Nelson Nunes é escritor. Enquanto jornalista, fez parte da redacção da revista Focus e foi produtor de programas da Rádio Renascença. Além disso, foi chefe de redacção da revista Forum Estudante e assessor do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol. Actualmente, é criativo na agência de storytelling True Stories. É o autor das obras Preciosa, Quem Vamos Queimar Hoje?, Isto Não é Um Livro de Receitas, Com o Humor Não se Brinca e Quando a Bola Não Entra.
Gosto da forma como somos levados a experiências e locais diferentes, com distintos modos de viver o tempo, contrapondo a agitação da cidade à calma — que, afinal, também pode ser criada num espaço de barulho e reboliço.
Por vezes imagino que o mundo pára, no sentido de não criarmos mais informação nova, nem mais emails, de repensarmos se o crescimento pode mesmo ser sustentável num mundo de recursos e tempo limitados. Contudo, o mundo não pára. Nós podemos (e devemos?) parar.
Este livro lembra-nos que não há soluções mágicas. E, por muito que existam ideias para empresas e governos, relembra-nos que o mais importante é cada um começar a ouvir o seu corpo e os seus limites, voltando um pouco ao seu ritmo natural, nem que seja só por breves momentos.
Recomendo a todos aqueles que se questionam para onde vai o seu tempo.
"Talvez este livro seja uma busca subconsciente por uma vida em que eu saiba dominar o botão do volume. Para baixar a intensidade de tudo, sempre que possível, para aproveitar melhor os dias. Talvez porque a minha noção de «aproveitar a vida» possa estar errada. Aproveitar a vida pode não significar estar em todos os lugares ao mesmo tempo, a escrever sobre tudo ao mesmo tempo, a aprender tudo ao mesmo tempo. Aproveitar a vida pode, simplesmente, querer dizer estar sossegado e apreciar a forma como o tempo demora a arrastar-se numa manhã de domingo."
"«(…) A geração de hoje pode ser igualmente profissional, mas se a operação acontece fora das horas de expediente, azar. Não vão, simplesmente. Isto não quer dizer que não sejam dedicados quando estão a trabalhar, podem ser excelentes profissionais. Mas, quando acaba, acaba mesmo. Para as gerações anteriores, o trabalho tinha um peso diferente. Eu acho que esta nova geração até chega a ser melhor profissional na questão relacional, e delimitam de um modo mais eficiente os limites do trabalho.» O burnout grassa no outro extremo do espectro: naqueles para quem o trabalho é uma parte demasiado impregnada na sua identidade. «Como psicóloga, quando vejo alguém que não tem outros gostos na vida, aconselho que não se deve ter os ovos todos na mesma cesta. É que, além de sermos pessoas menos interessantes, não temos equilibrados os quatro pilares fundamentais: o nosso self, o trabalho/escola, a vida social e a família. Se nos dedicamos apenas a uma destas partes, acabamos por estar incompletos.»”
"Sendo líder de uma empresa, independentemente da sua magnitude, Laércio sabe que também tem a responsabilidade de manter os seus próprios funcionários a salvo de um esgotamento. Observa os movimentos da gestão, mas tem as suas próprias ideias sólidas e enraizadas. Humanizadas. «Acho que, às vezes, as pessoas levam demasiado o trabalho para casa, misturando a vida pessoal com a profissional. Ao contrário do que se diz muitas vezes, o futuro do trabalho não está no lugar onde estás, mas sim no que tu fazes. Muita gente diz: põe a pessoa a trabalhar em casa porque há menos custos. Eu digo: não, coloca a pessoa a trabalhar onde ela quiser porque gera menos stresse. O funcionário, que é obrigado a chegar ao emprego, por exemplo, às oito e meia da manhã, mesmo que haja trânsito e esteja a chover, já está estressado."
"Sabia-o em teoria, mas agora tinha a prova impressa no meu próprio corpo: o cansaço imposto pela vida urbana é cumulativo. As solicitações desgastam. A pressa desgasta. O ruído desgasta. As luzes desnecessárias desgastam. E a exaustão permanente não é natural, mas sim o produto inevitável na era da pressa, promovidas pelo modo como as cidades estão organizadas. E essa organização, bem como as prioridades que lhes são atribuídas, assume um peso inevitável na vida dos cidadãos."
"Não estamos aqui numa missão evangelizadora do catastrofismo, mas está bom de ver que a cidade não é toda aquela delícia que dizem dela: as concentrações de gente promovem uma desnecessária maquinação dos indivíduos para que produzam mais e mais, para logo de seguida consumirem mais e mais. Essa roda de hamster poderá estar na origem dos tais descontentamentos e cansaços generalizados: fomos arrancados do nosso habitat natural para cumprir com um estilo de vida para o qual não fomos desenhados. Vivíamos em permanente convivência com a natureza, isso deixou de acontecer; vivíamos numa tribo onde todos os rostos eram conhecidos e confiáveis, isso deixou de acontecer; comíamos de acordo com as necessidades biológicas, isso deixou de acontecer; a necessidade de sobrevivência instigava-nos ao movimento, isso deixou de acontecer. O preço que pagamos é uma infelicidade permanente, acalmada de forma contra-intuitiva com uma série de comportamentos autolesivos, que encontram os seus pináculos na má alimentação e no vício da desatenção por via dos ecrãs. Uma estranha resposta perante a névoa mental, as doenças crónicas e uma sensação de desconexão social permanentes, numa confirmação da irracionalidade do indivíduo trazida pela tecnologia e por um mundo absurdamente acelerado como previu Mumford."
"Quiet quitting. Quando comecei a escrever este livro, pensei em ter um capítulo dedicado ao quiet quitting como prática bizarra dos nossos tempos. Como tal, sondei os meus seguidores de Instagram, perguntando-lhes se eram praticantes de quiet quitting. Não foi um, nem dois, nem sequer dez - foram umas três ou quatro dezenas de mensagens de pessoas a responder algo nesta linha: «Trabalhar apenas o estritamente necessário e sair à hora certa, respeitando exatamente o que diz o meu contrato laboral? Sim, faço.» Isto fez-me perceber que a culpabilização do trabalhador através da introdução de um nome pomposo que defina uma prática aparentemente condenável é uma estratégia para o culpabilizar, enaltecendo quem trabalha para lá da hora."
This entire review has been hidden because of spoilers.
Não podia ser o melhor livro para começar o ano. Primeiro porque é a altura que todos nós fazemos as famosas resoluções de ano novo. Eu não sou exceção. E segundo porque é um livro que choca de frente com os hábitos que todos nós abusamos neste século XXI, eu incluído.
Já li vários livros do Nelson Nunes e sou cada vez mais fã, seja pela forma como constrói a narrativa ou pela variedade do que escreve. Basta olhar para os títulos daquilo que já lançou. Neste livro socorre-se de relatos de pessoas, mais ou menos famosas, para fundamentar, questionar ou simplesmente mostrar o ponto da situação da humanidade sobre o que é a vida neste século XXI.
Sem nunca recorrer a paternalismos ou a fórmulas de régua e esquadro, é um ótimo livro para governantes, CEOs ou para qualquer um que queira viver melhor e que possa influenciar outros a viver melhor.