Chegará o momento em que compreenderemos que sabedoria é amar tudo. É saudar os dias sem esquecer a importância das horas; contemplar as grandes torrentes sem deixar de agradecer cada gota de orvalho; estimar o pão sem, no entanto, esquecer o sabor das migalhas. Chegará a ocasião de compreender que o importante não é só contar a viagem, mas testemunhar também o contributo dos passos; elogiar não só a meta, mas a lição de cada etapa, sobretudo quando chegámos a duvidar que o caminho conduzisse a alguma parte. Chegará o tempo em que nos reconheceremos saciados tanto pela frescura da fonte, como pela sede; iluminados pela experiência dos encontros, mas também pelo ensurdecedor vazio de certas esperas; maravilhados, de igual maneira, com o alforge repleto e as mãos sem nada.
JOSÉ TOLENTINO de MENDONÇA nasceu no Machico, a 15 de Dezembro de 1965. Licenciou-se em Teologia na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e em Estudos Bíblicos no Pontifício Instituto Bíblico (Roma) e Doutorado em Teologia Bíblica, pela Universidade Católica Portuguesa (2004), com a tese A construção de Jesus: uma leitura narrativa de Lc 7,36-50. Viveu e estudou em Roma, foi ordenado padre em 1990 e é, desde aí, capelão e professor na Universidade Católica de Lisboa. Além de poeta, é também ensaísta e tradutor. Foi condecorado, pela Presidência da República, com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, em 2001. José Tolentino de Mendonça, como muitos poetas da geração dos anos 80/90, retoma uma certa tradição lírica portuguesa. Lirismo todavia assaz particular, delicado, envolto em recato.
Terminei hoje este livro com a sensação rara de ter lido algo que me dizia respeito de forma íntima. Não apenas por conter uma dedicatória grafada pelo "nosso Cardeal" ou porque comecei a lê-lo em Roma, nem por ter sido concluído em viagem, mas porque fala de dois temas que me são estruturais, os caminhantes e o caminho.
Tolentino escreve como quem nos conduz pela mão, acompanhando sem nunca se impôr. O seu pensamento é filosófico, mas nunca hermético, é espiritual, mas nunca distante da experiência concreta. Cada página sugere que a vida não é um trajecto linear, é antes uma sucessão de passos imperfeitos, de desvios fecundos, de recomeços silenciosos. Caminhar é aceitar a incompletude e, ainda assim, avançar.
Há uma coerência profunda entre o título e o conteúdo. Para quem se reconhece caminhante, tudo pode tornar-se caminho, a fragilidade, a dúvida, a perda, a velhice, a esperança. A reflexão “fazer mais com menos” é exemplo disso, uma pedagogia da sobriedade e da resistência que contraria a lógica dominante da abundância e da pressa.
Este livro encontrou-me num momento e num lugar certos. Talvez porque, no fundo, fala daquilo que sempre me moveu, a convicção de que o sentido não está na chegada, mas no percurso. Fomos feitos um para o outro, o livro e eu, porque partilhamos a mesma intuição, caminhar, em todas as suas dimensões, é a forma mais humana de existir.
Este livro, desde a cidade eterna até a meio do Atlântico, é sem dúvida, uma maravilhosa companhia.
Um livro que sabe a abraço. Para ler, devagar, sublinhar e voltar a ler.
Um convite a viver com mais paciência e menos pressa. A saber esperar, abrandar, tentar e aceitar. Lembra-nos que a vida é um caminho por definir e que, para quem caminha, tudo pode ser caminho.
Alguns dos muitos excertos que sublinhei: “Tenta outra vez. Fracassa outra vez. Fracassa melhor.” — Samuel Beckett “Somos não apenas com os outros, mas somos, vamos sendo, a cada momento, outros.” “Esperar não é necessariamente uma perda de tempo.” “(…) que a pressa com que gerimos os dias não nos iluda quanto à necessidade da lentidão para nos abeirarmos do essencial.” “Aceitar que aquilo aonde chegamos é ainda uma versão provisória, inacabada, cheia de imperfeições.”
confesso que sempre que há um novo livro do José Tolentino Mendonça a minha vontade de comprá-lo é instantânea e instintiva. é o nome que mais ocupa a minha estante de livros e, por este andar, ninguém lhe vai tirar o lugar!
mesmo que os temas se vão repetindo ao longo dos livros, tenho a sensação que existe sempre uma nova abordagem por parte do autor e uma nova interpretação por parte do leitor.
estas foram algumas frases que acabei por deixar sublinhadas:
“o importante não é só contar a viagem, mas testemunhar também o contributo dos passos.”
“A santidade constrói-se como uma prática artesanal da vida: quando decidimos desacelerar e dar tempo, em vez de adiar; acolher, em vez de ignorar; abraçar, em vez de fugir; partilhar, em vez de atribuir a outros essa responsabilidade.“
“Que não guardemos a nossa alegria apenas para o que já conquistámos, como se o armazenado nos celeiros pudesse substituir o irresistível chamamento à sementeira por inventar nos campos. Que possamos abraçar a vida para lá do circuito das nossas rotinas.”
“As nuvens são os poemas da natureza.”
“Trazemos-Te os quotidianos que construímos, quer quando nos sentimos pacificados e em harmonia, quer quando padecemos com as pedras e as tensões de uma marcha que nos parece insatisfatória, desgastante e inglória."
Um livro para saborear lentamente, tão lentamente que até me custa dizer que o acabei, na verdade sei que hei de o revisitar muitas vezes. Tolentino de Mendonça é sempre uma lufada de ar fresco e de esperança neste mundo doido. Relembra a urgência da lentidão, do inesperado, da fragilidade, da incerteza do caminho, do sentido de comunidade e da alegria em todas as coisas!!!
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O último texto termina assim,
“A melhor herança que deixaremos uns aos outros é o amanhecer. Não são os feitos concretizados, mas o espaço em aberto que, porventura, o nosso contributo tornará, para alguém, mais nítido. (…)
Deveríamos parar mais vezes a contemplar a manhã como um poste de luz que reforça a nossa, como uma robustez que nos sonha, como uma mão estendida que nos defende. Deus está na manhã. Ela é misteriosa e ampla por isso. Exibe a sua bondade. Destapa o seu sorriso. Não admira que as coisas verdadeiramente importantes que recebemos dos outros sejam um amanhecer. E que as que podemos deixar também.”
Um livro maravilhoso que como todos os livros de Tolentino que já li, voltarei sempre. Livros que fazem parte dos meus dias.
“Temos de cultivar competências para integrar o inesperado encontro com o diverso; para amar a imperfeição que se esconde por toda a parte e com a qual só a custo nos reconciliamos; para acolher aquilo que à primeira vista é dissonante, mas cujo contributo à harmonia compreenderemos depois.”
Já há algum tempo tinha curiosidade de ler alguma obra do cardeal Tolentino, não só pelas maravilhas que outros autores consagrados associam à sua escrita, como pela urgência de alguns dos seus pensamentos para a consideração de um bem comum. E, após esta leitura, concluo que a universalidade da obra é clara.
Através de uma linguagem simples, intuitiva e inerentemente bela e compreensível, o autor desenvolve temas como a vida e a morte, a relação humana, a alma e a psique, a esperança e a espera, expetativas, inveja, humildade ou confiança de forma precisa, sábia e com uma extraordinária abertura à reflexão pessoal. É impossível que, à leitura deste livro, alguém não contemple que necessitava de beber da água de algum destes textos. Porque, como o próprio Tolentino refere, é importante que não fechemos o coração à infinita capacidade de mudança e alteração para um rumo melhor. E isso faz-se justamente através da nossa autoconsciência, possibilitada tão diretamente pelas reflexões deste trabalho.
Um manual para a vida extraordinário e ultimamente essencial!
"Para os caminhantes tudo é caminho" é uma obra semeada de pequenas mensagens que nos enchem a alma, numa linguagem exigente, rigorosa e criativa. Tolentino escolhe como leitores os crentes cristãos e os não-crentes, modulando os seus textos à medida da laicidade dos nossos dias. E assim propõe-nos a escolha da lentidão, do gozo do tempo, da reflexão antes da pressa, da partilha em vez da inveja ou do consumo. São mensagens contra a corrente não do que é publicado, mas do que é praticado. A urgência climática e a consciência da Terra, a procura de uma alternativa ao mundo do "ter" e "gozar", a consciência da nossa finitude e da morte são pedras lançadas às nossas janelas e que nós só não ouvimos se não quisermos. Depois há o lado cristão e litúrgico que Tolentino desdobra numa linguagem extremamente atraente de significados, mesmo para quem não acredita ou deixou de praticar. Os gestos de Jesus ao falar e fazer milagres acordam-nos para a generosidade e o milagre que a vida tem de ser. O Advento, o Natal, a Quaresma, a Páscoa, são explicadas de modo tão poderoso que ficamos a dar mais significado à espera dos pastores pelo recém-nascido, à nudez das igrejas na Sexta-Feira Santa, ao gesto de Deus ao pôr alguém a morrer por nós e ao mostrar esse não-distanciamento face às convulsões do mundo, à necessidade de nós também ressuscitarmos para os valores, mesmo que não acreditemos na ressurreição de Jesus. É extraordinária a simples ideia de substituir o Deus a quem rezamos para que nos dê as graças que desejamos por um Deus a quem ajudamos colaborando com ele (perante a sua fragilidade e derrota na cruz) na consecução de um mundo mais justo e de menos egoísmo. Dando mais e exigindo menos.