Milhares de anos após a extinção da Terra, a superpopulação criou a estação espacial Ark I, que vaga pelas estrelas em busca de minerais e suprimentos. Do tamanho de uma estrela e dividida por um piso translúcido, a estação abriga bilhões de humanos, o que a leva a um lento colapso. Excursões são lançadas em busca não só de recursos, mas também de um planeta com biologia semelhante à da Terra, para abrigar parte da população. No topo, em Sky One, vivem os ricos. Na Cidade Baixa, as favelas se espalham, um antro de prostitutas, mercenários e terroristas, onde a segregação se agrava com a crescente influência dos Emirados Negros, uma ordem de mercenários que estreita laços com o Senado. O descaso com o andar inferior, onde os desafortunados assistem, entre lixo e miséria, aos excessos e corrupções do andar de cima, só intensifica a tensão. Soma-se isso à droga Meltbrain, que amplifica impulsos primitivos e marginaliza ainda mais os moradores, e tudo volta ao tempo de violência e se torna uma selva metálica. Agora, uma corrida contra o tempo começa. Será que os humanos encontrarão um novo planeta ou os conflitos internos destruirão Ark I antes disso?
"Coiote" é uma história Cyberpunk, uma especulação antropológica e episódica sobre a complexidade do comportamento humano, desde os impulsos mais viscerais até os mais nobres. Provocações são feitas ao explorar o contraste entre instintos que nos remetem — e definem — como animais selvagens, até as estruturas sociais que nos definem como a espécie dominante. Mergulhado na tensão entre o caos da convivência em grupo e os sistemas que nos distinguem, esta história adulta revela as contradições de nossa existência, além de como velhas manias se estendem não somente aos animais, mas, também, aos mais vulneráveis até mesmo do que os próprios nós mesmos.
"O preconceito sempre vai achar novas brechas. Quando não for assim, deve ser porque morremos."
Motivos para ler Coiote:
Escrita potente e precisa
Meu primeiro contato com a escrita do autor foi em sua outra obra, Doze Fragmentos. Eu já a havia elogiado quando resenhei aquele livro, mas aqui em Coiote é muito visível o amadurecimento da escrita do Felipe, pois há novos recursos e formas empregados que garantem mais força para a história.
Um exemplo disso é logo no primeiro capítulo, focado na comandante Pharcas. Me chamou a atenção a forma curiosa em ressaltar emoções por meio de palavras avulsas ao final dos parágrafos. Nas entrelinhas da leitura do texto ficam claras as emoções em foco, mas a utilização dos termos ao final pareciam como incisões, visando gravar nos nossos pensamentos do que se trata. Inteligente. Sutil. Visceral.
Coiote, segundo o próprio autor, surgiu para causar desconforto, então ao meu ver essa forma empregada na escrita combinou com a proposta do livro.
Por fim, outro ponto a se destacar é a alta qualidade das cenas de ação. As sequências de movimentos e as descrições das táticas de batalha são maravilhosamente bem estruturadas e desenvolvidas, de modo que o leitor consegue imaginar muito bem como os personagens estão se movimentando e lutando entre si. Eu confesso que não esperava menos do que um alto padrão de qualidade com as cenas de ação, visto que em Doze Fragmentos isso já era muito bem feito, mas preciso admitir que, em Coiote, as expectativas foram superadas.
Personagens cinza
Coiote dispõe de múltiplos personagens, e todos carregam dores e passados que os definem hoje. O livro utiliza os traumas para ilustrar o porquê de cada um ser como é, e para dar mais sentido às decisões tomadas ao longo dos capítulos.
Temos uma capitã com um passado amoroso que estilhaçou sua confiança nas pessoas, uma militar com visão idealizada de liberdade que teve sua dignidade roubada quando o sistema decidiu que ela não era relevante e privilegiada o bastante. Há um cadeirante que renasce e torna-se algo completamente incompreensível para si e insuperável em uma disputa de poder direta. Enfim, sempre que o ponto de vista narrativo muda para um novo personagem relevante, gradualmente aprendemos mais sobre ele, e isso faz com que o leitor se aproxime de sua humanidade fragilizada e busque identificação com cada um.
Meus personagens preferidos são Ostavia, Shari, Noel e John. Cada um deles possui seus defeitos e virtudes, e a linha moral que os conduz sempre se mostra condicionada ao que passaram e ao presente. Sendo assim, todos eles soam tão humanos quanto possível, pois a idealização de bem e mal não se aplica em Coiote. É claro que as ações deles podem ser classificadas como boas ou ruins ao longo da história, mas isso sempre vai depender das circunstâncias do momento e das "regras do jogo", então nem sempre tudo é tão simples.
Particularmente falando, muito me atraem os personagens cinza, porque eles permitem explorar tudo aquilo que nos torna humanos com maior naturalidade e verossimilhança. Quando um personagem se mostra apenas tendendo para um único aspecto, fica difícil vê-lo como algo além de simples caricatura. E aqui todos os personagens são muito mais profundos, pois suas jornadas são sinuosas e repletas de questionamentos.
Cronologia não linear
Ater-se a detalhes ao longo da leitura e procurar por conexões entre os capítulos são ações importantes para entender Coiote e sua fragmentada linha do tempo. As histórias dos vários personagens que acompanhamos se passam em diferentes momentos, então espere idas e vindas ao longo do tempo.
Alguns posicionamentos temporais são feitos de forma bem explícita, enquanto que, em contrapartida, acontecimentos ao longo de determinados capítulos nos permitem entender quando realmente tal história está se desenrolando.
Ao meu ver, esta fragmentação cronológica ajuda a criar pontos de suspense e deixar o leitor intrigado acerca de acontecimentos específicos e sobre a jornada de personagens - o que significa, portanto, que parte do impacto de Coiote também se condiciona a essa "colcha de retalhos" temporal. Eu, por exemplo, fiquei muito interessado em entender a transformação de Ostavia, e acredito que não haveria tanto impacto nesta descoberta caso tudo acontecesse de forma contínua e cronológica. Da mesma maneira, fiquei muito animado quando percebi que os dois maiores capítulos do livro ocorrem simultaneamente.
Dito tudo isso, deixo aqui registrado que foi muito satisfatório, como leitor, não ter a inteligência subestimada pelo autor, pois ele confiou o tempo inteiro na nossa capacidade de entender o quebra-cabeças cronológico.
A humanidade não mudou
O livro não possui a intenção de discutir as diversas mazelas que tornam nossa sociedade, por muitas vezes, completamente insalubre e repugnante. Ainda sim, Coiote mostra, por meio do dia a dia dos personagens e de suas ações e falas, que o enraizamento do preconceito, do machismo e de outros absurdos, mesmo na vida pós-Terra de milhares de anos no futuro, continua mais profundo e estabelecido do que nunca.
A ideia é estabelecer que tudo continua ali, e que as lutas das pessoas por respeito e por dignidade é uma constante desde que Ark I lançou-se ao espaço. Embora a diferença entre Ark I e a Terra seja enorme em estilo de vida, a humanidade continua a mesma porcaria de sempre - e desinteressada em mudar.
Existem dois exemplos bem gritantes e simples para ilustrar tudo isso: o primeiro caso está na estrutura de Ark I, na qual vemos uma divisão bem nítida da sociedade. Grande parte da população, sem privilégios, vive separada na parte inferior da cidade, conhecida como Cidade Baixa. Lá, estão todas as pessoas que não se encaixam no "sistema", então você encontrará bandidos, prostituas, assassinos, ladrões e também pessoas pobres e humildes.
E como contraponto esperado, temos Sky One, a elite social que vive na parte alta da cidade. Se observarmos friamente, não é muito diferente de nossos grandes centros urbanos e de como, neles, as classes sociais se estabelecem geograficamente.
Por fim, temos o capítulo focado em Shari. Nele, vemos a militar ferir-se em batalha e ser, posteriormente, conduzida à Sky One a fim de receber tratamento médico. Lá, ela é rejeitada pela equipe médica pois não possui as credenciais militares que a concederiam suporte médico. Por conta disso, ela é simplesmente "descartada" e mandada diretamente para a Cidade Baixa, para morrer lá. É um momento revoltante do livro, pois vemos como os privilégios são determinantes para que a dignidade de alguém seja respeitada - e nos faz pensar muito sobre as semelhanças com as injustiças que lemos todos os dias nos portais de notícias.
Somos todos coiotes
Shari e Noel são dois dos maiores exemplos de coiotes, se seguirmos à risca a definição deste animal que está presente nas primeiras páginas do livro: "[...] são altamente adaptáveis quanto ao habitat e podem se organizar em matilhas ocasionalmente, mas geralmente vivem sós."
Shari precisou se adaptar à nova realidade na qual fora literalmente despejada. Ela, de forma temporária, recebeu acolhimento e afeto de um aliado inesperado, que a hospedou em seu lar. Também trabalhou por um tempo em um prostíbulo, a fim de poder obter dinheiro suficiente para custear as próteses para seus membros perdidos em batalha - além de, claro, planejar sua vingança contra o sistema que a descartou. Após este período provisório, ela deixa para trás estes lugares e, sozinha, parte em sua nova jornada.
Noel, por outro lado, é um mercenário que vive sozinho e não possui humanidade o suficiente para sustentar uma relação verdadeira com qualquer pessoa. Quando ele é contratado juntamente a outros de seu tipo para um trabalho suicida, ele se vê obrigado a trabalhar em equipe - uma "matilha" provisória. Ainda sim, sua essência como um "lobo solitário" sempre prevalece, já que sua compreensão das regras do jogo em Ark I o fazem agir assim por necessidade.
Enfim, se considerarmos estes aspectos dos dois personagens, não é muito difícil olharmos para nós mesmos e concluirmos que, de certo modo, também somos coiotes. É claro que nossa organização como sociedade nos "estimula" a sempre estarmos em círculos sociais e nos estabelecermos em pequenas matilhas (famílias), mas é inegável nossa atração pela solitude quando tudo parece terrível e pela manifestação da nossa capacidade instintiva de analisar, adaptar-se e sobreviver a um cenário novo e/ou adverso.
Final coerente com a jornada
Em nenhum momento Coiote se propõe a transmitir esperança e uma sensação de segurança ao leitor. Na verdade, o livro todo soa como um grande expurgo de dor e de desesperança, então está na essência da própria história seguir essa linha. Ao acompanhar os diferentes personagens em suas jornadas particulares e coletivas, é possível perceber com nitidez que a situação de Ark I é tão crítica e com tantas ambições diferentes em rota de colisão, que se torna difícil imaginar que tudo seja resolvido ou, pelo menos, direcionado para um futuro mais otimista.
Em um dado momento, um personagem que poderia, em tese, causar certa ordem a tudo, diz que os seres humanos, no fim das contas, devem encontrar um caminho que os conduza para o fim das guerras.
O desfecho de Coiote ilustra muito bem essa fala curta do personagem e a necessidade de encontrar esse caminho. Caberá ao leitor, portanto, entender que a história de Ark I seguirá mesmo após o ponto final no livro, seja por meio daqueles que sobreviverem, ou por outras figuras que aderirem à luta.
É um final que, com certeza, dividirá opiniões, mas que não deixa de ser coerente, sobretudo humano, se considerarmos o todo. Eu fiquei surpreso com a forma como essa “fuga do óbvio” se estabeleceu, pois um personagem tomou uma decisão que mudou completamente o rumo da história - e foi tão impactante que, por um momento, fiquei desnorteado e chocado.
--- Atenção para temáticas sensíveis: Por ser um livro que visa provocar e de nos deixar desconfortáveis, e de possuir classificação etária 18+, espere a presença de temáticas pesadas nas cenas e de linguajar ofensivo por parte dos personagens. Entretanto, ressalto que o autor não romantiza qualquer temática sensível, de modo que sempre fica bem evidenciado que tudo é consequência da própria imundice dos personagens e que existe propósito narrativo para a inserção dessas temáticas na história.