Um romance sobre arte, especulação e a crise da habitação.
António Prata é um presidente da câmara pequenino, com uma voz fininha, que quer vender Lisboa aos ricos.
O seu sonho são unicórnios e estacionamento privado em Campo de Ourique. Soa-vos familiar? Neste cenário que todos conhecemos bem, é-nos apresentado um novo reality show, Capital da Arte, que quer eleger o melhor artista português, premiando-o com um dos ateliês dos Coruchéus, em Alvalade, que deviam ser do povo mas não são.
Na verdade, este reality show esconde uma realidade muito mais sinistra que assenta na especulação imobiliária e na perda da essência artística. Escrito com humor, irreverência, asneiras e calão, como o autor já nos habituou, este livro é uma ode e, simultaneamente, uma crítica a Lisboa e à forma como tem vindo a tratar os seus habitantes.
Achei Sinais de Fumo um rasgo de originalidade, e acho o Alex Couto uma promessa muito interessante da literatura portuguesa contemporânea. Mas nada esteriliza mais a imaginação do que procurar transformar um romance num panfleto. Quando se decide trocar complexidade por hashtags, arrisca-se a produzir literatura com o mesmo valor nutricional de um tweet viral: barulhenta, confiante mas datada e supérflua. Há nessa ânsia de parecer relevante- invocando injustiças e slogans como talismãs progressistas- uma fragilidade quase comovente. É a estética do autoengano, a crença de que repetir as fórmulas certas absolve do pensamento; não só ao autor, a uma geração inteira. O resultado é uma obra domesticada pelo moralismo da própria bolha, escrita para que as almas virtuosas das batalhas digitais possam sublinhar frases como quem recolhe pontos para bingo de pureza ideológica.
A tragédia é que o impulso totalitário raramente vem com farda, vem com likes e cheio boas intenções. O mantra “tudo é político” soa profundo até alguém perceber que é também (principalmente) a negação da liberdade estética - e um dos mais fascistas e totalitários sentimentos. Reduzir a arte a instrumento de propaganda “do bem” é o pesadelo de qualquer espírito livre: um mundo onde a imaginação tem de apresentar justificações morais antes de ser publicada. A arte que existe apenas para provocar acaba a provocar sobretudo indiferença e o choque, quando se torna doutrina, morre na previsibilidade. E pior ainda: transforma escritores promissores em burocratas do discurso certo, militantes de causas que já nem sabem articular sem o auxílio do meme.
antes de mais, Voz, quero dizer que o alex é um querido, bem vestido e cheio de bom gosto. sou também muito fascinada pelo universo e conceito dos reality shows e inicialmente foi isso que me levou a lê-lo. é um livro que aborda questões pertinentes sobre arte e estética, gentrificação e outras coisas mt importantes que ficam para falar na gala de domingo. achei que havia passagens de texto muito rápidas ou curtas, com pouco detalhe, quase como se fosse uma memória descritiva de um guião, o que btw, funcionaria muito bem em televisão, por ser um livro muito visual. não, não vou nomear o alex para sair, porque pretendo continuar a ler coisas dele. bjsss
Conto muitos “ahahah” anotados a lápis nas margens do Periquitos, talvez por ser uma sátira divertida e eficaz sobre mediatização, arte, crise imobiliária, turismo e luta de classes numa cidade de Lisboa governada por um presidente baixinho (como o livro não se cansa de nos lembrar). E ainda aprendi qualquer coisa com o name dropping de referências artísticas.
Depois de, no romance de estreia “Sinais de Fumo”, o Alex nos ter mostrado que sabe construir personagens dos quais sentimos falta nos interregnos da leitura, com os seus diálogos urbanos e espirituosos (enrolados em mortalhas de paranóia), aqui traz-nos uma narrativa cuja originalidade passa por tornar protagonista o seu próprio formato. O reality show.
O jornalista/criador de conteúdo Tomás da Cunha (Tommy See Ya) até pode ser o tuk tuk que que nos leva de capítulo em capítulo, e até pode pender sobre ele o dilema moral que é devido a qualquer herói, mas o mais interessante foi encontrar o reality show como formato literário. Numa era em que estamos constantemente a projectar a realidade para um mundo digital (e passamos cada vez mais tempo com esse lado virtual), o exercício simples (mas não óbvio) de trazer essa estética para texto é irónico e provocador. Torna o reality show, que é a coisa mais mainstream que há, num peixe fora de água. Grafado na página, fica completamente fora do seu ambiente, parece obsoleto e isso tem bastante graça; deixa de servir para sustentar o simulacro realista para se tornar um registo do absurdo.
E que absurdo vem a ser esse em particular? A mediatização da arte contemporânea pelo poder político e pelos interesses privados por simples carolice, ou melhor, com o objectivo de inflacionar ainda mais o preço do metro quadrado em Lisboa.
A arte continua a ser arte quando o processo é televisionado? Quando também é conteúdo? Quando também é campanha promocional? E o que é que a especulação imobiliária tem que ver com isso? Tudo: o valor da arte que decora um T3 nas Avenidas Novas (um Kandinsky na parede; uma Eames na sala) é o melhor investimento não-especulativo possível para quem quer rentabilizar a propriedade.
A dada altura, a artista a concurso Carol O’Neill pergunta se acham que os artistas ficam parecidos com a própria arte. O Angel acha que sim. A Maria acha simplesmente que passamos a conhecer os artistas pela sua arte, o que provoca uma confusão de identidade. Dei-me de bom grado a essa confusão e quis andar atrás dos participantes mais pela curiosidade sobre o que iriam produzir a seguir do que pela psicologia. A introspecção do Periquitos acontece a outro nível, o das reflexões sobre arte, dinheiro e cidade, que o autor vai distribuindo em à-partes que podem aparecer numa conversa, no meio de uma descrição ou ter um espaço próprio nos excelentes números “Tommy dá lições de arte”. As apreciações de estilo também não faltam, sobre quem veste o quê (a Ralph Lauren veste os participantes para as galas, mas também há troncos nus e manga cavas) e o que isso nos diz sobre o lugar daquela pessoa no escalão do IRS e no zeitgeist.
Tal como no romance anterior, passado em Setúbal, a escrita é altamente cinematográfica, com trejeitos de oralidade e referências millenial que a tornam distinta.
Um livro divertidamente ácido, um dos melhores narradores que já li nos últimos tempos e um final brutalmente realista e no ponto. Estruturalmente fresco e bem concebido, é uma leitura que nunca deixa de recorrer a um suspense próprio da competição de um concurso. Adorei o livro, adorei as personagens e o Alex Couto passou a ser uma das minhas vozes preferidas nacionais.
Gostei muito da escrita de *Os Periquitos Somos Nós*. Há ali uma voz muito própria, reconhecível. Tendo tido a oportunidade de conhecer o autor em pessoa, a sensação durante a leitura foi precisamente essa: como se estivesse a ouvi-lo contar a história.
A história gira em torno de um reality show artístico e é aqui que começam também os meus "problemas". Sendo da área das artes, senti falta de uma fase inicial de brainstorming mais difícil. A arte, pelo menos da forma como a conheço, raramente nasce de forma rápida ou linear. O tempo apresentado (sete semanas, sete obras) pareceu-me pouco credível para o tipo de criações que o livro sugere. Um formato mais longo, talvez sete meses, faria mais sentido e permitiria algo que senti falta ao longo de toda a leitura: tempo para conhecer verdadeiramente as personagens.
As personagens são bem definidas, sim, mas também bastante estáticas. São aquilo que são desde o início até ao fim. No início, admito que vi isto como uma falha mas é difícil ignorar que isso pode ser também uma escolha consciente. Afinal, num reality show, as pessoas são frequentemente reduzidas a pó são tendencialmente mais fúteis.
Assumindo tudo isto como propositado, *Os Periquitos Somos Nós* acaba por ser um exagero do que está a começar a acontecer, principalmente com a facilidade de criar tudo em segundos com A.I. e de desvalorizar o trabalho de quem realmente aprende a fazer. Os periquitos são coloridos, chamativos, mas vivem em gaiolas. Repetem sons, são observados e os que rondam Lisboa são quase uma praga.
Foi uma leitura rápida, muito entretida. Acho que falta um pouco mais de profundidade e de mais dimensão nas obras em si. Já sigo este autor através das redes e li o seu anterior livro, Sinais de Fumo. Claramente Alex Couto tem uma linguagem muito contemporânea e com muita cultura que ajuda a nos contextualizar num momento e que nos serve de voz. As referências são muitos, desde a arte, passando pela música, jogos e literatura (gostei particularmente da referência ao barão Harkonnen). Acho que há muito cinema na forma como escreve Alex Couto, com uma estética muito particular, com banda sonora e cinematografia nas acções que acontecem no livro. Fala de temas actuais, que são os que me afectam e é bom ter alguém que passe estes temas para objectos que os podem amplificar e até contextualizar para o futuro. Pode sim ser uma das vozes da nossa geração, mas espero que o próximo livro seja mais denso e mais exploratório.
Não sei por que li este livro até ao fim. Adorei a sinopse, a ideia por trás… já a concretização não foi a esperada. Eu percebo a escolha, mas este livro tinha tudo para perdurar no tempo e creio que não possa acontecer, devido à linguagem e às referências (Panda Cantina? Oi?). Dou graças ao programa das bibliotecas digitais por não ter gasto dinheiro neste livro. Mesmo quando não gosto dum livro, consigo pensar “mas pessoa X poderia gostar”. Com este, não consigo pensar numa única pessoa que apreciasse a sua leitura em si.