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Corsária

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Qual o valor de um nome? E a real importância de uma linhagem? Quanto custa a memória? Partindo dessas e de outras questões, Marilene Felinto, vencedora do prêmio Jabuti, conta em seu novo romance a história de uma mulher que deixa para trás um amor e uma vida confortável em Houston e retorna para o interior do Nordeste brasileiro a fim de encontrar a reparação moral e financeira a que sua família tem direito.

Convencida de que tanto sua mãe quanto seu pai foram explorados durante a infância e a juventude, a protagonista se lança em pesquisas de arquivos, testes de hereditariedade e histórias familiares contadas pela metade para vingar a pobreza, o racismo e os anos de trabalho mal remunerado e sem segurança. Para tanto, é obrigada a enfrentar interesses escusos em uma região marcada por opressão contra os trabalhadores e violência pela terra.

Como afirma Luciana da Cruz Brito no posfácio ao "tudo que está na ordem do dia está a luta de classes, a exploração do trabalho, a desigualdade, o racismo e as opressões que ele causa, seus silenciamentos. Aqui está também o livre exercício do amor e do desejo guiados unicamente pelas vontades, sem padrão ou rótulos, a agência das mulheres, a imigração, tecnologias e seus usos no mundo contemporâneo, além de ancestralidade e reparação".

Como uma baleia arpoada, repleta de dor e fúria, a protagonista de Corsária faz no romance aquilo que Marilene Felinto vem fazendo há anos na literatura toma de assalto todos ao redor com o lirismo e o inconformismo de sua obra.

176 pages, Paperback

First published July 10, 2025

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About the author

Marilene Felinto

19 books12 followers
Marilene Felinto (Recife, 1957) é escritora e crítica. Vive em São Paulo desde 1968, onde formou-se em letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Em 1982, publicou seu primeiro romance, As mulheres de Tijucopapo (relançado por ocasião da Flip), ganhador prêmio Jabuti na categoria “Autor Revelação”. Foi colunista no jornal Folha de S.Paulo e na revista Caros Amigos. Em 2019, lança Fama e infâmia: uma crítica ao jornalismo brasileiro, Sinfonia de contos de infância: para crianças e adultos, Contos reunidos e Autobiografia de uma escrita de ficção (sua dissertação de mestrado) todos em edições de autora.

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12 (12%)
1 star
5 (5%)
Displaying 1 - 14 of 14 reviews
Profile Image for Felipe.
Author 9 books66 followers
December 8, 2025
Corsária é um primo muito próximo do Asma de Adelaide Ivanova, ambos investigando migrações, injustiças, mazelas e gritos calados do povo nordestino. Se Adelaide levava isso para a chave do fantástico, da viagem no tempo, do absurdo que reflete a violência diária, Marilene Felinto toma o caminho oposto, e faz um romance muito austero, raivoso, e sobretudo lento, pouco definido pelo que acontece e mais por quem fala, uma mulher que exige que seus pais recebam tudo aquilo que a falta do sobrenome holandês do colonizador tirou deles, todo o dinheiro e oportunidades ceifadas que teorocam destruíram uma vida que já tinha tão pouca chance de prosperar. A repetição de fatos e motivos é um pouco enervante, mas afinal também é essa ficção, tão agarrada à realidade do nordeste brasileiro.
Profile Image for Felipe Beirigo.
231 reviews23 followers
February 6, 2026
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOKO DEMAIS. RAIVA, RAIVA, RAIVA E VINGANÇA. TEM POBREZA, MISÉRIA, TRABALHO DESGRAÇA, CARTÓRIO, HOUSTON, GENTE INDIGENTE E UMA GRANDE VONTADE DE MANDAR TODO MUNDO PARA A PUTA QUE PARIU. AMEI.
Profile Image for Daniel Duarte.
76 reviews2 followers
August 14, 2025
Romance de rebeldia: a protagonista executa uma migração de sentido invertido — da vida cosmopolita ao sertão nordestino — para reconstruir, a partir das vísceras de sua história familiar, um caminho de vingança que corta com o fio frio da linguagem cartorial. As trajetórias dos pais, confinados a empregos degradantes, à fome e à negação de pertencimentos (o sobrenome recusado, a mutilação operária), são revisitadas em documentos, processos e provas materiais, mas vibram sobretudo na memória e no não dito. O ímpeto de reparação tensiona os afetos: os pais recusam a reabertura das feridas; a filha insiste em fazer dobrar a história oficial aos fatos da biografia deles, convertendo injustiças em peças “a juntar aos autos”, história em reparação.

Para isso, mobiliza técnicas e perícias — DNA, georreferenciamento, certidões — com as quais alterna fascínio e recusa: manipula a frieza do método, mas não se deixa capturar por ela (chega a celebrar e, ao mesmo tempo, diminuir o telégrafo do pai). O romance se arma, assim, na fricção entre prova documental e testemunho encarnado. Duas realidades em constante tensão: vida e história.
Profile Image for Giovanni Saluotto.
11 reviews
Read
April 4, 2026
Tenho a impressão que a literatura que conheço e que leio é bastante apolínea. É o texto que se escreve de longe, seja pela via proustiana daquele que fala da intensidade por meio de verbos no pretérito do imperfeito, ou pelo caminho joyciano da inventividade formal que ganha o primeiro plano e subjuga o aqui e agora. Corsária não é nada disso. Corsária é texto dionisíaco, mas sem nenhuma festa. É o Dionísio do tumulto e da cólera, do vinho em demasiado.

Corsária é texto dionisíaco pois é sobre o aqui e agora, sobre o ódio beligerante – palavra que tantas vezes aparece no livro. Marilene até escreve sobre um passado, mas um que não foi conjugado pelo toque doce e macio de uma madeleine molhada, e sim pelas cicatrizes de inúmeras e seculares expropriações. Abusos e violências que, no entanto, não tem espessura enquanto memória/lembrança (porque não é Apolo), mas enquanto substância para reivindicações no presente (pois Dionísio).

Excelente livro.
75 reviews
February 21, 2026
Passei por muitas etapas lendo esse livro e terminei vendo a importância dele, de resgatar do anonimato milhões de pessoas que nunca vão ter seus nomes em nomes de ruas nem outras homenagens que perpetuem sua memória. Mas reconhecer a importância dele não altera o fato de que achei ele cansativo e não via a hora dele acabar.
Profile Image for Leonardo Robert.
18 reviews
Read
April 9, 2026
Embora seja meu primeiro livro lido de Marilene Felinto, conheci o texto da jornalista, escritora e tradutora pernambucana no início dos anos 2000, através de sua coluna na revista - hoje extinta - Caros Amigos (1997-2017). Vencedora do Prêmio Jabuti na categoria revelação em 1983 com o romance As Mulheres de Tijucopapo (1982), a versátil extensão de suas obras compreendem, além dos romances, crônicas, contos e ensaios.

Corsária tem a reparação histórica como mote principal, mas não de modo generalista ou sócio-estrutural; o tema ganha contornos bem mais pessoais por compor a trajetória íntima e solitária da protagonista, cuja missão pessoal é remontar o passado de seus pais, órfãos retirantes, sobreviventes sem lastro, dependentes de sua própria sorte e força de trabalho. A obssesão por desvelar o apagamento de documentos e de sobrenomes possivelmente ‘nobres’ de seus pais, levantam questionamentos entre inúmeros “e se”, apresentados em tom confessional de fluxos de pensamento.

O texto é áspero, cru e apresenta uma perspectiva espiralar, o que passa intencional e constantemente por alguns pontos já narrados repetidas vezes. Presumo que a escolha pela forma textual seja de fato espelhar da angústia da personagem, que insiste em dizer – quebrando a quarta parede – que o texto não versa sobre uma ficção. “Se isto fosse uma história, seria a narrativa de uma inexistência, começaria em página anterior ao zero, número negativo qualquer, o antes de tudo, tendo como enredo a minha ancestralidade rarefeita, nossa origem não registrada em livro cartorário nenhum”. Há inclusive em algumas passagens do livro a apresentação de linguagem jurídica, evidenciando a intenção de verosimilhança com realidades possíveis, de uma busca possível.

O talento da autora com a linguagem e as letras é inegável. De todo modo, achei a leitura cansativa. A trama em si, com suas idas e vindas repetititvas, apresenta fragmentos em que os mil possíveis desdobramentos simplesmente não ocorrem. Toda leitura e opinião são obviamentes experiências pessoais, mas em mim, fiquei a esperar por um Godot que nunca chegou.
Profile Image for Harvey Hênio.
674 reviews3 followers
January 22, 2026
Marilene Felinto, a autora desse ótimo livro, é graduada em Letras pela USP, jornalista, tradutora, cronista e romancista nascida em Pernambuco no ano de 1968. Recebeu em 1982 o Prêmio Jabuti por seu romance “Mulheres de Tijucopapo” e em 2025 voltou a receber esse prestigiado prêmio por seu romance “Corsária”.
Nesse livro que trata de questões ao mesmo tempo incômodas e fundamentais como o racismo, a desigualdade, os resquícios do passado escravocrata do país, a pobreza, as injustiças sociais e a solidão, uma protagonista que ao mesmo tempo é a narradora única da história procura reparar as brutais injustiças cometidas contra seus pais no interior de Pernambuco. Os pais da narradora, frutos indesejados de relações consideradas “marginais” pelos setores dominantes nordestinos, tiveram negados os respectivos reconhecimentos de paternidade e herança que teriam lhes garantido uma vida muito mais confortável e digna do que o cotidiano de brutalidades e carências, análogo a escravidão, onde tiveram que viver.
Dessa forma a narradora, autotransformada numa verdadeira paladina da justiça e da verdade, percorre cartórios, fazendas e lugarejos em busca das evidências que garantiriam os direitos que foram negados a seus pais. E como se não bastassem as dificuldades intrínsecas que essas buscas traziam a protagonista do romance tem que lidar também com as hostilidades das influentes famílias que renegaram e brutalizaram seus pais alegando que eles eram tratados como “pessoas da família” e com a incompreensão de seus próprios e idosos pais que não entendiam por que sua filha estava “mexendo com essas coisas”.
Vale a pena reproduzir, respectivamente, trechos de uma resenha publicada na revista “451” (Dez/2025) de autoria de Guilherme Magalhães, jornalista e mestrando em literatura brasileira na USP e do posfácio do livro de autoria de Luciana da Cruz Brito, historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações sociais no Brasil, professora da UFRB e escritora:

“A protagonista de Corsária proíbe que a chamem pelo nome. “Sem nome, isolada e vítima. Seu Ninguém! (Proibido pronunciar meu nome de vítima!)” Se isto fosse uma história…, como escreve tantas vezes Marilene Felinto neste romance que se lê de um fôlego só. Mas não é. “É apenas a terrível realidade”, nas secas palavras da autora.
Narrado em primeira pessoa, o romance tem na voz da protagonista o seu maior trunfo. Ela busca fazer “uma investigação a meu modo, eu que sou semiárida, beligerante e corsária”. Os três adjetivos vão acompanhá¬-la ao longo da narrativa:
“Corsária” por causa de fatos verídicos ocorridos no mar, que meu pai sempre nos contou e que, em última instância, no fundo da minha inconsciência, influenciaram minha vida e esta decisão de estar aqui hoje, neste fim de mundo chamado Três Estradas. “Semiárida” porque somos originários da dureza deste alto sertão e porque, assim, portanto, me criaram, realista e estoica. “Beligerante”, sim, como cachalote ferida e, por isso mesmo, feroz — minha mente, minha cachola de baleia, é cheia de tanta coisa que teria a mesma grandeza desconforme da cabeça das cachalotes, elas que também têm dentes como eu”.

“Em ‘Corsária’, tudo o que está na ordem do dia tem também vez e voz: a luta de classes, a exploração do trabalho, a desigualdade o racismo e as opressões que ele causa, seus silenciamentos, imigração, ancestralidade e reparação. Até mesmo a memória e seu registro é tema fundamental, o apagamento das lembranças das classes pobres, a perpetuação do privilégio dos herdeiros das oligarquias. Está tudo aqui, sem rótulos, nos sentimentos mais profundos da protagonista e sua família, da pena à revolta, da carência à raiva, do silêncio ao grito, da vontade de estar só à dureza da solidão.
Ao buscar pela história de sua família, a protagonista de ‘Corsária’ desafia a si e ao mundo, levada também pelo instinto vingativo das baleias feridas. Não há final feliz nem infeliz. Existem estradas pela frente, ou mares, uma linha de trem ou um céu sem limites, tanto no mundo quanto dentro de nós mesmas. Há de se ter coragem para desbravar, ainda que como ‘Ninguém’”.

Ótima pedida, embora a narração angustiada em primeira pessoa da protagonista em alguns momentos, tenha me parecido um tanto cansativa e repetitiva.

Profile Image for Diana Passy.
147 reviews318 followers
Read
December 30, 2025
"De todos os lugares, parei aqui neste cafarnaum chamado Três Estradas, no alto sertão, com o propósito de preencher lacunas e esclarecer mentiras que acompanham a vida de meu pai e de minha mãe, eles que não constam, eles sobre quem nada se registrou, eles que se calam sobre o que sempre me interessou conhecer. Esta minha aventura não tem a aprovação deles, muito pelo contrário, ofendem-se, amargando não sei que tipo de dor a partir dos dados que ando aqui coletando, de um passado remoto, da nossa antiguidade tardia, que preferem manter como morto, que ando revolvendo, trazendo à luz como ninguém nunca ousou fazer.
Não me deixo abater pelo chororô deles — mantenho meu plano, meu projeto pouco metódico, mas firme em seu propósito. E digo e repito a eles a todo momento: 'Ora, quem, em sã consciência, acha que eu quero contar a história da vida de vocês? Não! Não quero', eu disse a meu pai e minha mãe numa conversa dura e definitiva que tive com eles antes de vir para cá. 'Nunca quis! Porque é doloroso demais para mim também', complementei."
Profile Image for Pedro Magalhães.
21 reviews4 followers
March 30, 2026
Dói demais ser beligerante o tempo todo e essa constância faz a gente se perder, andar em círculos. Neste livro, Felinto consegue captar esse sentimento de angústia e também os breves momentos que a nossa protagonista-Ninguém consegue superá-lo. Corsária é lindo em momentos horríveis e eu acho que não conseguiria descrevê-lo de outro jeito. Ler essa não-história é um exercício de solidariedade não só para quem teve sua história tomada de arroubo, mas também para com quem, em pé de guerra, quer tomar de volta a própria história. A todo o custo.
Profile Image for Margarida.
94 reviews27 followers
October 3, 2025
“O caso é este: reclamar para minha mãe um
novíssimo testamento.”
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