«Aparentemente a estação de caminho-de-ferro do Union Pacific está ainda intacta, tal como descrita em Playback. Estação que eu tinha visitado em filmes sem conta. Mas faltava em tudo aquilo qualquer coisa de essencial. Demasiada luz. Uma inundação de claridade. Era isso. Faltava a noite. Faltavam as sombras. Faltava a chuvada negra do Bip Sleep. Faltava a face obscura com que os homens contagiam as cidades que povoam. Faltava a lucidez gelada da escuridão. Faltava também o Humphrey Bogart. Faltava a Lauren Bacall. Eventualmente faltaremos todos. Permanecendo, porém, como deuses imortais, os sítios para continuarem a prestar o seu indiferente testemunho de silêncio.»
PAULO CASTILHO nasceu em Matosinhos, a 10 de Fevereiro de 1944. Abraçou a carreira diplomática após a licenciatura em Direito pela Universidade de Lisboa, passando por Washington (1970-1971), Londres (1980-1985), Estocolmo (1996-1999) e Dublin (2004-2009), exercendo o cargo de Director-Geral das Comunidades Portuguesas entre 1991 e 1995. O seu primeiro romance O Outro Lado do Espelho (1984), valeu-lhe o Prémio Literário do Diário de Noticias. Seguiu-se-lhe Fora de Horas (1989), que obteve o Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Eça de Queiroz e o Prémio do PEN Clube Português, Sinais Exteriores (1993), Parte Incerta (1998), Por Outras Palavras (2000), Letra e Música (2008) e Domínio Público (2011). Foi condecorado pela Presidência da República com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito, em 1995.
AGORA que terminei de ler este livro, pergunto-me se, realmente, existem pessoas que se sintam bem consigo mesmas, com as suas realidades? Tu que me leste, sentes-te bem?
Não considerando uma leitura excecional - mas sendo uma leitura portuguesa que não é muito conhecida e, mesmo assim, considero que não deve ser esquecida -, é por estes interessantes trilhos existenciais e filosóficos que percorremos ao ler este “Fora de Horas”. Com uma escrita muito pontuada, cheia de suspiros, sobretudo nos momentos finais dos capítulos, vamos lendo vidas diferentes porque todas as pessoas são diferentes. Apercebemo-nos que a grande diferença está nos valores e, inquestionavelmente com estes, a época em que vivemos. Com esta leitura, também nos apercebemos que a personalidade das pessoas é um revolver bidirecional, ora apontado na direção pró-vida, ora mirado na direção da autodestruição. Cada pessoa é como é e dispara à sua vontade, ou conforme a força que tem para apontar e disparar na vida.
Este romance funciona por monólogos alternados entre as duas principais personagens da estória (Luís e Maria José), com constantes introspeções sobre as suas vidas: sentimentos, acontecimentos, consequências, o certo e o errado, o passado, o presente e o futuro, entre outras corridas do ciclo vital.
O romance é um stand-by permanente, onde as personagens principais, bastante distintas entre si, parecem ter as suas vidas suspensas no tempo e no espaço, interrogando-se sobre como lidar com esse momento. Aqui, tudo parece (i)móvel, tudo parece (im)possível, tudo parece dificilmente fácil e facilmente difícil, num jogo de contradições no e com o qual a maior certeza é a de que a qualquer momento a página da vida pode virar, ou não – é, é muito contraditório, até parece demagógico o que procuro transmitir, mas a vida é assim: propria e exatamente, não se sabe nada -. No fundo, o presente é um palco de ceticismo e de uma falsa indiferença pelo que foi o passado e será o futuro, porque tudo importa: desde as memórias passadas até aos sonhos e imaginações relativos ao futuro. Assim, para as duas personagens centrais este parece ser um presente vazio: tanto ou mais vazio de perspetivas futuras completamente imprevisíveis, de (des)amores e (di)sabores intrincados; de sonhos, realizados ou não, de um passado nostálgico que só vive na memória.
Ao fim ao cabo, são vidas “Fora de Horas” devido à falta sempre de qualquer coisa mais, em que “… o presente se esbate por falta de futuro … [sendo que o] amanhã será uma cópia a papel químico da impotência do hoje”. Falo aqui de (in)conclusões da existência, do ser alguém, como um sono que capaz de transportar as pessoas “… para lá da fronteira onde cessam as dúvidas, os conflitos, as meias-verdades, as meias-mentiras”. Existe nestas personagens a tentativa de identificação ou reconhecimento de uma pessoa em si próprias: quem foram, quem serão e principalmente do que são para se sentirem bem no efémero agora das suas realidades. Uns conseguem, outros não.
AGORA, para ti que me leste: além da forma como que te sentes, o efémero agora da tua realidade diz-te quem és?
Com esse livro,voltou em mim a esperança pela literatura portuguesa.O romance Fora de Horas para mim é uma inovação conhecendo outras obras de escritores lusófonos.Gostei o estilo da escrita,gostei dos personagens.Foi-me um pouco difícil ler,tendo em conta que o português não é a minha língua paterna e que havia muitos pensamentos expressados no romance que são mesmo pesados.Mas gostei,gostei imenso.
Comecei com entusiasmo. Não sabia o que esperar, ou desejar e, mesmo assim, terminei a leitura com um sentimento de desconforto. Não me pareceu suficiente? Talvez quisesse algo mais... Para muitos, poderá ser uma leitura pesada, para outros, aborrecida. Para mim, o desenrolar da história foi escasso, acredito que muito mais poderia sido feito. Acredito, mesmo assim, que este seja um autor e um livro que valha a pena conhecer.