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Os periquitos somos nós
Um romance sobre arte, especulação e a crise da habitação.
António Prata é um presidente da câmara pequenino, com uma voz fininha, que quer vender Lisboa aos ricos.
O seu sonho são unicórnios e estacionamento privado em Campo de Ourique. Soa-vos familiar? Neste cenário que todos conhecemos bem, é-nos apresentado um novo reality show, Capital da Arte, que quer eleger o melhor artista português, premiando-o com um dos ateliês dos Coruchéus, em Alvalade, que deviam ser do povo mas não são.
Na verdade, este reality show esconde uma realidade muito mais sinistra que assenta na especulação imobiliária e na perda da essência artística. Escrito com humor, irreverência, asneiras e calão, como o autor já nos habituou, este livro é uma ode e, simultaneamente, uma crítica a Lisboa e à forma como tem vindo a tratar os seus habitantes.
António Prata é um presidente da câmara pequenino, com uma voz fininha, que quer vender Lisboa aos ricos.
O seu sonho são unicórnios e estacionamento privado em Campo de Ourique. Soa-vos familiar? Neste cenário que todos conhecemos bem, é-nos apresentado um novo reality show, Capital da Arte, que quer eleger o melhor artista português, premiando-o com um dos ateliês dos Coruchéus, em Alvalade, que deviam ser do povo mas não são.
Na verdade, este reality show esconde uma realidade muito mais sinistra que assenta na especulação imobiliária e na perda da essência artística. Escrito com humor, irreverência, asneiras e calão, como o autor já nos habituou, este livro é uma ode e, simultaneamente, uma crítica a Lisboa e à forma como tem vindo a tratar os seus habitantes.
258 pages, Kindle Edition
Published October 20, 2025
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Community Reviews
Displaying 1 - 22 of 22 reviews
December 26, 2025
Achei Sinais de Fumo um rasgo de originalidade, e acho o Alex Couto uma promessa muito interessante da literatura portuguesa contemporânea.
Mas nada esteriliza mais a imaginação do que procurar transformar um romance num panfleto. Quando se decide trocar complexidade por hashtags, arrisca-se a produzir literatura com o mesmo valor nutricional de um tweet viral: barulhenta, confiante mas datada e supérflua. Há nessa ânsia de parecer relevante- invocando injustiças e slogans como talismãs progressistas- uma fragilidade quase comovente. É a estética do autoengano, a crença de que repetir as fórmulas certas absolve do pensamento; não só ao autor, a uma geração inteira.
O resultado é uma obra domesticada pelo moralismo da própria bolha, escrita para que as almas virtuosas das batalhas digitais possam sublinhar frases como quem recolhe pontos para bingo de pureza ideológica.
A tragédia é que o impulso totalitário raramente vem com farda, vem com likes e cheio boas intenções. O mantra “tudo é político” soa profundo até alguém perceber que é também (principalmente) a negação da liberdade estética - e um dos mais fascistas e totalitários sentimentos. Reduzir a arte a instrumento de propaganda “do bem” é o pesadelo de qualquer espírito livre: um mundo onde a imaginação tem de apresentar justificações morais antes de ser publicada. A arte que existe apenas para provocar acaba a provocar sobretudo indiferença e o choque, quando se torna doutrina, morre na previsibilidade.
E pior ainda: transforma escritores promissores em burocratas do discurso certo, militantes de causas que já nem sabem articular sem o auxílio do meme.
Mas nada esteriliza mais a imaginação do que procurar transformar um romance num panfleto. Quando se decide trocar complexidade por hashtags, arrisca-se a produzir literatura com o mesmo valor nutricional de um tweet viral: barulhenta, confiante mas datada e supérflua. Há nessa ânsia de parecer relevante- invocando injustiças e slogans como talismãs progressistas- uma fragilidade quase comovente. É a estética do autoengano, a crença de que repetir as fórmulas certas absolve do pensamento; não só ao autor, a uma geração inteira.
O resultado é uma obra domesticada pelo moralismo da própria bolha, escrita para que as almas virtuosas das batalhas digitais possam sublinhar frases como quem recolhe pontos para bingo de pureza ideológica.
A tragédia é que o impulso totalitário raramente vem com farda, vem com likes e cheio boas intenções. O mantra “tudo é político” soa profundo até alguém perceber que é também (principalmente) a negação da liberdade estética - e um dos mais fascistas e totalitários sentimentos. Reduzir a arte a instrumento de propaganda “do bem” é o pesadelo de qualquer espírito livre: um mundo onde a imaginação tem de apresentar justificações morais antes de ser publicada. A arte que existe apenas para provocar acaba a provocar sobretudo indiferença e o choque, quando se torna doutrina, morre na previsibilidade.
E pior ainda: transforma escritores promissores em burocratas do discurso certo, militantes de causas que já nem sabem articular sem o auxílio do meme.
December 28, 2025
Sentir que a voz de um autor é igual aquela voz na nossa cabeça é provavelmente o mais visto que ja me sentir por uma obra.
O Alex conseguiu que achasse que eramos a mesma pessoa em momentos
O Alex conseguiu que achasse que eramos a mesma pessoa em momentos
November 3, 2025
antes de mais, Voz, quero dizer que o alex é um querido, bem vestido e cheio de bom gosto. sou também muito fascinada pelo universo e conceito dos reality shows e inicialmente foi isso que me levou a lê-lo. é um livro que aborda questões pertinentes sobre arte e estética, gentrificação e outras coisas mt importantes que ficam para falar na gala de domingo.
achei que havia passagens de texto muito rápidas ou curtas, com pouco detalhe, quase como se fosse uma memória descritiva de um guião, o que btw, funcionaria muito bem em televisão, por ser um livro muito visual. não, não vou nomear o alex para sair, porque pretendo continuar a ler coisas dele. bjsss
achei que havia passagens de texto muito rápidas ou curtas, com pouco detalhe, quase como se fosse uma memória descritiva de um guião, o que btw, funcionaria muito bem em televisão, por ser um livro muito visual. não, não vou nomear o alex para sair, porque pretendo continuar a ler coisas dele. bjsss
July 12, 2026
“É impossível não sentir que Lisboa às vezes gosta de nos fazer sofrer um bocadinho. Que nos dá o pão para a boca, mas depois tira-o devagar”
É a única frase que fica comigo deste livro. Honestamente fiquei muito desapontada porque a premissa é, de facto, interessante e moderna, necessária para a reflexão acerca do (ínfimo) espaço deixado para a cultura no mundo de hoje, mas a execução….deixa muito a desejar.
A linguagem foi escolhida de forma absolutamente desadequada, desnecessária e desconfortável (apesar de ser linguagem que eu uso diariamente); as personagens não foram aprofundaras como mereciam (para além de serem demasiadas); e quem nunca viveu em Lisboa perde mais de metade das referências. E falando em referências, percebeu-se exatamente que muitas das personagens foram baseadas em celebridades reais e isso pareceu-me muito original, apesar de claramente propositado.
Enfim, fiquei desiludida e isto pareceu uma minissérie do tiktok. Dispensava os anglicismos usados pelo narrador (nas falas, entendo) quando há uma palavra em português para dizer exatamente o mesmo.
Aprecio a criatividade do autor para criar várias obras em cada episódio com críticas atuais e sarcásticas, mas faltou muito, muito mais.
É a única frase que fica comigo deste livro. Honestamente fiquei muito desapontada porque a premissa é, de facto, interessante e moderna, necessária para a reflexão acerca do (ínfimo) espaço deixado para a cultura no mundo de hoje, mas a execução….deixa muito a desejar.
A linguagem foi escolhida de forma absolutamente desadequada, desnecessária e desconfortável (apesar de ser linguagem que eu uso diariamente); as personagens não foram aprofundaras como mereciam (para além de serem demasiadas); e quem nunca viveu em Lisboa perde mais de metade das referências. E falando em referências, percebeu-se exatamente que muitas das personagens foram baseadas em celebridades reais e isso pareceu-me muito original, apesar de claramente propositado.
Enfim, fiquei desiludida e isto pareceu uma minissérie do tiktok. Dispensava os anglicismos usados pelo narrador (nas falas, entendo) quando há uma palavra em português para dizer exatamente o mesmo.
Aprecio a criatividade do autor para criar várias obras em cada episódio com críticas atuais e sarcásticas, mas faltou muito, muito mais.
January 30, 2026
Não sabia que um livro tão político podia ser engraçado!
Este é os piriquitos… ele mostra-nos uma competição de arte, sendo um ateliê em Lisboa o premio. Conceito incrível right?!
Ya idk eu acho que faltou algumas coisas
Por exemplo eu sinto que nos conectamos muito mais com os artistas do que com o próprio personagem principal. Para além de sempre que era momento de programa, ouvir a crítica das obras sentia sempre que eles estavam com pressa para apanhar o comboio. O que o programa só tinha 3 minutos de ar? Tem muitas referências modernas fixes mas também tem umas questionáveis que parece que foram só postas lá para dar uma sacolada de cultura de redes sociais. And also o vencedor 💀?
Overall o meu enjoyment não foi o melhor eu estava muito mais á espera de ver sobre a arte e ter mais reflexões escritas mas foi muito mais sobre o reality show em si e sobre as relações entre participantes.
Este é os piriquitos… ele mostra-nos uma competição de arte, sendo um ateliê em Lisboa o premio. Conceito incrível right?!
Ya idk eu acho que faltou algumas coisas
Por exemplo eu sinto que nos conectamos muito mais com os artistas do que com o próprio personagem principal. Para além de sempre que era momento de programa, ouvir a crítica das obras sentia sempre que eles estavam com pressa para apanhar o comboio. O que o programa só tinha 3 minutos de ar? Tem muitas referências modernas fixes mas também tem umas questionáveis que parece que foram só postas lá para dar uma sacolada de cultura de redes sociais. And also o vencedor 💀?
Overall o meu enjoyment não foi o melhor eu estava muito mais á espera de ver sobre a arte e ter mais reflexões escritas mas foi muito mais sobre o reality show em si e sobre as relações entre participantes.
December 9, 2025
Conto muitos “ahahah” anotados a lápis nas margens do Periquitos, talvez por ser uma sátira divertida e eficaz sobre mediatização, arte, crise imobiliária, turismo e luta de classes numa cidade de Lisboa governada por um presidente baixinho (como o livro não se cansa de nos lembrar). E ainda aprendi qualquer coisa com o name dropping de referências artísticas.
Depois de, no romance de estreia “Sinais de Fumo”, o Alex nos ter mostrado que sabe construir personagens dos quais sentimos falta nos interregnos da leitura, com os seus diálogos urbanos e espirituosos (enrolados em mortalhas de paranóia), aqui traz-nos uma narrativa cuja originalidade passa por tornar protagonista o seu próprio formato. O reality show.
O jornalista/criador de conteúdo Tomás da Cunha (Tommy See Ya) até pode ser o tuk tuk que que nos leva de capítulo em capítulo, e até pode pender sobre ele o dilema moral que é devido a qualquer herói, mas o mais interessante foi encontrar o reality show como formato literário. Numa era em que estamos constantemente a projectar a realidade para um mundo digital (e passamos cada vez mais tempo com esse lado virtual), o exercício simples (mas não óbvio) de trazer essa estética para texto é irónico e provocador. Torna o reality show, que é a coisa mais mainstream que há, num peixe fora de água. Grafado na página, fica completamente fora do seu ambiente, parece obsoleto e isso tem bastante graça; deixa de servir para sustentar o simulacro realista para se tornar um registo do absurdo.
E que absurdo vem a ser esse em particular? A mediatização da arte contemporânea pelo poder político e pelos interesses privados por simples carolice, ou melhor, com o objectivo de inflacionar ainda mais o preço do metro quadrado em Lisboa.
A arte continua a ser arte quando o processo é televisionado? Quando também é conteúdo? Quando também é campanha promocional? E o que é que a especulação imobiliária tem que ver com isso? Tudo: o valor da arte que decora um T3 nas Avenidas Novas (um Kandinsky na parede; uma Eames na sala) é o melhor investimento não-especulativo possível para quem quer rentabilizar a propriedade.
A dada altura, a artista a concurso Carol O’Neill pergunta se acham que os artistas ficam parecidos com a própria arte. O Angel acha que sim. A Maria acha simplesmente que passamos a conhecer os artistas pela sua arte, o que provoca uma confusão de identidade. Dei-me de bom grado a essa confusão e quis andar atrás dos participantes mais pela curiosidade sobre o que iriam produzir a seguir do que pela psicologia. A introspecção do Periquitos acontece a outro nível, o das reflexões sobre arte, dinheiro e cidade, que o autor vai distribuindo em à-partes que podem aparecer numa conversa, no meio de uma descrição ou ter um espaço próprio nos excelentes números “Tommy dá lições de arte”. As apreciações de estilo também não faltam, sobre quem veste o quê (a Ralph Lauren veste os participantes para as galas, mas também há troncos nus e manga cavas) e o que isso nos diz sobre o lugar daquela pessoa no escalão do IRS e no zeitgeist.
Tal como no romance anterior, passado em Setúbal, a escrita é altamente cinematográfica, com trejeitos de oralidade e referências millenial que a tornam distinta.
Depois de, no romance de estreia “Sinais de Fumo”, o Alex nos ter mostrado que sabe construir personagens dos quais sentimos falta nos interregnos da leitura, com os seus diálogos urbanos e espirituosos (enrolados em mortalhas de paranóia), aqui traz-nos uma narrativa cuja originalidade passa por tornar protagonista o seu próprio formato. O reality show.
O jornalista/criador de conteúdo Tomás da Cunha (Tommy See Ya) até pode ser o tuk tuk que que nos leva de capítulo em capítulo, e até pode pender sobre ele o dilema moral que é devido a qualquer herói, mas o mais interessante foi encontrar o reality show como formato literário. Numa era em que estamos constantemente a projectar a realidade para um mundo digital (e passamos cada vez mais tempo com esse lado virtual), o exercício simples (mas não óbvio) de trazer essa estética para texto é irónico e provocador. Torna o reality show, que é a coisa mais mainstream que há, num peixe fora de água. Grafado na página, fica completamente fora do seu ambiente, parece obsoleto e isso tem bastante graça; deixa de servir para sustentar o simulacro realista para se tornar um registo do absurdo.
E que absurdo vem a ser esse em particular? A mediatização da arte contemporânea pelo poder político e pelos interesses privados por simples carolice, ou melhor, com o objectivo de inflacionar ainda mais o preço do metro quadrado em Lisboa.
A arte continua a ser arte quando o processo é televisionado? Quando também é conteúdo? Quando também é campanha promocional? E o que é que a especulação imobiliária tem que ver com isso? Tudo: o valor da arte que decora um T3 nas Avenidas Novas (um Kandinsky na parede; uma Eames na sala) é o melhor investimento não-especulativo possível para quem quer rentabilizar a propriedade.
A dada altura, a artista a concurso Carol O’Neill pergunta se acham que os artistas ficam parecidos com a própria arte. O Angel acha que sim. A Maria acha simplesmente que passamos a conhecer os artistas pela sua arte, o que provoca uma confusão de identidade. Dei-me de bom grado a essa confusão e quis andar atrás dos participantes mais pela curiosidade sobre o que iriam produzir a seguir do que pela psicologia. A introspecção do Periquitos acontece a outro nível, o das reflexões sobre arte, dinheiro e cidade, que o autor vai distribuindo em à-partes que podem aparecer numa conversa, no meio de uma descrição ou ter um espaço próprio nos excelentes números “Tommy dá lições de arte”. As apreciações de estilo também não faltam, sobre quem veste o quê (a Ralph Lauren veste os participantes para as galas, mas também há troncos nus e manga cavas) e o que isso nos diz sobre o lugar daquela pessoa no escalão do IRS e no zeitgeist.
Tal como no romance anterior, passado em Setúbal, a escrita é altamente cinematográfica, com trejeitos de oralidade e referências millenial que a tornam distinta.
March 4, 2026
A ideia é original e as críticas (à cidade, executivo e ao mundo das artes) acertam na mouche, mas infelizmente não adorei a escrita.
December 19, 2025
Um livro divertidamente ácido, um dos melhores narradores que já li nos últimos tempos e um final brutalmente realista e no ponto. Estruturalmente fresco e bem concebido, é uma leitura que nunca deixa de recorrer a um suspense próprio da competição de um concurso. Adorei o livro, adorei as personagens e o Alex Couto passou a ser uma das minhas vozes preferidas nacionais.
January 11, 2026
Gostei muito da escrita de *Os Periquitos Somos Nós*. Há ali uma voz muito própria, reconhecível. Tendo tido a oportunidade de conhecer o autor em pessoa, a sensação durante a leitura foi precisamente essa: como se estivesse a ouvi-lo contar a história.
A história gira em torno de um reality show artístico e é aqui que começam também os meus "problemas". Sendo da área das artes, senti falta de uma fase inicial de brainstorming mais difícil. A arte, pelo menos da forma como a conheço, raramente nasce de forma rápida ou linear. O tempo apresentado (sete semanas, sete obras) pareceu-me pouco credível para o tipo de criações que o livro sugere. Um formato mais longo, talvez sete meses, faria mais sentido e permitiria algo que senti falta ao longo de toda a leitura: tempo para conhecer verdadeiramente as personagens.
As personagens são bem definidas, sim, mas também bastante estáticas. São aquilo que são desde o início até ao fim. No início, admito que vi isto como uma falha mas é difícil ignorar que isso pode ser também uma escolha consciente. Afinal, num reality show, as pessoas são frequentemente reduzidas a pó são tendencialmente mais fúteis.
Assumindo tudo isto como propositado, *Os Periquitos Somos Nós* acaba por ser um exagero do que está a começar a acontecer, principalmente com a facilidade de criar tudo em segundos com A.I. e de desvalorizar o trabalho de quem realmente aprende a fazer. Os periquitos são coloridos, chamativos, mas vivem em gaiolas. Repetem sons, são observados e os que rondam Lisboa são quase uma praga.
A história gira em torno de um reality show artístico e é aqui que começam também os meus "problemas". Sendo da área das artes, senti falta de uma fase inicial de brainstorming mais difícil. A arte, pelo menos da forma como a conheço, raramente nasce de forma rápida ou linear. O tempo apresentado (sete semanas, sete obras) pareceu-me pouco credível para o tipo de criações que o livro sugere. Um formato mais longo, talvez sete meses, faria mais sentido e permitiria algo que senti falta ao longo de toda a leitura: tempo para conhecer verdadeiramente as personagens.
As personagens são bem definidas, sim, mas também bastante estáticas. São aquilo que são desde o início até ao fim. No início, admito que vi isto como uma falha mas é difícil ignorar que isso pode ser também uma escolha consciente. Afinal, num reality show, as pessoas são frequentemente reduzidas a pó são tendencialmente mais fúteis.
Assumindo tudo isto como propositado, *Os Periquitos Somos Nós* acaba por ser um exagero do que está a começar a acontecer, principalmente com a facilidade de criar tudo em segundos com A.I. e de desvalorizar o trabalho de quem realmente aprende a fazer. Os periquitos são coloridos, chamativos, mas vivem em gaiolas. Repetem sons, são observados e os que rondam Lisboa são quase uma praga.
February 15, 2026
É o terceiro livro que leio do Alex Couto e, uma vez mais, encontro nele as marcas indeléveis que me fazem gostar tanto do que escreve: um cruzamento inusitado da linguagem de rua com o refinamento literário, como quem cruza break dance no asfalto com grand jetés dignos do Kirov, e também uma malícia na ironia que apimenta a prosa permanentemente, não importa as dores ou euforias que ilustra.
Nestes “Periquitos”, contudo, encontro mais uma satisfatória surpresa: é diferente, tão diferente, do Sinais de Fumo, que já de si era singular em comparação com o Ponta de Corno (o Ponta de Corno é o Amarcord, e o Sinais é Trainspotting). Os periquitos tresandam a Lisboa, com todos os seus defeitos, encantos e cinismos, como o Sinais tresandava a Setúbal, com todas as suas virtudes, falhas, sol e sal.
Um prodígio de originalidade, com obras de arte imaginadas em catadupa, personagens de carne e osso, embora todas elas clichés do que os reality shows oferecem, e uma linguagem e estrutura narrativa que nos deixa no centro de um triângulo das bermudas onde os vértices são a TV, o TikTok e a literatura.
Por fim, a intervenção sempre presente, mas nunca panfletária, sobre o sonho proibido de viver na capital, sobre o elevador social que encrava, sobre os ricos cheios de causas que mesmo assim não evitam o pecado de ganhar sempre, e sobre os remediados cheios de ganas que não evitam o pecado de gostar dos ricos.
Parabéns!
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
Nestes “Periquitos”, contudo, encontro mais uma satisfatória surpresa: é diferente, tão diferente, do Sinais de Fumo, que já de si era singular em comparação com o Ponta de Corno (o Ponta de Corno é o Amarcord, e o Sinais é Trainspotting). Os periquitos tresandam a Lisboa, com todos os seus defeitos, encantos e cinismos, como o Sinais tresandava a Setúbal, com todas as suas virtudes, falhas, sol e sal.
Um prodígio de originalidade, com obras de arte imaginadas em catadupa, personagens de carne e osso, embora todas elas clichés do que os reality shows oferecem, e uma linguagem e estrutura narrativa que nos deixa no centro de um triângulo das bermudas onde os vértices são a TV, o TikTok e a literatura.
Por fim, a intervenção sempre presente, mas nunca panfletária, sobre o sonho proibido de viver na capital, sobre o elevador social que encrava, sobre os ricos cheios de causas que mesmo assim não evitam o pecado de ganhar sempre, e sobre os remediados cheios de ganas que não evitam o pecado de gostar dos ricos.
Parabéns!
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
June 21, 2026
3.5 estrelas redondinhas (mas o meu coração lisboeta decidiu arredondar para cima
ler os periquitos somos nós foi uma experiência estranhamente liminar, alex couto conseguiu criar algo que é, em simultâneo, dolorosamente atual, hiper nicho e absurdamente intemporal.
we had it all !! romance, tramas (quase invisíveis de tão subtis, mas ainda assim presentes), ganza, um casamento e, de repente, a sobriedade de um suicídio.
adorei as referencias mediaticas, senti-me de tal forma imerso nos concorrentes que quase dei por mim a idealizar a minha própria participação no reality show.
a estrutura de cada capítulo ser um episódio, interpolado com a vida fora do ecrã, foi definitivamente uma escolha.
no entanto, como careta que sou, nem tudo foi poesia urbana e a meio do caminho, houve ali passagens que souberam um bocadinho a enchidos, apenas para depois culminar num final que me pareceu apressado demais. o epílogo, apesar de sofrer desse rushing, acabou por ser o meu capítulo favorito.
este livro deixou-me com aquela ressaca literária agridoce. talvez o erro tenha sido meu por projetar demasiadas expectativas numa narrativa anticapitalista ancorada em alvalade. don't get me wrong, é um livro incrivelmente bom, mas fica o sabor a um 3.5 robusto que se veste de 4 estrelas (pela audácia e pela estética.
ler os periquitos somos nós foi uma experiência estranhamente liminar, alex couto conseguiu criar algo que é, em simultâneo, dolorosamente atual, hiper nicho e absurdamente intemporal.
we had it all !! romance, tramas (quase invisíveis de tão subtis, mas ainda assim presentes), ganza, um casamento e, de repente, a sobriedade de um suicídio.
adorei as referencias mediaticas, senti-me de tal forma imerso nos concorrentes que quase dei por mim a idealizar a minha própria participação no reality show.
a estrutura de cada capítulo ser um episódio, interpolado com a vida fora do ecrã, foi definitivamente uma escolha.
no entanto, como careta que sou, nem tudo foi poesia urbana e a meio do caminho, houve ali passagens que souberam um bocadinho a enchidos, apenas para depois culminar num final que me pareceu apressado demais. o epílogo, apesar de sofrer desse rushing, acabou por ser o meu capítulo favorito.
este livro deixou-me com aquela ressaca literária agridoce. talvez o erro tenha sido meu por projetar demasiadas expectativas numa narrativa anticapitalista ancorada em alvalade. don't get me wrong, é um livro incrivelmente bom, mas fica o sabor a um 3.5 robusto que se veste de 4 estrelas (pela audácia e pela estética.
This entire review has been hidden because of spoilers.
December 24, 2025
Foi uma leitura rápida, muito entretida. Acho que falta um pouco mais de profundidade e de mais dimensão nas obras em si.
Já sigo este autor através das redes e li o seu anterior livro, Sinais de Fumo. Claramente Alex Couto tem uma linguagem muito contemporânea e com muita cultura que ajuda a nos contextualizar num momento e que nos serve de voz. As referências são muitos, desde a arte, passando pela música, jogos e literatura (gostei particularmente da referência ao barão Harkonnen).
Acho que há muito cinema na forma como escreve Alex Couto, com uma estética muito particular, com banda sonora e cinematografia nas acções que acontecem no livro.
Fala de temas actuais, que são os que me afectam e é bom ter alguém que passe estes temas para objectos que os podem amplificar e até contextualizar para o futuro. Pode sim ser uma das vozes da nossa geração, mas espero que o próximo livro seja mais denso e mais exploratório.
Já sigo este autor através das redes e li o seu anterior livro, Sinais de Fumo. Claramente Alex Couto tem uma linguagem muito contemporânea e com muita cultura que ajuda a nos contextualizar num momento e que nos serve de voz. As referências são muitos, desde a arte, passando pela música, jogos e literatura (gostei particularmente da referência ao barão Harkonnen).
Acho que há muito cinema na forma como escreve Alex Couto, com uma estética muito particular, com banda sonora e cinematografia nas acções que acontecem no livro.
Fala de temas actuais, que são os que me afectam e é bom ter alguém que passe estes temas para objectos que os podem amplificar e até contextualizar para o futuro. Pode sim ser uma das vozes da nossa geração, mas espero que o próximo livro seja mais denso e mais exploratório.
August 16, 2026
“Apercebi-me agora que as pessoas só se importavam com aquilo que prejudicava a totalidade do seu conforto.”
“Os periquitos somos nós” é uma crítica social que usa como cenário um concurso de arte, ao jeito reality show. Temos um início poderoso, que me conseguiu cativar desde logo, mas acabei por ir perdendo algum interesse à medida que a narrativa avançava.
“Portugal é tão bom no desenrascanço como na procrastinação.”
As personagens são caricaturais, mas, fruto disso, acabam por ser muito superficiais. Temos um rol de personagens que se distinguem pouco umas das outras, onde poderíamos ter menos personagens com mais dimensão. O livro vive, também, muito da arte e talvez nesse aspeto tivesse sido positivo ter algumas ilustrações. Acaba por perder alguma dimensão ao ficar restrito meramente ao nível descritivo.
Lê-se bem, embora, para mim, tenha sido um livro muito “datado” - vive muito de referências de hoje em dia (algumas das quais nem eu apanhei bem!) e acho que é um livro que, daqui a uns anos, não terá o mesmo impacto. Não vai viver muito além do seu tempo.
“Os periquitos somos nós” é uma crítica social que usa como cenário um concurso de arte, ao jeito reality show. Temos um início poderoso, que me conseguiu cativar desde logo, mas acabei por ir perdendo algum interesse à medida que a narrativa avançava.
“Portugal é tão bom no desenrascanço como na procrastinação.”
As personagens são caricaturais, mas, fruto disso, acabam por ser muito superficiais. Temos um rol de personagens que se distinguem pouco umas das outras, onde poderíamos ter menos personagens com mais dimensão. O livro vive, também, muito da arte e talvez nesse aspeto tivesse sido positivo ter algumas ilustrações. Acaba por perder alguma dimensão ao ficar restrito meramente ao nível descritivo.
Lê-se bem, embora, para mim, tenha sido um livro muito “datado” - vive muito de referências de hoje em dia (algumas das quais nem eu apanhei bem!) e acho que é um livro que, daqui a uns anos, não terá o mesmo impacto. Não vai viver muito além do seu tempo.
June 1, 2026
Um livro que gostei de ler. Uma realidade diferente da minha e com uma cultura artística que não conhecia.
Um reality show que promete oferecer um ateliê ao próximo vencedor em Lisboa. São 12 concorrentes e apenas um ganha.
A competição é apenas a superfície, por detrás das câmaras há toda uma intriga imobiliária a acontecer. São referenciados vários artistas reais. Com muito humor, apresenta uma visão da cena artística da Lisboa em crise de habitação. Um romance/ficção que expõe os problemas de um artista em Portugal. O autor entrevistou os 12 concorrentes originais dos coruchéus para a celebração dos 50 anos dos ateliês camarários, que inspirou este livro.
Um reality show que promete oferecer um ateliê ao próximo vencedor em Lisboa. São 12 concorrentes e apenas um ganha.
A competição é apenas a superfície, por detrás das câmaras há toda uma intriga imobiliária a acontecer. São referenciados vários artistas reais. Com muito humor, apresenta uma visão da cena artística da Lisboa em crise de habitação. Um romance/ficção que expõe os problemas de um artista em Portugal. O autor entrevistou os 12 concorrentes originais dos coruchéus para a celebração dos 50 anos dos ateliês camarários, que inspirou este livro.
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January 10, 2026
Não sei por que li este livro até ao fim. Adorei a sinopse, a ideia por trás… já a concretização não foi a esperada. Eu percebo a escolha, mas este livro tinha tudo para perdurar no tempo e creio que não possa acontecer, devido à linguagem e às referências (Panda Cantina? Oi?).
Dou graças ao programa das bibliotecas digitais por não ter gasto dinheiro neste livro. Mesmo quando não gosto dum livro, consigo pensar “mas pessoa X poderia gostar”. Com este, não consigo pensar numa única pessoa que apreciasse a sua leitura em si.
Dou graças ao programa das bibliotecas digitais por não ter gasto dinheiro neste livro. Mesmo quando não gosto dum livro, consigo pensar “mas pessoa X poderia gostar”. Com este, não consigo pensar numa única pessoa que apreciasse a sua leitura em si.
February 27, 2026
Ao ler a sinopse, pareceu-me importo livro extremamente interessante.
No entanto, confesso que a temática de reality show e linguagem extremamente contemporânea (com termos que, muitas vezes, desconhecia totalmente o significado), impossibilitaram-me de terminar o livro.
No entanto, confesso que a temática de reality show e linguagem extremamente contemporânea (com termos que, muitas vezes, desconhecia totalmente o significado), impossibilitaram-me de terminar o livro.
October 30, 2025
Não há volta a dar, Alex Couto será (já é) uma das grandes vozes da literatura contemporânea portuguesa
November 7, 2025
O livro tem passagens super icónicas e a escrita é óptima; porém, a história desiludiu um pouco.
January 5, 2026
Acho que nunca me ri tanto a ler um livro, foi mesmo a melhor maneira de começar o ano
January 9, 2026
zeitgeist neoliberal
February 8, 2026
Sou fã do Alex do bairro, do Alex que descreve o que foi crescer entre malandros e gente honesta que faz pela vida, do Alex que é capaz de documentar experiências adolescentes que tanto se podiam passar em Setúbal como em Portalegre.
Não fui tão fã deste Alex que deambula entre o privilégio dos novos ricos, dos expats no mundo da arte, embora reconheça mérito a esta maneira de ver esse mundo e a cidade de Lisboa como um reality show. Acho que parti para este livro com a expetativa (pela qual sou totalmente responsável, como é evidente) de ler mais sobre as obras criadas a cada episódio ou perceber melhor as motivações dos artistas concorrentes. Há talvez uma certa modernidade (à falta de melhor palavra) neste livro que tornou a sua experiência literária bastante insatisfatória para mim.
Continuo a ser fã do Alex e vou ler o que ele decidir mandar cá para fora, o que espero que seja menos plástico e que decida captar o zeitgeist através das relações humanas como ele tão bem sabe fazer.
Não fui tão fã deste Alex que deambula entre o privilégio dos novos ricos, dos expats no mundo da arte, embora reconheça mérito a esta maneira de ver esse mundo e a cidade de Lisboa como um reality show. Acho que parti para este livro com a expetativa (pela qual sou totalmente responsável, como é evidente) de ler mais sobre as obras criadas a cada episódio ou perceber melhor as motivações dos artistas concorrentes. Há talvez uma certa modernidade (à falta de melhor palavra) neste livro que tornou a sua experiência literária bastante insatisfatória para mim.
Continuo a ser fã do Alex e vou ler o que ele decidir mandar cá para fora, o que espero que seja menos plástico e que decida captar o zeitgeist através das relações humanas como ele tão bem sabe fazer.
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