“Sempre” é uma palavra audaz, que o próprio tempo quebra, de face pungente e solipsista. Uma singela palavra, tão densa na existência humana, adorna e realça a nossa parca finitude. No seio do “sempre”, ficamos codilhados, letárgicos na ilusão de que talvez seja tocável e à volta dela tecemos a teia da nossa vivência. Vergílio Ferreira, cuja coleção literária se demarca pela forte presença de temas existencialistas, leva até ao tutano as facetas da vida, esculpindo minuciosamente cada detalhe. Supera-se, a ele mesmo e aos limites que a vida nos parece impor, a partir de Paulo, a figura masculina fictícia que o autor cria. Embarcamos numa visita pelos recantos da tão maravilhosa e contundente existência. Tudo se inicia no recôndito rural que viu crescer Paulo e na casa das suas tias, onde a personagem reencontra a infância vivaz e enérgica, a maior dádiva da sua vida. Os seus anos de estudos ficam marcadas pelo encontro com o amor, sentimento ardente e apaixonado, guia da sua vida e encantos dos seus dias. Na vida adulta surgem as responsabilidades, os verdadeiros embaraços, mais amor e os filhos, zénite da paixão, mas um desafio ao conceito de ser pai. O ciclo chega a um fim de senectude, encarquilhado sentado no sofá, agoirando a morte e sentindo a saudade da vida que sorrateiramente escoou. Tudo se exibe diante dos olhos de Paulo, que recorda a sua passada desejando intensamente uma resignação que a sua condição lhe impede.
As tareias e aborrecimentos com as tias, o amor de Sandra e seu o sofrimento até à morte, as peripécias da filha Alexandra e o seu estado de decrepitude revelam as interrogações, as fragilidades e a preciosidade do tempo que nos é concebido viver. Atados às questões, ainda assim, entregamo-nos ao amar, trabalhar, em súmula, ao ato de viver. Com as palavras de Vergílio, vivemos o nosso fim, entendemos a nossa posição de ineptos neste mistério que é a vida, mas, em simultâneo, aprendemos a amá-la cada vez mais, amar a vida e o que a compõe.