativa, a escrita de Valério Romão é absolutamente original. Tão original que por vezes parece estarmos mais perante uma absoluta master class de escrita criativa. E neste aspecto é realmente imbatível. Falta-lhe no entanto profundidade e consistência de enredo para poder ser considerado um grande romance.
De qualquer forma é muito divertido e, apesar de exigente para se conseguir acompanhar na sua totalidade, vale muito a pena.
Que grande viagem este livro foi, nem sempre fácil! Passem numa livraria, leiam as duas primeiras páginas - que deve dar mais ou menos uma frase - e se gostarem arrisquem. Certamente que alguns risos esta história vai conseguir sacar.
No mínimo, original. Uma escrita mordaz, satírica e inteligente, mas que acabei por achar cansativa e enrolada. Para mim, é um daqueles casos em que menos teria sido mais. Uma leitura muito fora da caixa.
adorei, só não dou cinco estrelas, porque me perdi muitas vezes na sequência dos parágrafos, acredito que é intencional mas foi desafiante. história e detalhes delirantes!