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Cachaça não é água

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Depois de mais de uma década abordando o universo das comidas como pauta multidisciplinar através de textos jornalísticos, Constance Escobar encontrou na crônica um canal para, a pretexto de falar sobre comida, colocar uma lupa sobre a vida - não a vida que reside nos grandes acontecimentos registrados em cartório, mas a que habita os pequenos contentamentos que nos salvam todos os dias. Em um mundo onde parece só haver restado espaço para viver urgências; onde muitos intelectuais, por conta disso, vêm decretando o fim da crônica, a autora encontra justamente no gênero o necessário alívio para, ao dialogar com miudezas, não perder de vista o que há de mais íntimo em nós. Com a desculpa de reviver prazeres corriqueiros, relatar descobertas saboreadas em diferentes culturas e surpresas diante de situações inusitadas, a cronista fala mesmo é sobre vivências e afetos. O que poderia ser mais urgente do que isso?

112 pages, Paperback

Published December 2, 2024

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Profile Image for Henrique.
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October 19, 2025
O que pode haver de mais cotidiano do que comer? E, no entanto, a crônica – esse gênero voltado ao dia a dia como nenhum outro – raras vezes tem se ocupado desse momento tão significativo na vida de cada um. Felizmente, Constance Escobar é uma cronista que, mantendo a tradição de Nina Horta, se dispõe a registrar, em textos simples e eficientes, algumas das pequenas belezas do ato de comer.

Constance é autora “Cachaça não é água, não” (Tapioca, 2024; Interseção, 2025), livro que, sim, fala sobre comida, mas nunca de forma isolada, isto é, ela sempre é inserida em meio a reflexões maiores, que contemplam a própria vida. A cronista tem a sua própria filosofia, e ela não é a do luxo, do glamour, das firulas, das modas e do disfarce: nela, a comida é algo que nos faz regressar ao lugar de onde vivemos.

Seu pensamento pode ser resumido neste trecho: “Eis o que de melhor a comida pode fazer por nós: num átimo, nos leva de volta a um lugar, a um cheiro, a um sentimento, e junto a tudo isso ainda nos ensina algo sobre nós mesmos”. O ato de comer, para ela, é uma experiência com implicações praticamente existenciais (uma refeição prazerosa pode ser um drible na precaridade da nossa existência).

Comer, pois, é muito mais do que nutrir, e não é possível descartar sequer as suas funções terapêuticas (no mínimo, a comida pode nos curar da saudade). É com esses pensamentos que Constance apresenta ao leitor muitas de suas memórias afetivo-familiares (aqueles bolinhos de aipim!), evocando mulheres como a sua avó, que a antecederam na história familiar, bem como no gosto pela culinária.

A cronista também leva o leitor a pequenos passeios por restaurantes e outros lugares em que se alimentar é um prazer em vários países do mundo. Constance, reforce-se, não está interessada em aparências ou naquilo que é “cult” ou “in”. Os lugares que visita podem ter pequenas imperfeições, até mesmo de atendimento, mas ainda proporcionar experiências significativas, sejam de paladar ou não.

De fato, a cronista percebe que mesmo as pizzas ordinárias ficam melhores se há uma consciência de felicidade. Constance, em suas crônicas, valoriza aquilo que é corriqueiro e enxerga os ingredientes nunca de forma isolada, mas sempre dentro de um contexto e uma cultura. É digno de menção quando passou a perceber toda a riqueza da culinária africana, nem sempre reconhecida em circuitos “gourmet”.

Em suas viagens, os mercados e as feiras estão no mesmo grau de importância, se é que não estão em uma escala acima, ao dos museus. Às vezes, esses lugares misturam exuberância e decadência, e a cronista não deixa de reconhecer certas mazelas sociais. Tudo isso ela vai contando em textos leves e ligeiros, como os que convém ao gênero, de maneira que a leitura flui rápida e de maneira agradável.

Constance é uma escritora que tem uma paixão e que escreve sobre ela, o que é, por si só, um excelente tempero para os seus textos. Seu livro cumpre um papel importante na trajetória da crônica e certamente merece maior reconhecimento.
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