Escalar cansa é um livro de poemas que entrelaça referências da mitologia grega com experiências contemporâneas de afeto, dor, resistência e identidade, revelando uma narrativa lírica que engloba memória familiar e o peso da existência. A narrativa poética gira em torno dos sentimentos de Aquiles por Pátroclo, da morte de Pátroclo por Heitor e da morte de Heitor pelo próprio Aquiles. Nessa relação conturbada, o autor ressalta arquétipos universais atemporais, presentes em todas as é o afeto versus a guerra; e o amor versus a separação, a perda, o luto.
eu estou maravilhado com os símbolos que o Leonardo evoca nessa sucessão de poemas fragmentados e ressonantes com o que é viver a vida, seja ela em pastos tranquilos ou em pedras íngremes — em especial a existência queer no nosso planeta em ameaça de queda —, a poesia de Piana é o bater das asas de um pássaro, a pedra no fundo do lago, aquela pedra que solta da formação montanhosa e declina e o que mais pode ser; aquiles.
Acontece uma transição muito discreta e gradual entre os três livros publicados por Leonardo Piana até agora. Sempre afeito a certa observação poética da realidade, que se descola por um centímetro daquilo que é factual e material e observa o mundo, e sobretudo suas personagens -quase sempre jovens gays enlevados por um amor difícil e uma obsessão com as forças invisíveis que regem as coisas- com uma poesia leve, com cheiro de chuva e mato, era óbvio que um livro de poesia vindo dele fosse ter o mesmo cheiro. É mais ou menos isso que acontece mas, teoricamente liberto da obrigação da cronologia, os poemas de Escalar Cansa falam ainda de amores entre homens, entre familiares, da doe de estar no mundo sendo como se é, e da delícia inexplicável de amar. Dito isso, a citação inicial a Anne Carson me fez ler o livro numa chave excessivamente próxima da obra prima Autobiografia do Vermelho, de onde obviamente Piana pinça algum procedimento, alguma centelha, e também de referências mais próximas geograficamente, como o poema-ensaio de Marília Garcia, ou o poema-mapa de Ana Martins Marques. É difícil fugir desses nomes quando se experimenta com poesia hoje, e não é que Piana imite ou emule, mas estão lá as semelhanças para quem as conhece. Escalar Cansa falha talvez por ser um pouco espraiado demais, e por vezes ser a amiga too woke e tentar combater frontalmente as mazelas do mundo. Ele tinha armas para se esgueirar e se camuflar nessa briga e sair vencedor.