«Cuidado, está ali um homem...» - a cautela começa na infância, preparando as meninas para a imprevisibilidade dos homens e, ao mesmo tempo, para o amor e a vida a dois. Mas como se pode crescer amando-os, desejando-os e temendo-os? Como se distingue, a tempo, quem nos beija de quem nos faz mal?
Um medo hereditário, passado de avós para filhas e para netas que, parecendo exuberante, se fundamenta: entre a população mundial, 95% dos homicídios, do espancamento de mulheres e dos assaltos sexuais são executados por homens.
Maria da Graça, filha única de inexplicável beleza, cresce alarmada com esta ameaça, mas vence o medo para abrir todas as portas. Em casa, é envolvida pelos seus numa teia opressiva de segredos que vai descerrando aos poucos e dá razão a quem a preparou para o pior.
O Surpreendente Silêncio dos Homens é um grito de alerta ante a escalada mundial da brutalidade contra as mulheres e um romance emocionante sobre o papel redentor, sempre desdenhado, que elas desempenham no equilíbrio da humanidade, escrito por quem há muito reflecte sobre os labirintos da natureza feminina, para lá da poesia e dos lugares-comuns do amor e da paixão.
Rita Roquette de Quadros Ferro nasceu em Lisboa, a 26 de fevereiro de 1955. Iniciou a sua carreira literária em 1990 com a publicação do romance O Nó na Garganta. Estudou design e foi professora de Publicidade. É filha do escritor e filósofo António Quadros e de Paulina Roquette Ferro e neta de Fernanda de Castro e António Ferro, ambos escritores. Publicou, entre outras obras, O Vento e a Lua, O Nó na Garganta, Uma Mulher Não Chora, Por Instinto, etc.
Tem colaboração dispersa na imprensa, nomeadamente na revista Ler e nos jornais Diário de Notícias e A Capital.
O Surpreendente Silêncio dos Homens, de Rita Ferro, é um livro que não teme incomodar. É cru, direto e inquietante... uma análise quase anatómica do amor e das relações, sem grandes romantizações nem véus. A autora mergulha nas zonas mais sombrias da mente masculina (não de todos, mas de demasiados), revelando comportamentos, padrões e violências silenciosas que tantas vezes passam despercebidas.
O que mais impressiona é a forma como Rita Ferro combina a narrativa com dados reais, estatísticas e referências históricas, transformando o romance numa espécie de ensaio literário sobre o amor contemporâneo e as desigualdades de género. É um texto que informa e provoca ao mesmo tempo, e é justamente essa intersecção entre ficção e realidade que o torna tão impactante.
Por outro lado, a estrutura fragmentada e repetitiva pode dificultar a leitura. Há momentos em que o enredo principal perde força perante as reflexões e os factos que a autora intercala. Ainda assim, essa oscilação entre a história pessoal e o comentário social acaba por fazer sentido dentro da perspetiva da protagonista: uma mulher em constante tentativa de compreender e dar sentido à sua própria história.
O final, simbólico e forte, funciona como uma quebra de ciclo um ponto de viragem que encerra com alguma esperança um livro que até então foi todo ferida.
Rita Ferro escreveu algo entre o romance e a denúncia. Um livro necessário, por vezes desconfortável, mas profundamente humano.