Depois de sua estreia com Pelas entranhas, Triz Parizotto retorna à cena literária com sua escrita jovem, afiada e provocadora em Letargia ― uma coletânea de quatro contos de terror que exploram temas clássicos sob sua perspectiva única.
No conto Carne nos ossos, o leitor é conduzido por uma narrativa de experimento marcada por horror corporal, psicológico e existencial. Em Das tripas coração, o apocalipse zumbi é retratado com elementos de horror cômico, permeado por sobrevivência, convivência e violência. No terceiro conto, Sangue frio, traumas emocionais se entrelaçam a relações vampíricas, em um horror gótico, sobrenatural e ocultista. O último conto, Me ouça de dentro, uma investigação se desenrola em meio a um cenário de perturbação mental e alterações cognitivas provocadas por um som desconhecido.
Trazendo horror e filosofia com um toque de humor, a autora costura a beleza e o bizarro, a vida e a morte. le·tar·gi·a (s.f.) É existir sem sentir, se portando na Terra feito um embrião suspenso no útero.
É o corpo que respira apenas por teimosia da carne, aprisionado no cárcere da consciência.
É a mente que rejeita o mundo e recusa a realidade, imersa num torpor viscoso – como dormir acordado.
É ser abandonado pela própria consciência, caindo numa ausência sublime de livre-arbítrio, entregue a uma inércia mórbida.
Uma das minhas leituras mais esperadas do ano! Acompanho a Triz há algum tempo e estava muito animada para ler as histórias que ela comentou o processo em live. É palpável o amadurecimento na escrita dela. Se “Pelas Entranhas” foi uma excelente estreia, “Letargia” comprova que os trabalhos futuros da Triz serão cada vez melhores. Que delícia foi ler esse livro.
Essa resenha não tem spoilers, mas contém a lista de gatilhos (que identifiquei até o momento) de cada conto!
A CARNE NOS OSSOS: O livro já começa com um baque. De longe o conto que mais me agoniou ler, mas num bom sentido! Foi o conto que mais me arrepiou. A voz em segunda pessoa deixa a atmosfera ainda mais assustadora, te mergulhando dentro dessa história e, mesmo sendo jogado sem contexto prévio algum no que está acontecendo, em menos de três páginas você entende . E você continua lendo, e o que você entendeu começa a ser materializado e você sente cada segundo disso. Adorei que a identidade dos personagens ficou vaga, nem as ilustrações dão à entender muito sobre quem são. Permite que a sua imaginação faça o trabalho e, consequentemente, aumenta as a chances de você ir à lugares cada vez mais sombrios. Não sei se será uma marca registrada da autora, mas esto gostando de ter livros começando com o menor - e mais agonizante - conto. Sabe, tem só QUATORZE páginas! Pareceu muito mais.
Gatilhos: body horror, morte, assassinato, sangue, conservação viva de humanos, violência médica, mutilação, decapitação, violência;
DAS TRIPAS CORAÇÃO: Esse conto é para quem gostou da prosa levemente existencialista e com críticas ao sistema de “Pelas Entranhas”. Apesar de não ser no mesmo nível que o livro anterior, carrega consigo um pouco desse sentimento - e combina muito com o ar de fim de mundo que esse conto carrega. É sobre o início do fim do mundo, e inclusive, adorei ver um apocalipse zumbi acontecendo no meio de São Paulo. A relação pai e filha explorada na história deu um quentinho no coração e devo dizer que os personagens secundários também foram muito bem executados. Adorei Ana e Leticia e o grupo da Agda na fábrica. A explicação do surgimento dos zumbis é simples e direta ao ponto, mas muito bem executada. Gostei da implicação sobre a consciência dos seres afetados pelo vírus - não só pela Lina mas também pelos subtextos que os detalhes da história nos dá. Não imaginei no início para onde a história se encaminharia, e… uau. Fiquei triste, indignada, com nojo do ser humano e torcendo muito para que as pessoas sofram por suas ações e as consequências delas.
Gatilhos: sangue, morte, violência armada, gore, excrementos, abuso sexual (ameaça em página e presunção de acontecido fora de página), necrofilia, assassinato, suicídio, vômito, body horror, envenenamento;
SANGUE FRIO: que conto dinâmico! Somos só jogamos nesse cenário para acompanhar a Érica, e nossa!, gostei muito. Foi tudo apresentado de forma tão fluída que você nem tem tempo de pensar sobre querer detalhamento sobre como funciona o vampirismo nesse universo ou sobre o que de lore nos é informado. Nem sequer senti falta enquanto lia, simplesmente acatei o que entregavam tranquilamente. É necessário habilidade para conseguir esse feito na escrita! Como todos os contos da Triz, por mais que devoraria mais centenas de páginas sobre cada história, fiquei contente com o que foi entregue. Gostei muito que o conto entregou ao leitor a ambientação confusa de se estar em um sonho, juntamente com Érica achei estar dentro de um sonho do início ao fim.
ME OUÇA DE DENTRO: uau. Que maneira de fechar o livro. Mais um pequeno conto super impactante. Não parece ser tão curto, e não me importaria de ter mais. Mas parte da graça está em não ter todas as respostas, deixar a imaginação preencher as lacunas. Não temos uma explicação ao mesmo tempo em que temos, sabe?
Gatilhos: mutilação, sangue, suicídio, gore, body horror, overdose, assassinato;