Imagine que um dia acorda e percebe que aquilo em que nunca acreditou aconteceu mesmo: as forças populistas de direita radical ganharam as eleições e chegaram ao poder.
Foi isso que aconteceu em países como os EUA de Trump, a Hungria de Orbán, a Polónia de Kaczynski ou a Itália de Meloni. É com base nesses exemplos, mas também com conhecimento da realidade política portuguesa, que David Dinis antecipa a governação da direita radical no nosso país, o impacto que terá no dia a dia e a forma como uma democracia consolidada pode ser rapidamente corroída por dentro.
Como Proteger a Democracia não é só um alerta urgente sobre os riscos da indiferença, da normalização do discurso radical e da fragilidade das instituições perante líderes autoritários. Mais do que uma distopia, é um convite à reflexão sobre o presente e um apelo à ação, não só de políticos, mas também de cada um de nós, para que se escude a democracia e o nosso futuro.
Nos últimos anos, percebi que a democracia, que antes parecia um direito conquistado de forma sólida, agora é algo que começamos a temer perder novamente. Essa sensação de vulnerabilidade é justamente o tema do novo livro do David Dinis, que fala sobre como podemos proteger a democracia.
O autor é um jornalista português experiente, diretor adjunto do Expresso, com uma carreira extensa e diversificada, tendo trabalhado em vários jornais como o Semanário, o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, o Diário Económico, o Observador e o Público. Conhece profundamente o funcionamento do sistema político e tem um olhar crítico e informado sobre ele, algo que fica claro ao longo do livro.
O livro começa convidando o leitor a imaginar um cenário em que optamos por não votar e, assim, o partido Chega ganha as eleições com maioria absoluta. Essa hipótese assustadora serve para ilustrar o que pode acontecer se deixarmos a nossa democracia fragilizar-se por cansaço, desilusão ou desconfiança no sistema. O autor explica como, após décadas de crises econômicas, sanitárias e morais, há uma grande distância entre o que os portugueses percebem do progresso do país e a realidade. Essa desconexão alimenta a fragilidade das democracias, pois quando duvidamos que o sistema funciona, deixamos de protegê-lo.
Uma das partes mais preocupantes do livro é a análise da ascensão meteórica do Chega. Dinis não faz sensacionalismo, mas alerta para a urgência de entender como essa força política se consolidou. O partido construiu sua base na polarização, no medo e na exploração de preconceitos antigos, aproveitando-se da liberdade que as redes sociais oferecem, especialmente o TikTok, para conquistar eleitores que antes não votavam ou que estavam afastados da política.
Ele explica que, se o Chega chegar ao poder, nada permanecerá como antes. O controle das instituições, da justiça, da comunicação social e da administração pública seria intensificado, com uma agenda que impõe valores autoritários, perseguição às minorias e uma erosão dos princípios democráticos. Portugal, nesse cenário, dividir-se-ia ainda mais, entre quem apoia essa mudança e quem sofre com ela. E, para reforçar essa ideia, o autor traz exemplos internacionais de países onde a ascensão de regimes autoritários foi gradual, começando com ataques à imprensa, à justiça e às instituições acadêmicas, até corroer completamente o espaço de liberdade.
No contexto português, Dinis descreve uma transformação do sistema bipartidário — dominado por PS e PSD — para um cenário mais instável, tripartido, que ameaça a estabilidade. Ele questiona o futuro do PSD, se ele poderá recuperar sua identidade ou se tenderá a se alinhar com a direita radical, como vêm fazendo outros partidos na Europa, como na Alemanha, França, Hungria, Polônia e Itália.
O autor também analisa o crescimento do Chega, atribuindo sua ascensão à normalização de ideias antigas, preconceitos e ressentimentos que antes eram reprimidos pelo medo da censura social. Ventura soube aproveitar esse espaço, usando as redes sociais para polarizar e explorar o medo, conquistando eleitores que antes não se interessavam pela política. Dinis acredita que, no futuro, o Chega precisará moderar seu discurso para alcançar o centro, mas essa moderação será mais uma estratégia do que uma mudança genuína, dependendo das crises e das falhas dos outros partidos.
Para ele, a democracia não é algo que podemos confiar passivamente. Ela exige responsabilidade, engajamento ativo e uma constante defesa de seus valores por parte de todos — políticos, mídia, escolas e cidadãos. Afinal, a democracia nunca foi um sistema automático, mas uma decisão diária de cada um de nós.
O livro termina com uma visão quase cinematográfica de um cenário distópico, onde Ventura chega ao poder, e percebemos claramente o que pode acontecer quando a pessoa errada ocupa uma posição de liderança. O perigo sempre esteve lá, mas muitas vezes o subestimamos, acreditando que nunca seria tão grave.
A escrita do jornalista é clara, acessível, quase como uma conversa com um amigo, mas com bases sólidas em estudos e referências confiáveis. Achei interessante o contraste entre o começo mais ficcional e o núcleo mais factual do livro. Foi uma experiência inquietante, que me fez refletir sobre o quanto devemos estar atentos à evolução da nossa democracia.
Sinto que muitos podem achar esse livro alarmista, mas, para mim, ele é uma análise lúcida. Não é pessimismo, mas um lembrete de que a democracia não é garantida, e que ainda há tempo para defendê-la. Precisamos combater a desinformação, reforçar a educação cívica, limitar o apelo da extrema-direita e tornar os cidadãos mais informados, ativos e exigentes. Como diz o autor, o silêncio e o conformismo são o começo do fim.
"Esta é a hora de preservar a qualidade da vida democrática. Esta é a hora de proteger as infraestruturas da Democracia. E há muito trabalho pela frente. Há sempre, mas hoje mais ainda."
Um excelente trabalho do David Dinis (disclaimer: é diretor-adjunto do Expresso, jornal onde atualmente trabalho, que, na minha opinião, não invalida esta crítica), que nos deixa um resumo muito bom sobre a mais recente literatura científica sobre populismos, sobre os riscos desta vaga de direitas radicais e faz ainda recomendações e alertas bem pertinentes para o nosso futuro democrático.
Particularmente importante nos dias de hoje, em que se avizinha uma segunda volta, com um candidato moderado e um candidato populista - onde o líder do PSD opta por se manter “neutro”. Se hoje nos parece impossível que tal aconteça, será tão longe assim que se torne uma possibilidade? Sobretudo quando os candidatos do centro não são capazes de assumir uma postura de distanciamento, normalizando a extrema direita portuguesa?
“Mais: imagine que André Ventura conseguiria ser eleito Presidente da República - o que faria ele a um governo de outra cor política? E com um governo da sua cor política? O que faria esse Presidente às nossas forças armadas, de que é Chefe Supremo? Sabia que um Presidente da República não pode ser alvo de investigação judicial sem que dois terços do Parlamento o aprovem expressamente? Volto ao ponto de partida: não é o Chega ganhar eleições ou André Ventura ser eleito Presidente que é um perigo - esse será o cumprimento da vontade de uma maioria. Perigo, sim, é se ele usar os cargos para colocar em risco a democracia tal como a conhecemos. E mais perigoso será, sabendo que esse risco existe, não fazermos nada que nos possa proteger.”
Hipóteses provocadoras - mas com possibilidade de se concretizarem - são colocadas neste livro e são apresentadas sugestões de possíveis caminhos (ou indicação de caminhos que não funcionaram noutros países) para evitar que se tornem realidade. Muito material para aprendizagem e reflexão, exposto de forma clara, despretensiosa e independente.
Podia ser uma distopia, mas pode acontecer de facto. O texto precisa de uma revisão (ora se escreve os média ou os media, em itálico), mas é um aviso, feito através da análise de casos de países que já foram afectados pelo populismo e do próprio programa daquele cujo nome não devemos pronunciar. Mas confia excessivamente na eleição como critério máximo e único da democracia, quando um regime democrático é sobretudo o resultado do conjunto de instituições, respeito pelas minorias, respeito pelas regras e pelos direitos humanos. No fundo, uma planta frágil que deve ser sempre cuidada e regada com equilíbrio.
Vou ser parca nas palavras, porque nunca consigo fazer reviews de livros de não ficção muito bem. Mas gostaria só de reforçar que este livro deveria ser lido por todos os portugueses. Qualquer que seja a sua orientação política.
Um óptimo manual, muito informativo, que explica a crise política actual e dá ideias sobre como a superar.
Uma nota: acho que o David Dinis escreve brilhantemente e deveria apostar na ficção. Só para experimentar. Acho que teria sucesso.