Um acidente faz com que uma mulher veja o mundo em duas realidades diferentes. Um homem tenta se livrar de presenças indesejadas em sua casa. Uma criança é considerada bruxa por conta de seu cabelo... Estes horrores são mostrados em pequenos vislumbres, mudando a vida dos personagens para sempre. Esta coletânea apresenta contos que passeiam por vários subgêneros do terror, de body horror até o terror psicológico. Apenas algumas Pequenas Atrocidades.
Clarice França apresenta uma seleta de contos que ficam na fronteira do que temos visto na recente safra de horror latino-americano com o horror mais tradicional. Meus favoritos foram:
"Vermelho noiva", que abre o livro, e trabalha a monstruosidade pensando no quanto de nós nós acabamos por sacrificar para atender a expectativas e a ao jogo social que é sujíssimo, mas que por algum motivos vemos como uma prática normal. As figuras centrais são uma mãe obcecada em casar sua filha e a filha em si.
"Cabelo armado", que também traz a monstruosidade como elemento central e coloca o elemento insólito como elemento de vingança. Se a realidade nos pisoteia, que ao menos a ficção nos liberte. A protagonista é uma menina que sofre violência na escola por causa do seu cabelo. Mais tarde, os garotos que praticavam essa violência com ela... bem... pagam pelos seus erros.
"Não é nada", fala de uma criança que vê rachaduras tomando as paredes da sua casa, mas confia na palavra dos adultos de que não há nada de errado acontecendo. Assim como "Cabelo armado" acho uma ideia bem utilizada e que daria um romance curto tranquilamente. Gosto muito que a autora consegue se manter nos limites da ambivalência, deixando que a metáfora das rachaduras estabeleça um diálogo específico com cada leitor.
Contos:
Vermelho noiva Atestado de morte Sangue explosivo Presença indesejada Não é nada Sanguessuga Cabelo armado