Muita coisa acontece aos domingos. Famílias se reúnem, os parques lotam de gente, as rodadas de futebol levam torcidas à loucura... As pessoas aproveitam para descansar e se preparar para o início de uma nova semana de trabalho e estudo.
Em um desses domingos, numa casa no bairro da Mooca, em São Paulo, nascia Domingos Gusman Gimenez. Décadas mais tarde, seu primogênito quase repetiu a dose: em uma madrugada de domingo para segunda-feira, veio ao mundo o pequeno Sidney. Sidney Domingos, em homenagem ao pai.
Desde então, foram muitos outros domingos. Alguns corriqueiros, alguns memoráveis. Uns alegres, outros nem tanto. Mas todos foram certamente especiais, tecendo a história de uma típica família brasileira, com seus altos e baixos, encontros e perdas, erros e acertos, e, acima de tudo, muito amor.
E foram alguns desses dias que Sidney Domingos Gusman selecionou para compartilhar com o mundo em seu primeiro quadrinho autoral, Domingos, um Original Pipoca & Nanquim que ganha forma com o dinâmico e cativante traço do inigualável Jefferson Costa (Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias).
A edição tem formato grande, 204 páginas coloridas e impressas em papel pólen de alta gramatura, capa dura com verniz localizado, lombada redonda e posfácio de Filipe Melo, autor de Balada para Sophie.
Lindo em todos os sentidos, Domingos é uma história de um pai e um filho, mas que poderia ser a história de todos pais e filhos. Amor, preocupações, orgulhos, desavenças, abraços e perdões.
O Sidão é um cara fantástico e, junto da arte fantástica do Jeff, apresentou seu pai ao mundo da maneira mais linda possível.
Eu ri, eu chorei, eu me identifiquei. Domingos é uma obra essencial para qualquer estante
Em livros de memórias, especialmente aqueles centrados na figura de pais, é muito comum encontrar retratos extremamente açucarados e elogiosos ou, no extremo oposto, a demonização do sujeito retratado. É interessante perceber que, embora o tom da HQ seja em muitos momentos bastante açucarado, Domingos consegue construir uma pintura equilibrada da relação de Sidney Gusman com seu pai.
Uma relação que envolve tanto momentos de emoção, apoio e compreensão quanto episódios de atrito e desentendimentos, especialmente em razão do preconceito que seu Domingos nutria em relação ao gosto do filho por quadrinhos. O próprio Sidney Gusman, inclusive, apresenta alguns momentos surpreendentes de fragilidade sua, como crises de ansiedade e inseguranças relacionadas à condução de veículos.
Senti um pouco de falta de uma caracterização mais recorrente de Domingos como uma pessoa de “pavio curto”. Essa informação aparece nos paratextos, mas não se concretiza com tanta força na HQ propriamente dita, ficando confinada a um capítulo específico e parecendo mais um traço pontual do que uma característica estruturante de sua personalidade.
Mas é um detalhe. Domingos é uma leitura muito bonita e profundamente emocionante. O que Gusman e Costa fazem é estetizar e narrativizar a relação de uma vida inteira entre pai e filho. Para quem conhece o seu trabalho há bastante tempo (acompanho desde 2001, com o Universo HQ), isso também oferece a oportunidade de compreender um pouco melhor quem é Sidney Gusman como pessoa (ainda que sob seu próprio ponto de vista) — o que, por si só, é bastante fascinante.
Que história emocionante, e não tem como não fazer paralelos com a nossa vida conforme vai sendo feito a leitura. Achei uma experiência ótima, me lembrando bons momentos da vida. Esse álbum inclusive me lembrou alguns livros do Paco Roca.