Ancorada no areal da gândara, uma casa em falência. Em seu redor, o halo lucilante protege o terreno antes da execução da hipoteca. Imagens difusas povoam a paisagem de dunas a perder de vista, tentando capturar o que resta do real: a criança sentada num osso de baleia, o pai premindo o obturador, a mãe na senda da alquimia das gisandras, o tio aperfeiçoando a fórmula da porcelana etérea. E o silêncio atemorizador ao longo dos dias: o executor fiscal, os peregrinos de cabeça em chamas ameaçando a harmonia do reino mineral.
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Coimbra (1947) e foi um dos iniciadores do movimento neo-realista. Colaborou nas revistas Altitude, Seara Nova e Vértice (de que foi director). Poeta e romancista, estreou-se com o volume de poemas Turismo (1942) e o romance Casa da Duna (1943). Publicou depois os volumes de poemas Mãe Pobre (1945), Colheita Perdida (1948), Descida aos Infernos (1949), Terra de Harmonia (1950), Cantata (1960), entre outros, e compendiou a sua obra poética em Trabalho Poético (1977-78). Além de romances (Alcateia, 1944; Pequenos Burgueses, 1948; Uma Abelha na Chuva, 1953, e Finisterra, 1978), publicou o livro de crónicas O Aprendiz de Feiticeiro (1971). Foi condecorado pela Presidência da República, a título póstumo, com o Grande-Oficialato da Ordem da Sant’Iago da Espada, em 1990.
Mais um daqueles livros densos, que não são breves nem leves... Um livro curto, que deixa a sensação de demasiado longo.
Trouxe-me uma experiência confusa...tal como se me tivesse metido num labirinto sem saída. A noção mais nítida é que não "apanhei" coisa alguma e que todo o livro é um enigma, que não consegui descodificar..
Talvez o seu valor resida precisamente neste facto,.. mas não sei avaliar!
A percepção que eu tive, leva-me a olhar para a narrativa, como se fosse a descricao de uma fotografia entercalada com um desenho, onde a luz e as cores passam a ser os protagonistas...a fotografia e o desenho ganham vida e movimento no instante em que foi captado.. como se a a pintura fosse procurar as cores para retratar um enredo que antes era abstracto, e aos poucos quer encontrar nitidez nos seus contornos, na sua luz e cor... às tantas já é o desenho, dentro de outro desenho com gente..com várias camadas.
Não me encantou e nem me deu cor.
Entendi que a escrita procurou ser poética mas, para mim, soou a forçada.
Que fique nítido, que não sou minimamente entendida em literatura, nem pretendo algo do género...apenas deixo o rasto do que eu senti...
No final de contas "Finisterra" foi considerado, por especialistas, um dos melhores livros portugueses, editados entre 1916-2016, portanto a minha opinião é leiga demais para ter algum crédito.
👉A quem ainda não leu, por favor, não percam o entusiasmo... Procurem sempre as vossas próprias opiniões!!
Esforcei-me muito…Juro… Li as primeiras cinquentas páginas três vezes, e nada... Foi como quando tentei ler o Herberto Helder e a Maria Gabriela Llansol. Aquelas palavras todas… e em português, mas igual que em chinês…
Uma dialética construída sobre as ruínas. Entre o espaço abandonado e a paisagem que se vê da janela, assiste-se ao acender de fragmentos de memórias de um passado recordado (imaginado?). Ardem como as cabeças dos habitantes dos desenhos da infância. Espaço de conjeturas metafísicas mescladas de vozes espectrais. Tudo se funde numa tentativa de reconstrução. Na solidão, o repovoamento.
esta merda pareceu um sonho: há imagens que ficam pirogravadas na memória, há capítulos que não percebo patavina devido à densidade, como se fossem blackouts da narrativa. a inovação do romance é reconhecida, mas eu não fui capaz de perceber mais. vou ter que ler isto com mais atenção, quando me reformar
Ler as ruínas de uma casa que se tenta reerguer, caminhando num intermitente incerto entre o seu passado e presente. Tentam comunicar, revivê-la para pedir vida em troca. Mas aqui, a beleza da casa não é imensurável, nem a sua bondade é infinita.
uma escrita em torrente com a mesma cadencia dos pensamentos. As descrições intermináveis como quem não quer deixar cair uma memória, um momento sublime. Sobretudo, uma escrita cheia de arrojo que se a dia de hoje é rara à época, quase me parece impossível. Uma casa que paira sob a ameaça de execução a fauna que a rodeia o universo sensorial sobre a qual gravita, um sonho ou uma perda irremediável.
usos soberbos da linguagem literária — apesar de ser críptica neste caso, é uma opacidade convidativa excelente forma de recuperar a tradição neorrealista problematizando o real de várias formas sugestão de fim do mundo? ou fim de um mundo pelo menos? amo
(contudo, as leituras para a faculdade estão a deixar-me com necessidade de ler um shitty romance porque o meu cérebro já não aguenta mais tanta abstração)
Primeira leitura. Reconheço que não estava munido de machete para desbravar o terreno cheio de gramíneas e tentar ver de perto uma gisandra. Talvez numa segunda leitura aviste a casa e uma terceira me permita conhecer melhor os intervenientes. De momento sou um peregrino na fila do fundo
Finisterra apanhou-me de surpresa. No início, senti-me arrastado por um texto muito disperso e com pouco sentido. Tive de recomeçar, concentrado. Resultou quase plenamente. A fusão muito boa entre passado e presente nem sempre é fácil de discernir; as metáforas pouco óbvias, mas sentidas dão um significado muito pungente ao fim da terra. Infelizmente, não percebi o papel do homem de barba ruiva nesta narrativa.
Cinco estrelas, mais uma vez. Sempre que volto ao Finisterra é como se o lesse pela primeira vez - há tanto aqui, tantos pormenores, tantas imagens, que é impossível lembrar-me de tudo. Um livro denso, difícil de entrar, mas tão bom e tão bem escrito. Preciso de voltar a ele de quando em quando. E agora estava na altura.