Marguerite Yourcenar — Liberdade e Paixão é o novo romance biográfico de Cristina Carvalho. Tal como sucedeu com Selma Lagerlöf, Strindberg, Ingmar Bergman, Yeats e Paula Rego, a autora conhece bem a obra literária de Yourcenar e visitou os seus locais de vida, especialmente de infância e juventude. Foi o caso da Flandres francesa, onde ficava a casa da família do seu pai, conhecida como Château do Mont Noir, para onde muito cedo Yourcenar foi viver (Bruxelas foi apenas o sítio onde nasceu). Cristina Carvalho visitou também lugares como a aldeia de Saint-Jans-Cappel, onde existe atualmente o Museu Marguerite Yourcenar e onde falou com pessoas que a conheceram. Sempre em busca de uma inspiração que a aproximasse de Yourcenar, visitou também Lille, perto da fronteira com a Bélgica, conhecida como a capital da Flandres, onde existe uma pastelaria célebre muito frequentada pela autora de Memórias de Adriano, na qual se pode degustar as famosas gaufres que ela sempre apreciou.
CRISTINA CARVALHO nasceu em Lisboa, a 10 de Novembro de 1949. Contista e romancista, começou por publicar contos em revistas e jornais, nomeadamente no Jornal de Letras e revista Egoísta. Publicou o seu primeiro livro, Até já não é adeus, em 1989. Algumas dos seus romances estão integrados no Plano Nacional de Leitura. É filha dos escritores António Gedeão (Rómulo de Carvalho) e Natália Nunes.
Liberdade e Paixão “Assim, sem atavios nem enfeites” E assim se entra vida adentro desta primeira mulher habitante da Academia Francesa. Por vezes com cerimónia e outras tantas com crua acrimónia, tão ao estilo das narrativas peculiares que os romances biográficos, escritos por Cristina Carvalho, sempre oferecem. Há factos, há pesquisa rigorosa, há a personagem biografada que emerge em lampejos intensos de personalidade única, interrogando-se, interrogando-nos, com a honestidade com que alguém se vê ao espelho e não evita ver o que está lá. A vida aventurosa, pacífica e caótica de Marguerite Yourcenar surge-nos neste livro de mãos dadas com a escrita romanceada da sua biógrafa. Os famosos olhos azuis de Marguerite parecem fitar-nos sem se desviarem, parecendo dizer, aqui estou, esta sou eu. Sem embustes nem máscaras. Cristina Carvalho, que com ela dialoga, aguenta-lhe o olhar. Percebe-lhe a infância em contacto com a floresta, o cosmopolitismo meio estroina da adolescência aristocrática e culta, a importância de um pai cúmplice, presente e adorado, o crescimento solitário acompanhado. Percebe-lhe a arte, o génio, o profundo conhecimento da cultura clássica, o vício da viagem, das viagens, o desprendimento, a força, a alegria de viver loucamente e o apaziguamento que a natureza lhe outorga numa dádiva pródiga. Percebe-a, alcança-a, com aquela escrita requintada, tão torrencial quanto contida, com que nos brinda em cada página que se sucede. Escrita luminosa e sombria. Cristina Carvalho dá-lhe a apalavra, deixa-a nas suas recordações, providencia-lhe a memória. Jurar-se-ia que há aqui um encantamento entre a romancista e a biografada sem que, contudo, essa nítida empatia vicie o fluir da prosa, da vida, das memórias desfiadas e sinceras, que brotam linha a linha. Liberdade e paixão. Síntese feliz para uma vida que pedia para ser escrita assim. Sem atavios nem enfeites.
No Dia Internacional da Mulher, poucas leituras dialogam tão profundamente com a liberdade feminina como 𝑴𝒂𝒓𝒈𝒖𝒆𝒓𝒊𝒕𝒆 𝒀𝒐𝒖𝒓𝒄𝒆𝒏𝒂𝒓 - 𝑳𝒊𝒃𝒆𝒓𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒆 𝑷𝒂𝒊𝒙ã𝒐, de Cristina Carvalho. Não é uma biografia convencional, nem um estudo literário, mas, sim, um romance biográfico onde duas mulheres de pensamento livre se encontram: a biografada, Marguerite Yourcenar, e a autora, que lhe empresta a voz e, por vezes, deixa entrever a sua própria respiração.
Cristina Carvalho escreve na primeira pessoa, assumindo a voz de Yourcenar. E, ao fazê-lo, aproxima-se da mulher por detrás da escritora; do seu olhar atento; do seu caminhar; dos gestos quotidianos que revelam mais do que qualquer análise académica. A biógrafa, repetidamente, informa que não pretende “escarafunchar” a obra publicada; prefere partilhar pormenores do dia-a-dia, a infância, a juventude, as paixões que a moldaram e que a tornaram uma figura singular no panorama literário do século XX. Yourcenar conquista um lugar histórico ao tornar-se a primeira mulher a entrar para a Academia Francesa de Letras, em 1980. Um feito extraordinário, mas longe de ser simples. A sua homossexualidade e o facto de ter adquirido a nacionalidade americana alimentaram resistências entre os membros mais conservadores da instituição. Ainda assim, como Cristina Carvalho sugere, mesmo entre os conservadores há espíritos inteligentes que reconheceram, acima de tudo, a grandeza da obra de Yourcenar.
Entre as paixões que a moldaram, destaca-se a relação fundadora com o pai, Michel René, homem inteligente, culto, compreensivo, sonhador, pecador… Foi o seu primeiro mestre, o primeiro companheiro de viagem, aquele que lhe transmitiu o amor pelos livros, pelas línguas, pela cultura e pelo mundo. A infância feliz, em Mont Noir, na Flandres, com a sua paisagem densa e formadora, surge como um território mítico onde se adivinha já a escritora que virá a ser. Mais tarde, em Mount Desert Island, no Maine, a ilha torna-se o cenário perfeito para a maturidade de Marguerite; um lugar onde a sua liberdade encontra finalmente morada.
Também as relações amorosas surgem tratadas com respeito e humanidade. Grace Frick, companheira de décadas, presença sólida e cúmplice; Jerry Wilson, paixão tardia e frágil. Cristina Carvalho não dramatiza, não julga; observa. E nessa observação há uma ética profunda.
A natureza, os animais, a paisagem são elementos centrais na vida de Yourcenar. São presenças vivas, quase espirituais. E é precisamente nesses momentos que sentimos a voz de Cristina Carvalho emergir, discreta mas firme, revelando afinidades que atravessam o tempo: o pensamento livre, a paixão pelo mundo natural, a recusa de viver segundo expectativas alheias.
O resultado é um livro que respira. Respira liberdade, paixão, silêncio, rigor. E mostra como duas mulheres, separadas por décadas, podem encontrar-se num mesmo modo viver, de estar no mundo. Atento, indomável, profundamente humano.
É uma leitura que permite clarificar a compreensão da obra de Marguerite Yourcenar, sobretudo para quem a admira e deseja aproximar-se da mulher por detrás dos livros. Cristina Carvalho oferece-nos essa possibilidade como um murmúrio, uma lembrança de que a liberdade se constrói todos os dias, nos gestos pequenos e nas escolhas silenciosas. E talvez seja essa a maior homenagem deste romance biográfico, já que nos permite caminhar ao lado de Marguerite Yourcenar, mulher livre, feliz, apaixonada e culta.
Este livro de Cristina Carvalho é um mergulho numa das grandes figuras da literatura mundial do século XX. A autora, viva, desconstrói fronteiras entre si e a outra autora, morta, para oferecer ao leitor uma janela sobre um ser humano, porque o Ser é sempre muito mais importante do Ter. Cristina Carvalho tem-nos habituado a este registo, que é uma letra de encontro entre biografia, romance, admiração leitora ou homenagem escrita. O que impressiona neste livro é a capacidade de nos transportar para os espaços vividos por Yourcenar, para as pessoas que amou e autorizou a amar, mas também para uma geografia pessoal que tantas impressões lhe deixou (a Yourcenar, mas também a Cristina Carvalho, que muito investe, sentimentalmente e materialmente, na pesquisa dos seus objetos literários, calcorreando os seus passos). Mais do que um livro, o que li foi uma confissão de como se pode ler o mundo da Natureza e dos Homens. E a confissão foi feita por ambas, Marguerite (pela voz da Cristina) e Cristina (por inspiração de Marguerite).