Vaim constrói-se em três partes narradas por vozes diferentes, mas escritas num registo quase indistinguível. Nesta obra, as personagens não se afirmam pela forma como falam, mas pelo modo como cedem, esperam ou se apagam.
É uma obra que não tem tantas repetições como as anteriores que li do autor, por isso um pouco diferente neste estilo apesar de se reconhecer Fosse.
Na primeira parte, o narrador é Jatgeir — um homem solitário e idoso, marcado por uma vida de aceitação silenciosa. Conhecido por dizer sempre que sim, carrega até no nome essa submissão, reduzido a um diminutivo que os outros lhe colaram uma vez que o seu verdadeiro nome é Geir (Ja=sim).
O gesto aparentemente banal que o move — ir à cidade comprar agulha e linha para coser um botão — torna-se um dos símbolos centrais do livro. Jatgeir não procura mudar nada de essencial na sua vida; procura apenas remendar. O botão representa o mínimo necessário para manter tudo junto, para evitar que o rasgão se torne visível. É assim que ele vive: a segurar o que já está a desfazer-se.
A humilhação atinge o ponto máximo quando paga caro por uma linha velha, retirada da roupa de um morto. Jatgeir tenta coser a sua vida com restos de outras vidas acabadas. Aceita, como sempre aceitou apesar de se revoltar contra si.
Tem um barco que se chama Eline, o amor secreto da sua juventude. É Eline quem o leva.Mesmo tantos anos depois. É terno… e triste também. Fosse é impecável a mostrar como uma vida se pode construir mais através dos silêncios do que dos acontecimentos.
Na segunda parte, o narrador é Elias, o único amigo de Jatgeir. Também solitário, mas diferente. Elias não é permissivo da mesma forma. Observa, percebe, guarda distância. É através dele que sentimos o vazio deixado pela ausência e a estranheza do tempo: Fosse introduz a espiritualidade sem a explicar, apenas deixando-a existir num determinado episódio entre Elias e Jatgeir.
A terceira parte é narrada por Olaf , marido de Josefine — chamado Frank pela mesma, a mulher que atravessa todas as histórias. Josefine (chamada Eline na obra) muda nomes, invade casas, redefine identidades. Nunca suporta a solidão. Vive com Jatgeir quando ainda é casada uma vez que este cede a tudo.
"agora não era a questão do que eu queria ou não queria, agora era o querer de outrem que se impunha, era como se tudo tivesse mudado de uma só vez, agora era a vontade de Eline"
Regressa depois a Olaf, e mesmo na morte escolhe companhia. Quer ser sepultada junto de Jatgeir. Até na sepultura, Josefine organiza os lugares.
Josefine substitui pessoas. Não remenda: troca. Olaf é o único que abdica — solta o que tem, não tenta segurar nada.
Eline não tem nenhum capítulo onde é a narradora mas o leitor pode conhecer a personagem através dos relatos dos três homens, do que está escrito e o que está nas entrelinhas.
Em Vaim, Jon Fosse escreve sobre pessoas que não sabem impor limites, sobre vidas que se desfazem lentamente, não por grandes tragédias, mas por pequenas cedências sucessivas. A metáfora do botão atravessa o livro como aviso silencioso: há existências gastas, quando o essencial já se perdeu.
Foi uma leitura que me fez lembrar, em parte, o livro "Casa de Barcos" do mesmo autor onde Fosse escreve sobre: homens socialmente apagados, sem poder, afectivamente analfabetos, profundamente leais, mas invisíveis.
Fosse mostra que na cidade de Vaim: a sociedade condena facilmente, mas, ignora décadas de solidão e ignora o custo de dizer sempre “sim”.
É um romance sobre como se vive quando nunca se diz não e o que acontece quando se diz sempre "sim".
O que Vaim é, afinal:
Não é um livro sobre amor.
Nem sobre velhice.
É um livro sobre:
o perigo de viver sem se afirmar
e o custo tardio de dizer sempre “sim”