Carlos tem dezesseis anos e um segredo. De uma pequena cidade incrustada na Serra da Mantiqueira, ele sabe que o mundo está prestes a acabar numa catástrofe ambiental. Os sinais estão por todos os lados, ecoam na migração repentina das aves. Também na fome descomunal das vacas nos pastos, que comem, comem o tempo inteiro, porque todo fim dá mesmo um buraco gigante no estômago. Logo ali do lado, os peixes nadam contra a correnteza, e os gatos fogem dos seus donos em disparada. Mas o que fazer enquanto o relógio não dispara o momento final? Um poema de Drummond, que os personagens tanto repetem, parece trazer a resposta: Carlos, sossegue, o amor/ é isso o que você está vendo.
Com as desventuras de Carlos e de seu núcleo familiar que dribla as regras da normatividade, Leonardo Piana escreveu uma fábula retratando nosso estranho começo de século, em que, se o apocalipse parece irrevogável, para nossas formas de estar no mundo ainda há alguma solução. Como dito por Adília Lopes, e retomado numa das páginas deste livro, Não é tarde/ é só/ de tarde.
Tarde no Planeta, de Leonardo Piana, é um livro sofisticado que confia no tempo do leitor. A história se revela aos poucos, como quem deixa pistas discretas do que está por vir, e nisso mora grande parte de sua beleza. O cotidiano ganha peso e presença enquanto certas ideias são delicadamente desmistificadas: a excelência do fazer poético que nasce da busca pela palavra enquanto se corta batatas; a maternidade que nem sempre é desejada, nem mesmo depois do nascimento do filho. Tudo é tratado com uma naturalidade que impressiona, sem alarde, sem explicação excessiva.
Nesse cenário, Leonardo constrói um microcosmo de personagens muito singulares e profundamente humanos. O garoto tomado pela ansiedade climática, indignado por ter vindo ao mundo e tentando encontrar uma forma de se rebelar. A mãe, poeta, desejando um espaço na literatura e, sobretudo, ser lida por alguém. O editor que acredita no talento da mulher que ama e se apressa para que o mundo possa ler o livro dela. O marido, inseguro, deslocado das discussões literárias, tentando reafirmar seu lugar enquanto homem. Todos falhos, cheios de segredos e pequenas crueldades: “a gente forma uma família bonita”. Eu não sabia o que esperar no começo, achava que era uma coisa e o livro se mostrou outra, e foi me conquistando a cada capítulo. No fim, é impossível não se encantar com a forma como essa história é construída. Um livro lindo, lindo, lindo, daqueles que dão vontade de reler assim que acabam.
talvez o que anunciaram há tantos anos a montanha e o rio e as flores e os insetos e sobretudo o corpo materno, as entrelinhas dos seus versos, talvez tudo signifique apenas um cataclismo pessoal — uma despedida. o quintal, hábil em presenciar a vida, não julga.
A diferença mais curiosa entre Tarde no Planeta e Sismógrafo, livro anterior de Leonardo Piana é talvez o cultivo do mistério que existe na narrativa, nas personagens, nas pessoas que o autor utiliza com muito mais intensidade em seu segundo trabalho. Às vezes como um Valter Hugo Mãe em início de carreira, quando o português ainda sabia acertar a medida de poesia, doçura e tragédia de suas tramas sem apelar para o meloso e gratuito, Piana fala de filho e mãe descobrindo mundos, revelando e escondendo segredos, experimentando dores e alegrias que não sabem nomear ainda, ou nunca saberão.
Tarde no planeta, como Mariana Salomão Carrara descreve lindamente na contracapa, é “um relato delicado e profundo do crescimento do filho apesar da mãe e da mãe apesar do filho”.
É um livro onde tudo acontece dentro de aparentes nadas, e acompanhamos a trajetória dos personagens de uma forma muito genuína e humana. Mas a grande força da obra, sem dúvidas, está na escrita de Leonardo Piana, cuja poesia transborda em todas as páginas. Recomendo muito.