Crónicas inéditas em Portugal, selecionadas entre todas as que o humorista escreveu entre 2020 e 2025 para o jornal Folha de S. Paulo.
«O Papa não só não queria repreender-nos como leu um discurso em que dizia que era possível rir de tudo, até de Deus. Olhei para a Guarda Suíça. Os guardas nem se mexeram. Nenhuma vontade de castigar aquela heresia. Ao que tudo indicava, não era uma heresia. Olhei para cima. Nos tetos ricamente pintados vi o Céu. Uma pessoa que eu conheço está lá. Teria ela ouvido o Papa a dizer que é lícito rir de tudo? É que eu levei algumas chineladas no rabo por ela ter a opinião contrária. Receio que esteja arrependida. Não precisa. Tudo está perdoado. Sempre esteve.»
Filho de um piloto da TAP, Artur Álvaro Neves de Almeida Pereira, e de uma assistente de bordo, Emília Rita de Araújo, foi aluno de colégios de freiras vicentinas, franciscanos e jesuítas até se licenciar em Comunicação Social e Cultural, na Universidade Católica Portuguesa. Seguiu-se o trabalho como jornalista, na redacção do Jornal de Letras, Artes e Ideias.
De seguida tornou-se argumentista da agência de criadores Produções Fictícias, tendo sido co-autor de vários programas de sucesso do humor português, entre eles Herman 98 e Herman 99 (RTP, 1998 - 1999), Herman SIC (2000 - 2005), O Programa da Maria (SIC, 2001), Hermandifusão Portuguesa (RDP, 1999 - 2001), as crónicas Felizes para Sempre, no semanário Expresso e As Crónicas de José Estebes, no Diário de Notícias, entre outros.
Por volta de 2003, depois das primeiras aparições na televisão, designadamente no programa de humor stand-up comedy, Levanta-te e ri, na SIC, e criando, já ao lado de Zé Diogo Quintela, Tiago Dores e Miguel Góis, várias rubricas no programa de Nuno Markl, O Perfeito Anormal, na SIC Radical, dá arranque ao projecto Gato Fedorento, cujo colectivo se tornou uma referência do humor português contemporâneo.
A equipa assinou várias séries do programa Gato Fedorento, na SIC Radical (Série Fonseca, Série Meireles e Série Barbosa), e depois na RTP1 (Série Lopes da Silva). Também na RTP1 apresentou Diz Que é Uma Espécie de Magazine em 2007, para de seguida voltar à SIC, com Zé Carlos, em 2008, e Gato Fedorento: esmiúça os sufrágios, em 2009. Na internet os humoristas mantêm o blogue homónimo, onde Ricardo Araújo Pereira assina as suas entradas com as iniciais RAP. Teve ainda várias aparições no programa de humor da SIC, Levanta-te e Ri, onde mostrou por várias vezes os seus dotes no stand-up.
Actualmente escreve todas as semanas no jornal A Bola e na revista Visão. Na TSF integra o painel do debate Governo Sombra, com Pedro Mexia e João Miguel Tavares.
As personagens de Ricardo Araújo Pereira, que encontram eco na actualidade política, desportiva ou social, destacam-se pelos tiques que «saltam» para a rua (como acontecia com as criações de Herman José) e são absorvidos em regime multi-geracional, alimentando campanhas publicitárias de sucesso.
É co-autor do livro O Futebol é Isto Mesmo (ou então é outra coisa completamente diferente) e do disco O disco do Benfiquista, naturalmente. Compilou as suas melhores crónicas da revista Visão nos livros Boca do Inferno e Novas Crónicas da Boca do Inferno. Com Pedro Mexia realizou uma adaptação da peça de teatro Como Fazer Coisas com Palavras, do filósofo inglês John Austin, que também interpretou, no Teatro São Luiz em 2008.
É casado com a produtora de rádio Maria José Areias, com quem tem duas filhas, Rita e Maria Inês. Vive na Margem Sul, Quinta do Conde, e gosta de afirmar que é o sócio nº 17 411, do Sport Lisboa e Benfica, clube de que é adepto fervoroso. Foi militante do Partido Comunista Português, partido que veio mais tarde a abandonar. Continua, porém a afirmar-se como "Marxista não Leninista".
O Mundo pára quieto é Ricardo Araújo Pereira a fazer aquilo que ele faz melhor: observar o absurdo do quotidiano até ele se tornar quase filosófico. O livro funciona como uma colecção de pensamentos que oscilam entre o cómico e o melancólico, sempre com aquela ironia que parece leve mas nunca é superficial.
O que mais gostei é a forma como ele pega em coisas mínimas — anúncios, conversas de café, pequenas contradições políticas — e consegue transformá-las em perguntas sérias sobre como vivemos. Há textos em que ele expõe o ridículo com precisão cirúrgica e outros em que desliza para um humor mais terno, quase íntimo. As crónicas sobre as filhas são das mais fortes: simples, diretas, com aquela capacidade rara de fazer rir e reconhecer alguma tristeza ao mesmo tempo.
Não é um livro para ler de seguida; é daqueles para abrir ao acaso e ficar a pensar dois minutos depois de cada crónica. O riso aqui nunca é só riso — é sempre um modo de apontar qualquer coisa que não está bem, ou que nunca esteve.
RAP continua a ser um dos poucos autores que consegue ser inteligente sem ser pretensioso. E isso, hoje, vale muito.
Não é possível não gostar das crónicas do Ricardo Araújo Pereira. É um autêntico génio pensador que escreve sobre tudo e mais alguma coisa, como pessoas que escrevem génio pensador como se fosse uma coisa normal e nada redundante. Se há autor que gostava de ler para o resto da vida, é Ricardo Araújo Pereira 🙏🏼
Ufa, ri-me alto muitas vezes com este livro! Quero ler mais livros assim: bem escritos e capazes de provocar um estado de felicidade. O próximo na minha lista é "O Banqueiro Anarchista". Fernando... não me desapontes.
sensacional, mostra a genialidade do RAP e da sua capacidade de obrservacao a pormenores que o ser humano comum não repara. de uma inteligência inclivel