O autor e protagonista desta aventura é um médico português. Em plena pandemia viveu, na Amazónia, entre o sonho e o delírio. Preservou a memória de dias aflitos na linha da frente do combate à COVID, quando o oxigénio faltou no pulmão do mundo. Luís Moreira Gonçalves juntou-se ao artista Felipe Parucci para a reconstituição – em imagens poderosas e intenso ritmo narrativo – de uma história vivida na trágica primeira pessoa. O resultado é este relato comovente – e por vezes surpreendentemente divertido – de uma passagem pelo inferno, modo de entender as presenças fantasmagóricas que lhe povoam as suas 1001 noites em branco.
O português Luís Moreira Gonçalves era professor de Química na Universidade de São Paulo, quando foi pedida a sua ajuda num hospital de campanha durante a pandemia de covid-19, em Porto Velho, no estado da Rondônia. Apesar de ser licenciado em medicina, era melhor médico na teoria, mas no hospital de campanha recuperou, a bem ou a mal, a prática. A entubar pacientes, a informar famílias de pacientes sobre o estado dos mesmo mas, sobretudo, a preencher D.O. (declarações de óbito). No meio de uma grave pandemia mundial, muitas vezes sem material médico ou medicamentos, num hospital em que chovia, em turnos longos e com pouco descanso, e do qual o governo não queria saber, o número de vítimas era simplesmente avassalador, mas também houve pessoas que conseguiram recuperar e voltavam para agradecer tudo o que os profissionais de saúde e outro pessoal do hospital fizeram por elas. Um relato duro, cru, mas também muito humano. Adorei!
Morreram mais de 700 mil pessoas de covid-19 no Brasil, mais de metade em 2021.
Este ano já tinha lido "Você Não Me Conhece", de Guilherme de Sousa, que aborda o mesmo tema a partir de um ângulo diferente. Recomendo vivamente ambas as obras. Enquanto Guilherme se centra sobretudo nas suas experiências pessoais com outras pessoas durante a Pandemia, aqui Luís Gonçalves dirige a crítica às instituições — embora ambos integrem também as suas vivências pessoais a lidar com a doença.
O traço de Felipe Parucci confere à obra uma aura crua e intensa que acentua a tensão da narrativa, chegando a endurecer ainda mais nos momentos mais duros dos acontecimentos.
A experiência de Luís é profundamente triste, mas reflete a realidade de muitos médicos e profissionais de saúde que lutaram na linha da frente da Pandemia, arriscando a própria vida, para, no final, não serem devidamente valorizados pelas instituições que os representam — e, por vezes, nem sequer pelas pessoas que procuravam salvar.
E pensar que ainda há quem reduza a COVID a uma simples “gripezinha”… É devastador refletir nisso enquanto acompanhamos a luta desesperada destes profissionais durante os meses mais intensos da crise.
Uma obra de verdadeiro serviço público e de leitura obrigatória!
--
EN What an absolutely overwhelming work!
Earlier this year I read You Don’t Know Me, by Guilherme de Sousa, which tackles the same topic from a different angle. I strongly recommend both works. While Guilherme focuses mainly on his personal experiences with others during the pandemic, here Luís Gonçalves directs his critique towards the institutions — although both also include their personal experiences dealing with the disease.
Felipe Parucci’s artwork gives the book a raw, intense aura that heightens the narrative’s tension, even hardening further during the most difficult moments of the story.
Luís’s experience is profoundly sad, yet it reflects the reality of many doctors and healthcare professionals who fought on the front lines of the pandemic, risking their lives only to end up undervalued by the very institutions meant to represent them — and, at times, even by the people they were trying to save.
And to think there are still those who believe COVID was just “a little flu”… It’s heartbreaking to consider this while witnessing the desperate struggle of these professionals during the most intense months of the crisis.
A work of true public service and an essential read!
O testemunho de um médico português, sem experiência, num hospital de campanha na Amazónia durante o inferno da Covid-19. A esta distância, já quase nos esquecemos desta horrível tragédia. Este é um livro extraordinário, um relato na primeira pessoa em banda desenhada e com desenhos espetaculares. É mesmo preciso ler. Recomendo vivamente.
Novela gráfica brilhante, com uma narrativa intensa e apaixonante e ilustrações a condizer. Levei apenas dois dias a completar a leitura das aventuras reais deste médico português, na linha da frente do atendimento a doentes com Covid na Rondônia, em plena região amazónica, em 2021! Tive a oportunidade de comprar a edição portuguesa deste livro (Editora Zigurate), na Feira do Livro do Porto, em pré-lançamento (previsto para 23 de setembro), onde tive o gosto de conhecer o autor, Luis Moreira Gonçalves, aí presente. Aconselho vivamente a sua leitura a todos, em particular a quem, como eu, também esteve na linha da frente do combate à pandemia, mesmo que em condições muito menos penosas do que o autor.
Eu me perguntava por que uma obra assim ainda não existia - um relato cru e sincero de quem viveu e sobreviveu na linha de frente do combate à Covid no Norte do Brasil. Talvez porque uma obra como Dormindo Entre Cadáveres tenha de nascer de uma transformação. A tragédia da Covid fez de Luís Moreira médico. A dor, o descaso, mas também a força do espírito humano fizeram dele autor. A coragem e a solidariedade de Luís, aliadas à narrativa espetacular de Felipe Parucci fizeram um documento fundamental sobre essa tragédia que nos tomou mais de 700 mil vidas. Dormindo Entre Cadáveres vai entrar para a história - dos quadrinhos e do Brasil.
Esta novela gráfica é bastante dura de ler, basta ver o título e saber que se debruça sobre uma época recente, que todos nós vivemos, incrédulos face aos acontecimentos, o Covid 19.
Luís Moreira Gonçalves é português e estava em casa quando leu um apelo a solicitar médicos para um hospital de campanha em plena Amazónia, no Brasil. Sem experiência profissional, mas cheio de vontade de ajudar o próximo candidatou-se e viveu dias que nunca sonhou, pelos piores motivos!
Sem condições nem materiais e medicamentos suficientes, os poucos médicos e pessoal auxiliar teve que se desdobrar para acudir a todos quantos precisavam de ajuda.
Este é o relato destes dias, vívidos na primeira pessoa pelo autor, que resolveu contá-los, acredito eu, quase como forma de se libertar desse peso. As ilustrações estão a cargo de Felipe Parucci, num desenho incrível, a preto e branco, mas com uma intensidade impressionante.
Achei uma obra muito honesta, crua, realista sem cair no dramatismo. Transpareceu todo o desespero e cansaço daqueles dias vividos de uma forma muito diferente de quem ficou em casa, à espera de poder voltar a sair...
Esta com certeza foi minha melhor leitura de 2025. Será que nesses 4 meses e meio restantes algo consegue superá-la?
Como amplamente divulgado, a HQ narra a experiência de um médico português num hospital de campanha da Covid-19 em Rondônia, convivendo diariamente com a morte de pacientes (o título alude de forma LITERAL a uma situação da obra)
A obra expõe, claro, os horrores da pandemia e a precariedade dos serviços de saúde na região Norte - a própria presença do autor é um sintoma disso, pois embora fosse graduado em Medicina tinha pouca experiência prática e atuava como professor de Química na USP. No entanto, foi um dos poucos que se dispuseram a enfrentar a pandemia de frente e se empenharam para fazer alguma diferença.
O que realmente mais me choca e entristece na obra é justamente a situação - entre quixotesca e kafkiana - vivida por Luís, duplamente punido por atuar na linha de frente de combate à pandemia. É para nos (re)abrir os olhos para o quão ingrata e amarga pode ser a vida, as instituições, a humanidade.
A narrativa peculiar de Felipe Parrucci dialoga muito bem com as situações a que dá vida — e me faz ter vontade de colocar no topo da pilha seus outros livros que tenho há anos e ainda não li…
Esse gibi é um retrato real de quem estava na linha de frente no combate ao COVID no norte do Brasil no auge da pandemia. O autor, médico por formação, mas sem experiência de clinicar (era professor de química na USP) responde um e-mail que pedia médicos para atuar em Porto Velho, Rondônia. No começo ninguém sabia exatamente quanto tempo iria durar. A maior autoridade do país na época chamou de “gripe ou resfriadinho” e que seu “histórico de atleta” não deixaria que ele pegasse uma forma grave da doença. Mas ele estava redondamente enganado. Por culpa dele, direta e indiretamente, o Brasil foi um dos países onde mais morreu gente por COVID-19. E o norte do país foi uma das regiões que mais sofreu, principalmente com a nova variante em Manaus. Esse gibi conta uma parte dessa história. Pelo menos a que o médico Luís Moreira Gonçalves viveu. Ele entrou em contato com o desenhista Felipe Parucci e pediu ajuda pra contar essa história. Uma história impactante, que acho que ganha ainda mais peso com o traço marcante, mas simples de Parucci. Essa é uma obra importantíssima pta que não deixe a gente esquecer o que passamos, pra lembrar quem perdemos nessa pandemia, e pra lembrar também que um dos responsáveis está preso, mas não pelo crime que cometeu durante a pandemia, quando deliberadamente incentivou tratamentos ineficazes e sempre que possível promovia aglomerações e criticava o isolamento social. Uma obra difícil, mas extremamente necessária.
Acredito que este retrato de Luís Gonçalves seja um verdadeiro testemunho da realidade passada pelos responsáveis de saúde em vários lugares deste mundo, sendo o Brasil o país retratado aqui. É uma leitura difícil, pesada, desconfortável e bastante pessoal. O título do livro não é em vão e representa de uma forma, o desespero e cansaço dos guerreiros da frente nesta luta, mas também mostra os momentos de comovente humanidade nas decisões difíceis. Um livro que nos faz pensar e não esquecer o que foi a pandemia. Obrigado ao Luís pela mensagem e homenagem a estas pessoas. -- I believe that this portrait by Luís Gonçalves is a true testament to the reality experienced by healthcare professionals in various parts of the world, with Brazil being the country portrayed here. It is a difficult, heavy, uncomfortable, and quite personal read. The book's title is not in vain and represents, in a way, the despair and exhaustion of the frontline warriors in this fight, but it also shows moments of moving humanity in difficult decisions. A book that makes us think and not forget what the pandemic was. Thank you to Luís for the message and tribute to these people.
O médico português Luís Moreira Gonçalves se voluntaria para ajudar a combater o Covid-19 no estado de Rodônia, na região Norte do Brasil, local que foi um dos mais afetados pela pandemia do coronavírus. Depois de acompanhar os destinos mais escabrosos de pessoas que foram afetadas pelo vírus, tendo ele mesmo pego o vírus e dormido entre os cadáveres do necrotério de um hospital, resolveu contar sua experiência através de uma história em quadrinhos. Para isso, contou com a ajuda do artista Felipe Parucci, que quadrinizou seu relato, usando de uma narrativa regular de dois quadros por página e um estilo rabiscado e sem linhas concretas, talvez para emular a confusão e desordem que a pandemia causou na vida das pessoas no Brasil e ao redor do mundo. Dormindo entre Cadáveres é um relato contundente sobre a linha de frente nos hospitais brasileiros, espaços precários de saúde e o descaso do governo Bolsonaro com as pessoas afetadas pela doença. Um quadrinho que deveria servir de lição, se nosso povo não esquecesse tão fácil e levianamente das mazelas que passa e que passou.
Enquanto enfermeira foi um recordar de muitos sentimentos que senti durante a pandemia (embora não tenha trabalhado num “Covidário”, lidei com casos de COVID-19)… Gostei imenso deste livro, adorei a história real e a arte!
Recomendo a todos, mas especialmente a todos aqueles que estiveram na linha da frente durante a pandemia!
a arte do Felipe complementa a história do Luís dum jeito muito bonito pra contar um dos momentos mais tenebrosos dos últimos tempos. fiquei chocada várias vezes, ri em algumas outras, me peguei pensando que loucura foi tudo isso pela milésima vez
Dei por mim a lacrimejar várias vezes. Um tema dos meus pensamentos recentes tem sido como ainda não processei completamente a pandemia de Covid-19 e como o mundo evoluiu (ou não) sobre isso.
Este livro é um relato impactante da vida diária de um médico que ajudou a combater o vírus no norte interior do Brasil, uma área profundamente afetada e que nos trouxe várias imagens chocantes. Aqui, para além das imagens, conhecemos algumas das situações atravessadas todos os dias pelo autor, pelos seus colegas e pelos pacientes. Eu sabia em teoria que muitos médicos tinham pouca ou nenhuma experiência prática quando foram chamados a ajudar, mas alguns destes relatos tornaram isso mais real na minha mente e apesar de a situação ter sido longe do ideal, agradeço imenso a todos os que estiveram na linha da frente e deram o seu melhor para proteger e ajudar todos os outros.
Quero também elogiar o artista Felipe Parucci pelo seu retrato desta narrativa. O seu traço ajudou a transmitir a história e emoções aí presentes e não a consigo imaginar representada de outra forma.
Dormindo Entre Cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci, é uma novela gráfica dura e visceral que nos transporta diretamente para o epicentro da pandemia de Covid-19 na Amazónia. O relato do médico português Luís Moreira Gonçalves, que viveu meses de exaustão e desespero em plena crise, ganha ainda mais intensidade com a arte expressiva de Felipe Parucci, que recusa embelezar o horror e opta por traços sombrios e desconfortáveis, tão fiéis ao ambiente de colapso quanto à vulnerabilidade do protagonista. O livro impressiona pela coragem e pela autenticidade: não há floreados nem heroísmos artificiais, apenas a exposição crua de dúvidas, medos e perdas. A alternância entre texto e imagem cria um ritmo particular que dá ao leitor a sensação de estar dentro de um hospital em guerra invisível, onde cada silêncio pesa tanto quanto as palavras.
O que mais sobressai é a sua função de memória: no Brasil morreram cerca de 700 mil pessoas, e hoje parece que já esquecemos a violência dessa tragédia e as repercussões profundas que teve na vida de tantas famílias. Esta obra recorda-nos que não podemos normalizar nem apagar esse passado recente. Não é uma leitura leve, e em alguns momentos até se torna fragmentada, exigindo atenção redobrada. Mas é precisamente esse desconforto que faz da obra um testemunho poderoso, simultaneamente pessoal e universal, sobre o que significa resistir quando tudo à volta parece ruir. Mais do que um livro, é um exercício de memória e de responsabilidade coletiva.
Anos depois do fim da pandemia, li o seu relato (em formato de graphic novel) talvez mais pungente e duro.
Dormindo entre cadáveres traz a realidade nua e crua de diferentes aspectos da pandemia: a fragilidade do sistema público de saúde do Brasil, especialmente das regiões menos ricas do país, e as suas consequências tanto para os que dele necessitaram naquele momento de calamidade pública (global), quanto para os que nele trabalharam para salvar vidas.
O doutor Luís não passa a mão na cabeça de ninguém, não poupa detalhes com o fim de abrandar o choque, nem denota o protagonista da história de um heroísmo romântico. Não, neste livro vemos a sinceridade expressa nas falhas dos personagens (afinal, humanos), no cansaço físico e mental oriundos de uma situação extrema tensão, da espinhosa necessidade de decidir por uma ou outra vida, da corrosiva obrigação de comunicar a um parente a morte de um ente querido, etc.
Um livro arrebatador, contado de uma maneira célere (levei algumas horas para ler tudo com calma), pois se utiliza de ilustrações, mas que requer estômago e contemplação para os leitores que, após o fim da leitura, têm a (quase) obrigação de parar, refletir, lembrar com dor e torcer para que nunca mais passemos por situação sequer semelhante ao da pandemia de COVID-19.
Um grande retrato do melhor e do pior da humanidade.
A história de alguém que quer ajudar e esbarra com a realidade: a morte, a impotência, a inexperiência e a indiferença. O egoísmo, a maldade e a ignorância misturam-se com a esperança, a vontade de fazer a diferença e o desejo de estar do lado certo.
Numa situação de caos, o ser humano revelou o melhor que tem, mas também aquilo de pior é capaz. Gostar de acreditar que aprendemos alguma coisa com esta experiência é inevitável, mas receio que a realidade da natureza humana não nos permita ter essa certeza. Talvez tenhamos aprendido, mas continuamos a ser capazes de repetir os mesmos erros.
Ainda assim, há pequenos fogachos de esperança, traduzidos em boas ações que fizeram a diferença e que nos lembram que, mesmo nos momentos mais sombrios, nem tudo está perdido.
É um relato que deve ficar para a história do que foi a pandemia de COVID-19 e do que significou enfrentá-la, em simultâneo com todas as contrariedades políticas, religiosas e científicas que marcaram esse período. Tudo se misturou numa espécie de batedeira de vida, esperança, dor e morte.
Cada capítulo é um mergulho emocional — o tipo de leitura que deixa marcas, faz pensar e convida à introspecção. É impossível sair ileso dessa história: ela confronta o leitor com a fragilidade da vida e a força dos sentimentos. Dormir entre cadáveres, também é o que todos fazemos quando escolhemos viver apesar do peso do que já perdemos.
Um retrato MUITO necessario daquilo que vivemos durante o covid em banda desenhada. Este livro em específico fala de um médico português que foi ajudar o Brasil no combate desta doença. Recomendo!
《Dormindo sntre cadáveres》é, ao mesmo tempo, uma expressão figurada e uma verdade literal. Cansaço, sentimento de impotência, corrupção... tudo isto ficou a nu durante o período da pnademia de covid-19. Fezlimente também que o sentido de entreajuda e a esperança, também...
Um relato duro, verdadeiro, simples, de um médico português que procurou salvar vidas durante a pandemia, numa região esquecida do Brasil. Gostei muito! ❤️🩹