Romance bastante ambíguo, em que se vê certos lampejos de criação artística de altíssimo nível e outros momentos de uma prosa com pouca vivacidade e repleta de limites formais e de conteúdo. No fim, porém, pode-se dizer que o livro tem qualidade, como sua prosa, sua narrativa e seus caminho. A narrativa de Almeida carrega bastante de um certo espírito de época naturalista e romântica, seguindo certos preceitos positivistas, deterministas ao mesmo tempo que romantiza, especialmente na sua conclusão, o esforço e o trabalho individual.
Personagens interessantes no livro, de fato, são as mulheres: Camila, Ruth, Nina são o centro da grande qualidade artística do romance, enquanto outros como D. Itelvina, Francisco Teodoro, Mário, Dr. Gervásio são personagens aparentemente pior construídos, por condizerem de maneira rasa com a narrativa, ainda que construam o imaginário do livro de modo central. Deste modo, a narrativa traz seu valor mais forte nos grandes discursos e questionamentos sobre a posição social da mulher, dentro e fora do ambiente doméstico, principalmente inserida numa lógica colonial no período de transição entre o Império e a República. O romance que se passa nos idos de 1892 traz em uma série de momentos este tipo de reflexão, que, centrado especialmente na figura forte da protagonista Camila, na intelectual e libertária Ruth e mais profundo ainda na agregada Nina, constitui uma redução bastante profunda das contradições do Brasil alforriado, mas ainda bastante incapaz de agregar a si uma emancipação. Neste sentido, então, que talvez Nina seja a personagem mais interessante do livro: a prima agregada da casa, apaixonada pelo primo Mário mas incapaz de realizar sua ascensão por sua posição ingrata de agregada (tipo tão característico das práticas clientelistas do Brasil).
Contudo, o livro parece que ao seu final traz uma certa ingenuidade liberal de uma possibilidade de emancipação pelo trabalho: sua conclusão, nesta linha, parece bastante evidente, centrada na reviravolta do penúltimo capítulo e na romantização do trabalho braçal de Camila e Nina. Ademais, aparentemente isto é fortalecido pela constituição do capítulo final e o anunciado concerto de Ruth. Ainda assim, estas ambiguidades são o que constroem o valor de um livro que parece absorver pela voz de uma grande autora dos fins do século XIX e começo do XX as próprias contradições do Brasil que permanecem até hoje.