Nunca deixa de me fascinar a forma como Valter Hugo Mãe consegue sempre ou suavizar emoções e sentimentos tão intensos e dolorosos através das palavras e reflexões mais adequadas. É um tipo de arte onde, para mim, VHM é inigualável.
Neste livro, que regista perdas relevantes para o autor, nunca deixa de se encontrar uma mensagem de esperança, de fé, de coragem, ainda que as marcas se façam sentir. Aliás, são elas o combustível para um testemunho tão puro, tão genuíno. E nem a mágoa e as dores que suporta beliscam a bondade e o humanismo de Valter e que todos os seus livros fazem transparecer. É isso que faz com que seja um dos meus autores preferidos (ou o), que me faz procurar inspiração e luz nas suas partilhas. Há sempre pontos de encontro capazes de nos orientar.
Da esperança
“Contudo, o mundo começou a diminuir com a tua morte. Ficou do tamanho de um punho fechado, sobretudo batendo duro de encontro ao peito. Depois, lentamente, foi abrindo e virou infinidade”
Da bondade
“O tamanho da vida está todo dentro do amor. Se amarmos, somos extensos, infinitos. Se não amarmos, recolhemos como bocadinhos de poeira sem sentido, sem valor.”
Da dura realidade que se transforma numa dócil homenagem
“Um pai morto tem ainda muita serventia. Pode ser tão intenso que interfere com tudo.”
Da arte
“A Literatura acontece em todos os sentidos e não se inibe perante verdades ou mentiras. Usa tudo, como alarve sem limites senão os da sua própria imaginação, a vontade de se instalar como substituta absoluta da vida. Por vezes, a Literatura tange a vida como se até nós nos confundíssemos, baralhados entre o que é verdade e o que parece verdade…”
Da angústia e da dor
“Por mais que lhes queiramos pedir, à morte de um filho todas as mães e pais começam por ficar irremediavelmente sós e demoram até poderem ser minimamente acompanhados. (…) Compete-nos aguardar até que sirvamos de companhia. Atentos, empenhados, procurando descodificar a Língua estrangeira com que falam, o abraço que transcende fronteiras, que rompe a clausura, até que nos façamos testemunhas de quem foi ao inferno e voltou.”
Do expoente máximo do amor
“O filho que morreu não equivale ao nada. Muito ao contrário. Ele é uma demasia. Um verdadeiro gigante que, à força do amor, jamais cessará de crescer e poderá ocupar tudo.”
Da inocência
“No futuro, se eu puder, vou ser também selvagem, mas dócil. Adoraria que o futuro me educasse para ser forte e em paz. Um animal calmo que reparasse apenas no suave das coisas, igual a quem não tem sequer conceitos terríveis, não passou por nada que passei, não perdeu ninguém. No futuro, se eu puder, serei de cor exuberante e estarei na sombra clara, sem ferir, à espera de ser lembrado para saber regressar a casa.”
Da realidade
“Os meus mortos andam ao serviço de minhas falhas porque os quero virtuosos a colmatar quanto me falta e quanto não sei. Uso-os como escoras de meu edifício para que eu não tombe diante dos abismos em que me instalo.”
A partilha que Valter Hugo Mãe evidencia neste livro e que engloba tudo o que constitui vida faz deste o melhor livro que li este ano.