"— Não achas engraçado como tentam prender-nos à vida?
— Sim, sim. Já falámos muitas vezes sobre isto. Não querermos que nos mantenham vivos quando já não tivermos nada por que viver.”
Este livro é um embate emocional contínuo. Não pela violência explícita, mas pela forma como expõe a verdade nua da velhice: a perda gradual de autonomia, de voz, de espaço, de corpo e, por fim, de si mesmo. A narrativa de Bo, o protagonista, é feita de memórias partidas, pequenos fragmentos de lucidez e uma tentativa desesperada de agarrar o que ainda lhe resta — a sua história, a sua dignidade e o amor por aqueles que já não estão realmente com ele.
No centro de tudo está Fredrika, a esposa. Mesmo ausente, mesmo reduzida à “casca” que a demência deixou, ela é o coração intacto da narrativa. Bo escreve-lhe como quem respira. É para ela que fala, que pede conselhos, que desabafa. É nela que encontra ainda alguma ordem no caos que o cerca. Ele admite que já não vale a pena visitá-la no lar onde a colocaram, porque “ela já não está lá”, mas, paradoxalmente, é nela que vive — nas memórias, nos gestos, no cheiro guardado num frasco com o xaile, como se conseguir preservar um pedaço dela fosse a última forma de resistir à morte emocional.
A narrativa alterna entre o passado e o presente, sem cronologia fixa, espelhando a mente que vacila. Entre estas quebras, surgem pequenos relatórios dos cuidadores — quatro linhas secas, objetivas, profissionais — que nos lembram que o que estamos a ler não é fantasia: é deterioração, documentada por quem o observa de fora.
"Sábado, 10 de junho
O Bo já se levantou. Já comeu qualquer coisa, só quis um chá e uma sandes. Saí para ir buscar lenha e apanhar umas flores. O Bo está um bocadinho em baixo, diz que não quer ir a Brunkulla visitar a Fredrika. Tomou os medicamentos.
Ingrid"
O livro é profundamente humano porque reconhece uma verdade simples mas difícil: o tempo corre diferente para quem está a perder tudo. Bo reflete com uma pastora:
“É curioso, isto do tempo… Às vezes passa muito devagar e, de um dia para o outro, vinte anos passaram assim.
Quando éramos crianças simplesmente vivíamos.”
É uma conversa que podia ser banal, mas no contexto do livro transforma-se num exame à vida. Bo percebe que não viu os anos chegarem. Percebe que está no fim. Percebe que tudo o que amou — a mulher, o cão, os pais, o amigo Ture — está a desaparecer um a um, como se estivesse a esvaziar-se por dentro.
Desde o início do livro que existe uma ameaça: ser retirado o cão Sixten a Bo pelo filho, Hans. Se por um lado é um conforto e existe uma forte ligação emocional entre os dois, por outro existe falta de capacidade de tratar do companheiro.
"O Sixten geme. A minha mão entra-lhe pelos sonhos adentro e acaricia-lhe a cabeça cinzenta. Depois acorda e esperguiça-se. Dá um grande bocejo, abre os olhos, e os nossos olhares cruzam-se. Já não sei quando foi a última vez que o levei à rua, mas percebo que quer fazer chichi.
Com o Sixten no meu encalço, vou aos tropeções até ao vestíbulo. Ponho-lhe a coleira ao pescoço e endireito a medalhinha, com o seu nome"
A relação com o filho, Hans, é talvez o núcleo mais cru. Hans toma decisões “racionais”, mas ignoram o pai no processo. E Bo sente essa desconsideração como um abandono. “Como é que criámos um filho que me magoa tanto?”, pergunta ele, sincero, quase inocente. Há incompreensão, nostalgia, revolta e, no entanto, amor — sempre amor. Ele olha para o homem adulto à sua frente e questiona para a sua esposa ausente:
“Nada se compara a criar um ser humano. Ninguém nos avisou de que ia ser tão difícil.”
Esta honestidade é devastadora. Revela que, ao fim de décadas, Bo ainda tenta compreender a distância entre os dois. E essa distância aumenta no momento em que Hans toma uma decisão devastadora. Bo sente que o filho está a passar por cima dele como se ele já não fosse pessoa. E sintetiza isso num desabafo que é quase um grito:
“Toda a gente manda na minha vida, menos eu.”
É precisamente aqui que o livro mais dói e revela contorvérsia: no reconhecimento de que a autonomia pode ser retirada por boas intenções porém causando luto. É o fim da casa como lar. É o fim do quotidiano. É o fim do sentido.
O livro não nos poupa — mostra que o corpo decide primeiro, mas a alma demora a aceitar.
Bo começa a confundir sonhos com recordações, recordações com o presente. Procura o cão dentro de casa. Lembra-se da mãe e depois percebe que está a pensar na cuidadora. A fronteira entre memória e realidade esbate-se. E é nesses momentos que os relatórios clínicos dos cuidadores surgem quase como cortes cirúrgicos na narrativa — notas distantes, técnicas, curtas, que contrastam com o caos emocional interior.
Apesar disso, há uma transformação final. Bo, que vinha de uma família onde não se dizia “amo-te”, que cresceu no silêncio, que sofreu com a frieza do pai, que viu violência extrema com o cão da infância sem explicação, decide quebrar esse ciclo. No limite do corpo e da mente, antes de partir, consegue expressar amor ao filho. Mesmo magoado. Mesmo sentindo que lhe tiraram tudo. Mesmo com a autoridade invertida.
E é este ponto — esta pequena fresta de ternura — que dá ao livro a sua beleza: a humanidade sobrevive à deterioração. Mesmo quando o corpo falha. Mesmo quando a mente se perde. Mesmo quando já só restam cascas.
"Olho o meu reflexo no espelho com ar de desafio e tento não me preocupar em demasia. Antes nunca me acontecia isto, nunca pensava nem me preocupava com as coisas. Agora, a minha vida é toda ela frágil. De repente, sinto uma certa ternura pelo homem no espelho. Não é fácil ser humano."
O livro não é redentor. Não promete cura. Não alivia. Mas honra. Honra a fragilidade. Honra o amor silencioso. Honra a dor da inversão dos papéis — o pai cuidado pelo filho, a esposa presente mas ausente, o cão Sixten. Não esquece a solidão dos idosos que ainda sentem profundamente, a confusão, o medo, o apego, a memória.
E, acima de tudo, honra a luta final pela dignidade.
Um livro muito triste e belo. Triste porque diz a verdade. Belo porque não vira o rosto a essa verdade com uma escrita tocante.
"Um som semelhante ao de um trompete põe cobro aos meus pensamentos e duas aves majestosas sobrevoam-me. Os primeiros grous do ano. Paro e sigo-os com o olhar. Vejo como batem ritmicamente as suas asas fortes para se impulsionarem em frente. Prometo a mim mesmo que já me terei ido embora daqui antes de voltarem a voar para sul."