Um homem à beira da morte compra uma igreja abandonada no deserto do Namibe, em Angola, junto a um enorme penhasco de onde se vê o Atlântico. Chama-se Leopoldo G. Borges, e é um geólogo e poeta conhecido e respeitado no seu país. Leopoldo decide transformar os últimos meses da sua vida numa escavação — não de pedras, mas da própria alma.
Durante o seu retiro no silêncio mineral do Namibe, escreve o seu diário, além de poemas, juntando reflexões, memórias, visões e presságios. No subsolo da capela em ruínas, Leopoldo descobre a réplica preservada desta, onde o tempo se dissolve e a morte parece esperar, paciente. Entre esses dois mundos, o poeta procura a filha desaparecida, Gaia, e a si próprio.
Tudo Sobre Deus é uma história sobre a finitude, a memória, a culpa e a redenção; sobre o amor entre um pai e uma filha; sobre a arte de despedir-se e o milagre de permanecer. Um romance iluminado pela luz estonteante do deserto, onde, contaminada pela ficção, a realidade se torna fluída e inconfiável.
«José Eduardo Agualusa [Alves da Cunha] nasceu no Huambo, Angola, em 1960. Estudou Silvicultura e Agronomia em Lisboa, Portugal. Os seus livros estão traduzidos em 25 idiomas.
Escreveu várias peças de teatro: "Geração W", "Aquela Mulher", "Chovem amores na Rua do Matador" e "A Caixa Preta", estas duas últimas juntamente com Mia Couto.
Beneficiou de três bolsas de criação literária: a primeira, concedida pelo Centro Nacional de Cultura em 1997 para escrever « Nação crioula », a segunda em 2000, concedida pela Fundação Oriente, que lhe permitiu visitar Goa durante 3 meses e na sequência da qual escreveu « Um estranho em Goa » e a terceira em 2001, concedida pela instituição alemã Deutscher Akademischer Austauschdienst. Graças a esta bolsa viveu um ano em Berlim, e foi lá que escreveu « O Ano em que Zumbi Tomou o Rio ». No início de 2009 a convite da Fundação Holandesa para a Literatura, passou dois meses em Amsterdam na Residência para Escritores, onde acabou de escrever o romance, « Barroco tropical ».
Escreve crónicas para o jornal brasileiro O Globo, a revista LER e o portal Rede Angola.
Realiza para a RDP África "A hora das Cigarras", um programa de música e textos africanos.
----- José Eduardo Agualusa (Alves da Cunha) is an Angolan journalist and writer born to white Portuguese settlers. A native of Huambo, Angola, he currently resides in both Lisbon and Luanda. He writes in Portuguese.
He has previously published collections of short stories, novels, a novella, and - in collaboration with fellow journalist Fernando Semedo and photographer Elza Rocha - a work of investigative reporting on the African community of Lisbon, Lisboa Africana (1993). He has also written Estação das Chuvas, a biographical novel about Lidia do Carmo Ferreira, the Angolan poet and historian who disappeared mysteriously in Luanda in 1992. His novel Nação Crioula (1997) was awarded the Grande Prémio Literário RTP. It tells the story of a secret love between the fictional Portuguese adventurer Carlos Fradique Mendes (a creation of the 19th century novelist Eça de Queiroz) and Ana Olímpia de Caminha, a former slave who became one of the wealthiest people in Angola. Um Estranho em Goa ("A stranger in Goa", 2000) was written on the occasion of a visit to Goa by the author.
Agualusa won the Independent Foreign Fiction Prize in 2007 for the English translation of his novel The Book of Chameleons, translated by Daniel Hahn. He is the first African writer to win the award since its inception in 1990. (wikipedia)
Não queria que este livro acabasse nunca. Sinto que mudou a minha relação com o meu pai. Tão lindo, tão terno, absolutamente perfeito
“Minha amada filha, vejo-te em todas as idades ao mesmo tempo: recém-nascida nos meus braços, menina, com o riso incendiado, e já mulher, caminhando contra o vento, com a certeza de quem domina o próprio destino. Por vezes sonho que estamos outra vez na praia, desenhando círculos na areia. Quando todas as fronteiras se abrirem, talvez nos reencontremos num lugar sem nomes, onde nada precisa ser justificado. Eu estarei sentado num banco de pedra, que já foi nuvem, ou num tronco de árvore, que já foi rio. Tu virás, e eu saberei quem és antes de erguer os olhos. Até lá, estarei por perto, vigiando-te e protegendo-te, sob a forma de uma brisa tépida, ou de uma sombra refrescante, ou como um rumor que te sopra a palavra certa no instante exato.”
Quanta beleza cabe num livro? Neste caso, as palavras esculpidas são majestosas. Fui arrebatada da primeira à última página. Curiosamente, em 3 livros recentemente lidos, a Morte surge vestida de personagem principal. Nestas páginas, escreve-se o apaziguamento com a dita, desconstruindo que seja um fim.
É um daqueles livros que apetece sublinhar, reler, absorver após terminada a leitura e escrever sobre a sua reverberação em nós. Escolho apenas mais um parágrafo, elogio da amizade, em jeito de despedida:
"Quando todas as fronteiras se abrirem, talvez nos reencontremos num lugar sem nomes, onde nada precisa ser justificado. Eu estarei sentado num banco de pedra, que já foi nuvem, ou num tronco de árvore, que já foi rio. Tu virás, e eu saberei quem és antes de erguer os olhos. Até lá, estarei por perto, vigiando-te e protegendo-te sobre a forma de uma brisa tépida, ou de uma sombra refrescante, ou como um rumor que te sopra a palavra certa no instante exacto."
Leopoldo Borges é um geólogo e também um poeta. É também um homem com mau feitio. Conta-nos da sua reação ao anúncio da morte próxima, da revolta contra a corrupção instalada no pós-independência de Angola, do inabalável amor à filha e, também à mulher. A forma poética como olha para o deserto onde se instala numa igreja abandonada. Agualusa tem a capacidade e virtude de ter uma escrita muito bonita que nos envolve e dá um virtuoso colorido às letras do livro e à estória e pensamento do Leopoldo com frases, de que destaco: “Quem cresce aqui acha o resto do mundo demasiado apertado.” e “Sempre que contraio uma certeza- sobre o que quer que seja-, respiro fundo, preparo uma tisana, e aguardo que se transforme em dúvida. O que me move é a perplexidade, a inquietação, a cerveja, a liamba e o fracasso. Deixo as certezas para os fracos.”
Há livros que termino e sei logo o que dizer sobre eles. Consigo explicar o que me deram, o que me levaram, onde me tocaram. Este não.
Com Tudo sobre Deus senti-me muitas vezes sem palavras e isso raramente me acontece. Li devagar, parei muitas vezes, voltei atrás. Não por dificuldade, mas porque havia frases que pediam silêncio. Um silêncio interior. Como se o livro me estivesse a pedir mais presença do que interpretação.
Não sei descrevê-lo sem o empobrecer. Não sei resumi-lo sem o trair. A intensidade está naquilo que mexe cá dentro, no desconforto bom de quem é obrigado a pensar, a sentir, a rever certezas que julgava sólidas. Há uma reflexão que não se impõe, mas insiste. Que não grita, mas fica.
Este livro não me explicou Deus. Nem conseguiria fazê-lo. Explicou-me a minha relação com a dúvida, com a fé, com o vazio e com a humanidade. E talvez seja isso que mais me tocou: não sair dele com respostas, mas com perguntas mais verdadeiras.
E isso, para mim, é raro num livro.
«Talvez o amor seja só isto: um eco que nos persegue até a solidão o extinguir.»
Adorei o livro. Uma obra profundamente sentimental, centrada nas relações humanas, no erro e no perdão, onde a espiritualidade e o cepticismo coexistem de forma subtil e profundamente humana.
Este foi o meu primeiro livro de José Eduardo Agualusa.
Uma obra modesta, despojada, marcada por uma notável pureza de linguagem.
Nele, encontramos Leopoldo G. Borges, um poeta idiossincrático na fase final da sua vida.
Há, penso eu, uma coragem tremenda em alguém que escolhe existir nos seus próprios termos. E isso inclui tomar decisões segundo a sua própria vontade. Leopoldo, quando confrontado com o fim, decide como os dias que lhe restam irão decorrer.
Poeta a todas as horas, continua a documentar abundantemente os seus sentimentos, como se, através da escrita, pudesse prolongar-se. Escrever era um dos alicerces da sua existência, uma forma de permanecer no mundo.
Ao longo do livro, chegamos a compreender Leopoldo na sua totalidade, em todas as suas dimensões. O universo lembrará tudo o que cada um de nós foi, e é certo que ninguém é apenas uma coisa.
Leopoldo não era apenas o Poeta. Era o homem, o pai, o órfão, o irmão, o marido. Era o sensível e o furioso. O santo e o pecador.
Há inspiração, fé e talento neste livro.
José Eduardo Agualusa escreve com uma claridade prodigiosa, com uma linha direta para a alma, independentemente das origens ou crenças de cada um.
E Leopoldo G. Borges é um homem singular que, ao ser plenamente ele próprio, se torna, de certa forma, todos nós.
O mundo precisa de redenção. A redenção que Agualusa oferece aqui é suave, luminosa, feita de palavras.
Ganhou um admirador. Ganhou um leitor para o futuro.
Há muito tempo que não lia nada de José Eduardo Agualusa, mas recordo-me bem da qualidade de tudo o li dele até hoje. Este “Tudo Sobre Deus” não é exceção.
É a história de Leopoldo G. Borges, mas é antes disso uma história sobre muitas coisas, como podemos ler na sinopse, desde a memória, passando pela culpa, o amor e a finitude.
Muito bem escrito, real, próximo do leitor, foi assim que senti este livro. Se fosse um doce, diria que o sabor fica na boca. Se Ana Bárbara Pedrosa lhe dá quatro estrelas, quem sou eu para não dar cinco.
Eis um exemplo de como uma ideia interessante, uma história com potencial cinematográfico, se arrasta e empastela. Dei por mim a passar por alto páginas e mais páginas de reflexões e pensamentos, na esperança de retomar o fio da tal história potencialmente interessante. Poderia tirar partido do exotismo daquele grande país, do vislumbre de realismo mágico, de alguma ação mas enfim... não deu para tanto. Ficou a beleza da sobrecapa e das guardas do livro, compostas por ilustrações que acabam por ser bem mais belas e sugestivas que o conteúdo.
Belíssimo. Silenciosa e intensamente poético. Hei-de cá voltar amiúde para me embeber na Lista de Sentimentos Ainda por Nomear e nos Subsídios para uma Teologia do Acaso, que assim começam: "1. A febre aproxima-nos do acaso (eventualmente, do ocaso). Traz-nos aos lábios gretados frases tão erradas, que, por vezes, acertam mais do que as mais acertadas. A poesia é a vida com malária. Já agora: a boa poesia acerta sempre."
Tudo sobre Deus, de José Eduardo Agualusa é um livro muito bonito.
É um poema de reflexão e amor, com base na história ficcionalizada de uma pessoa em que todos nos podemos ver um pouco.
No fundo, tecendo o reflexo da sociedade e desenvolvimento de Angola, como o escritor já nos habituou, desenha uma aguarela de como viver e morrer com os outros.
O charme predomina a apresentação visual do livro. A história de um poeta aborrecido. Termina com cartas de despedida, a mais marcante de um pai tremendamente apaixonado pela filha.
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I think the novel has good aphorisms and some interesting ideas to reflect on. The farewell letter from Leopold to his daughter, Gaia, was very moving.
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Adorei!! Tantas frases sublinhadas… Uma visão tão real da mente humana, das relações, do contraste entre quem queremos ser e quem somos, de quem somos e quem mostramos ser e de como, de repente, se passa uma vida…