A crônica é um gênero que se vai apreendendo aos poucos. O cronista estreante tem, em geral, uma ideia mais ou menos clássica de como deve ser feito o gênero, baseado em nomes como Fernando Sabino e Rubem Braga, e a tendência é que ele siga mais ou menos o mesmo estilo, ao qual apenas acrescenta a sua própria visão de mundo, situando-a em um contexto mais moderno que o dos antigos cronistas.
Entretanto, a crônica é uma manifestação personalíssima. Suas características incentivam a expressão pessoal do autor. Inicialmente, isso vale para o conteúdo. Com a obrigação periódica de escrever um texto, fatalmente o cronista privilegiará os temas que mais lhe tocam e lhe afetam diretamente. Conforme o escritor pratica o gênero, porém, ele vai moldando ao seu gosto também a forma da sua crônica.
Fabrício Corsaletti é um exemplo de cronista que começou escrevendo a crônica de um jeito e, com o tempo, sentiu-se mais à vontade para preencher o gênero com suas próprias preferências estéticas. Isso se percebe com mais nitidez no recém-lançado “Um milhão de ruas” (Editora 34, 2025), uma obra composta de seus três livros de crônicas, mas, curiosamente, indo do mais recente para o mais antigo.
Assim, o último livro a aparecer é “Ela me dá capim e eu zurro”, com o qual estreou no gênero. Nele, Fabrício ainda está próximo ao modelo tradicional de crônica, com textos mais cotidianos ou episódicos. Há muitas memórias da juventude (como as da república na Vila Mariana, as do escotismo ou de suas tias), e algumas outras bem íntimas, como a morte de sua gata (mas ele pede desculpa por ser pessoal).
Uma linha que, contudo, se prolongará ao longo dos livros do autor é a de atentar à cidade, seus personagens e seus lugares, como padarias, bares e mercados. Por vezes, faz algumas construções líricas à Paulo Mendes Campos, mas ainda sem os extremos dos livros seguintes. Até algumas crônicas à Veríssimo ele fez. Há uns momentos de metalinguagem divertidos, como o da parceria com Antonio Prata.
Nos dois livros seguintes, “Bar Mastroianni” (que é o único livro inédito na seleção de “Um milhão de ruas”) e “Perambule”, nota-se que Fabrício se tornou muito mais afeito a certas experimentações de linguagem. Aparentemente, ele já estava muito bem habituado ao “fazer cronístico” a ponto de inserir algumas marcas pessoais na estrutura de suas crônicas – e, com frequência, elas se aproximavam da poesia.
A poesia, afinal, é o outro gênero do qual Fabrício fez casa. Em alguns pontos, ela se toca com a crônica – não é à toa que se diz que a crônica representa a poesia do cotidiano. Há, inclusive, alguns críticos literários muito xaropes que entendem que a crônica só tem valor enquanto gênero literário quando se aproxima de gêneros como o poema em prosa. E as crônicas de Fabrício se aproximam desse gênero.
De fato, Fabrício recentemente tem feito crônicas que às vezes são um parágrafo só, compostos de frases que poderiam muito bem ser versos, tamanha a dimensão lírica que ele emprega no texto. Ainda há o inescapável vínculo com o cotidiano, só que agora o cronista nem sempre se sente inclinado a fazer um texto de duas ou três páginas: às vezes o parágrafo único já é suficiente para registrar uma cena.
Muitas vezes, Fabrício não faz apenas o poema em prosa, mas o poema em versos mesmo. Geralmente, entende-se a crônica como um estilo de texto, composto de um tom e um conteúdo definidos pela geração de ouro do gênero. Mas a crônica é, antes de tudo, um espaço a ser preenchido, atendendo às obrigações periódicas do veículo que primeiro a abriga. Os versos são uma forma de preencher o espaço.
Evidentemente, se o cronista apenas escrever versos e nenhuma outra forma de texto, talvez seja o caso de verificar se é um cronista de fato. Entretanto, o eventual uso de versos para compor o espaço da crônica tem sido usado historicamente no gênero desde os tempos do folhetim. Fabrício é um cronista que passou a se valer dessa estratégia com frequência, aproveitando o seu talento enquanto poeta.
Talvez fosse interessante fazer uma comparação entre o tipo de poesia que ele faz quando é assumidamente poeta e o que faz quando encarna o cronista. É provável que, na crônica, a poesia seja influenciada pelo “espírito” da crônica tradicional, com uma abordagem de assuntos mais cotidianos e uma visão que privilegia o que geralmente escapa ao olhar comum, agora com um lirismo bem mais acentuado.
Fato é que, nos livros mais recentes, Fabrício se sente livre para, muitas vezes, compor o seu texto de poucas frases, algumas ideias específicas, reflexões mais pontuais, ou mesmo pequenas epifanias, que podem aparecer em verso ou prosa. Com frequência, o que apresenta são recortes de cenas, parecidos com os que Luís Henrique Pellanda fez no último livro. É uma tendência interessante do gênero.
Fabrício também rompe com a ideia de que a crônica deve necessariamente fazer referência a eventos reais, como o jornalismo exige. Por vezes, suas crônicas estão bem próximas ao conto e, mesmo quando têm a “feitura” de uma crônica, há certo estranhamento que deixa sempre em dúvida se aquilo aconteceu ou não – pode ser que seja apenas um experimento do autor, valendo-se de uma vaga realidade.
Trata-se de um escritor que tem o mérito de complexificar as fronteiras do gênero (quando não o de as diluir abertamente). É verdade que isso pode afastar o leitor tradicional da crônica, cuja expectativa sobre o gênero é formada pelos cronistas clássicos. Alguns poemas seus podem ser “difíceis” a esse leitor. Nada se pode opor, porém, ao uso da crônica como forma de expressão da sua individualidade.
Mas do que fala Fabrício enquanto faz experimentações de linguagem? Nesses dois livros mais recentes, seu narrador é muitas vezes alguém que anda pelas ruas, por vezes em outros países, que entra em bares, que vai a churrascos e que pretende “viver” a cidade, de maneira geral. Os temas dessas crônicas se assemelham aos do primeiro livro, portanto, mas o estilo delas é mais particular, e talvez mais literário.
Fabrício também se inscreve entre os cultores do gênero, aqueles que não apenas o praticam eventualmente, mas o celebram, divulgam e defendem em toda parte. Seus livros evidenciam mudanças significativas no modo como ele próprio faz a crônica, certamente resultado da sua maior intimidade com ela. Parece ter achado a sua voz e a sua originalidade, o que muitos tentam por anos sem conseguir.