"Revolução" foi o primeiro livro que li do escritor Hugo Gonçalves, pois desconhecia a existência do autor e das suas obras, bem como não sabia que este tinha sido o guionista da série "Rabo de Peixe", da Netflix, a qual foi, provavelmente, até hoje, uma das séries portuguesas a que mais gostei de assistir.
"Impressionante" foi o primeiro adjetivo que me veio à mente enquanto lia o livro, pois fiquei surpreendida com a capacidade do autor em conseguir conciliar, de forma magistral, a narração do percurso de vida de uma família residente em Sintra, no período decorrido entre o final dos anos 60 e o início dos anos 80, com a descrição clara e interessante dos principais factos históricos que tiveram lugar nessa época: os últimos anos da Ditadura; a Revolução de 25 de Abril de 1974 e os meses que se lhe seguiram; o Período Revolucionário em Curso (PREC), decorrido entre a tentativa de golpe de Estado de 11 de Março de 1975, levada a cabo pelo General Spínola e pelas forças fascistas que queriam o regresso ao Estado Novo, e o 25 de Novembro de 1975, em que uma parte das Forças Armadas Portuguesas, aliadas a setores políticos moderados, colocaram fim ao PREC e iniciaram o processo de estabilização da democracia representativa em Portugal; e, por último, as atividades criminosas perpetradas, na segunda metade dos anos 70 e no início dos anos 80 do século XX, quer por um grupo terrorista da extrema-direita, o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), quer por um grupo terrorista de extrema-esquerda, as Forças Populares 25 de Abril (FP 25), os quais levaram a cabo diversos atentados, onde foram assassinadas várias pessoas.
Aprendi mais sobre a história recente de Portugal neste livro do que durante os meus anos de estudante, e até do que em outros livros, artigos de jornais, entrevistas e reportagens televisivas, graças ao poder de síntese de Hugo Gonçalves, à sua imparcialidade e isenção, e ao seu talento em associar personagens fictícias a pessoas reais e a figuras relevantes da nossa história coletiva. Na minha opinião, este livro, publicado em outubro de 2023, deveria ser discutido nas escolas.
A família Storm, cuja matriarca, de famílias humildes e com uma filha pequena para criar, casa com um proprietário de um hotel, em Sintra, descendente de ingleses, o qual era originalmente o seu "patrão", e, por causa disso, é sempre discriminada pelas chamadas "famílias de bem", em especial pelas mulheres, até porque, ao contrário destas, trabalha arduamente, sendo ela que geria o hotel, passa por inúmeras vicissitudes entre os anos 60 ao início dos anos 80 do século passado, em particular, porque os seus descendentes não poderiam ser mais diferentes.
Maria Luísa, a filha mais velha, enquanto estudante na Universidade de Lisboa, filia-se no Partido Comunista, entra na clandestinidade, é perseguida, presa e torturada pela PIDE, mas nunca denuncia os seus camaradas, e quando é libertada, vai para França, regressando a Portugal nos dias seguintes à Revolução de 25 de abril de 1974.
Pureza, a filha do meio, casa-se com um descendente de uma família rica e poderosa, aliada do regime, e tem como sonhos ser uma boa esposa e dona de casa, ter filhos, e que a estabilidade proporcionada pela segurança do casamento e de pertencer a uma família tradicional e abastada, não se desmorone com todas as alterações políticas, económicas, sociais e culturais ocorridas com a Revolução dos Cravos.
Frederico, o mais novo, que em vésperas do fim da Ditadura, estava prestes a embarcar para a guerra no Ultramar, e deixar de desfrutar da música jazz de que tanto gostava, das festas com os seus amigos, à mistura com álcool e drogas, e com o desejo de perder a virgindade, assiste em Lisboa à chegada dos militares no dia 25 de Abril de 1974, e acompanha todos os principais acontecimentos desse dia, em particular um, que o vai marcar para o resto da vida: o assassínio de um jovem estudante açoriano, que tinha conhecido nesse dia e que se encontrava junto a si, em frente das instalações da PIDE, quando os elementos desta polícia política dispararam contra os populares.
Todos os acontecimentos posteriores que influenciaram a história da família Storm, de tantas outras famílias portuguesas e do próprio país, são relatados neste livro de forma a conseguirmos compreender o nosso presente e as visões distintas que os portugueses têm da mudança de regime trazida pela Revolução.
Um livro a ler!