“Constato, mesmo depois de mais de 35 anos estudando e revendo Tarsila, que há sempre material a ser descoberto para novos enfoques de sua personalidade e sua obra”, observa Aracy Amaral na apresentação desta edição, revista e ampliada com centenas de novas ilustrações. Este livro estabeleceu novo padrão para as pesquisas de artes plásticas em nosso país, ao estudar a trajetória de Tarsila sob o prisma da obra e de seu tempo, permitindo ao mesmo tempo melhor entendimento do modernismo brasileiro. Para sua pesquisa, contou com os depoimentos da própria artista, contribuindo para que documentos e testemunhos materiais que permaneciam no fundo das gavetas ou na memória dos participantes viessem a público. O livro é um ponto de partida exemplar para a o desenvolvimento de novas pesquisas sobre a arte brasileira no século XX.
Considero uma falha grave incluir diversas passagens em língua estrangeira sem tradução, o que limita o acesso ao conhecimento e garante a manutenção do elitismo sobre a arte.
As biografias de brasileiros são geralmente de políticos, esportistas, atores e músicos. Louvável, então, encontrar esse livro sobre a obra da Tarsila do Amaral. Acredito que a autora conseguiu mostrar bem como foi o processo de aprendizagem e criação da Tarsila, mas acho que ficou devendo na contextualização da cena artística em Paris nos anos 20, tão importante para Tarsila. Fiquei com a impressão de que a biografia foi escrita para iniciados, pois não somente cita uma infinidade de nomes de artistas daquela época, que para muitos devem ser completamente desconhecidos, como também não teve o cuidado de traduzir as muitas passagens em francês (descuido do editor também). O livro tem 395 páginas antes dos apêndices. Só que existe uma quantidade tão grande de reproduções de pinturas, desenhos, esboços, fotos, cartas e documentos em geral, que de texto escrito deve totalizar não mais do que 200 páginas. Além disso, em muitos trechos parece que o livro é sobre o Oswald de Andrade, e não sobre a Tarsila. Também interessante nesse livro é ler sobre o estilo de vida da classe alta herdeira dos fazendeiros e cafeicultores do início do século passado (Tarsila e Oswald de Andrade). Viagens e longas temporadas na Europa anos após ano, filhos em internatos na Suíça, jantares e eventos sociais em Paris todas as semanas para alavancar a carreira artística, aulas nas melhores academias de arte, além da proximidade com o poder político estabelecido. Tudo isso com o dinheiro e o prestígio ganho através da escravidão e morte de milhares de pessoas (a família de Tarsila chegou a ter 400 escravos num certo período).