Um livro teórico e complexo sobre narrativas históricas e revisionismo.
Algo que estou constantemente a pontuar diz respeito à facilidade com que se reproduz informação de forma leviana. No caso de mitos sobre países como a China, a desfaçatez agrava-se. Ora, Losurdo desconstrói a forma como analisamos o contexto histórico e as experiências socialistas.
Nesta senda, deixo-vos as seguintes provocações:
> Todos os anos os media falam de Tiananmen, mas esquecem-se de mencionar que, nesse mesmo ano de 1989, houve uma intervenção dos E.U.A. no Panamá com bombardeamentos em bairros populosos provocando centenas de mortes;
> Quem derrotou o Terceiro Reich foi a URSS, sob o comando de Stalin, que foi igualmente quem deu impulso ao processo de descolonização e à luta contra o racismo anti-semita e aticamita.
[A análise de contextos não implica a romantização de figuras políticas.]
Socialistas existem em grande número, mas isso não significa que uma fatia considerável da esquerda renuncie às narrativas hegemónicas do ocidente. Basta pensar no caso do Tibete, em que grande parte da esquerda aderiu ao expansionismo colonial britânico por mera oposição a Mao e, posteriormente, não se opondo à revolta em 59 incitada pela CIA, glorificando também a figura de D. Lama porque ganhou um prémio da paz (ver imagem).
[A ruptura com práticas reiteradas é retardada pela incompreensão de processos históricos como são, e não como gostaríamos que tivessem sido.]
Outro caso de estudo diz respeito à negação de experiências socialistas. O Partido Comunista Chinês foi protagonista de uma das maiores revoluções da História; ainda assim, o seu caminho revolucionário foi desconsiderado sob o mantra “mas a China não é socialista”. Losurdo desconstrói várias revoluções no decurso dos tempos, mostrando que “o desfasamento entre programas e resultados é próprio de toda e qualquer revolução”.
Sem contexto não há análise que se preze, mas atenção à construção programada de contextos - não andemos ao colo da máquina dos mass media financiada pelos EUA, sob pena de todo e qualquer assunto ser mastigado para nós e o engolirmos na mesma.