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Matilde

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«Demorou duas semanas a desabituar-se. Nas primeiras noites, quase não dormiu, arrastando-se pela casa como um farrapo, mais miserável do que um condenado. Lembrava-se de evitar a varanda, temendo olhar lá para baixo. Não falava com ninguém e desviava-se dos espelhos. Faltou três dias ao emprego, mas ultrapassou a privação. Ainda tinha o cartão com o contacto do psiquiatra em cima da cómoda quando compreendeu que estava grávida.»

184 pages, Paperback

First published January 15, 2026

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About the author

H.G. Cancela

11 books13 followers
Hélder Gomes Cancela (1967) é um escritor português. Venceu o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB pela obra As Pessoas do Drama em 2018.

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5 stars
20 (51%)
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12 (30%)
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4 (10%)
2 stars
2 (5%)
1 star
1 (2%)
Displaying 1 - 14 of 14 reviews
Profile Image for Monica Cabral.
259 reviews57 followers
February 13, 2026
"Mas a solidão era outra coisa. Esvaziava-lhe a boca e os olhos, esmagava-lhe o coração. Frequentemente, a caminho de casa, repetia para si as últimas palavras que alguém lhe tinha dirigido. Um colega de trabalho, o empregado da pastelaria, o homem que lhe segurara a porta quando ela ia a sair, como se tais palavras pudessem pô-la em ligação com o mundo que lhe escapava. Um mundo que a segregava e que ela observava do lado de fora sem poder aí aceder. Sentia os anos a esvaírem-se e temia esgotar-se em si mesma, seca e árida como uma cadela esterilizada. "

A protagonista deste novo romance de H. G. Cancela tem uma vida banal, casa-trabalho-casa. Ela própria é uma mulher banal, não é feia nem bonita, é simpática, dá-se bem com os colegas de trabalho e é independente. Por baixo desta capa de independência e aparente felicidade ela sente-se muito só e sem planos para o futuro mas tudo muda quando descobre que está grávida.
A partir deste dia a sua obsessão é que a gravidez corra o melhor possível para ter alguém a quem se dedicar de corpo e alma. Ao longo da narrativa vamos acompanhar o dia a dia desta gravidez e as dúvidas e receios desta mãe de primeira viagem.
Matilde, não é um livro fofinho sobre a maternidade ou sobre o amor por um filho, é uma história sufocante, tensa e uma dolorosa viagem ao lado mais negro da psique humana.
É uma montanha russa de emoções: angústia, pena, empatia e incredibilidade.
É um livro claustrofóbico e visceral como só H. G. Cancela sabe escrever.
Profile Image for Vera Sopa.
781 reviews74 followers
January 30, 2026
O início deste romance é intrigante e perturbador e… deixa em suspense. E depois nada e tudo se passa no quotidiano de Ana Maria que, se precipita para uma tragédia na sua profunda solidão. Os indícios deste desfecho prendem o leitor como num feitiço que acompanha agitado e na expectativa de se este vai confirmar e em que circunstâncias num misto de temor ou compaixão. Uma história magistralmente bem contada que é profundamente
Profile Image for Sandra Matias.
129 reviews24 followers
February 25, 2026
Que murro no estômago… Um livro que trata de um tema duro como a depressão e tudo o que ela trás… É um livro difícil de ler e que me fez ficar desconfortável, mas é esse o objetivo do autor de certeza, porque ninguém fica indiferente a um livro destes!
Profile Image for Vítor Leal Leal.
Author 1 book3 followers
February 27, 2026
«Encaminhou-se para o elevador como se soubesse, e sabia, que a solidão não era um estado, mas uma condição, um lugar mais firme e mais fundo, o único no qual os pés encontravam chão. Cedia, mas era chão.»

Há romances que se fecham na narrativa. ‘Matilde’, de H. G. Cancela, fecha-se numa ideia. Ou talvez numa constatação ontológica. A solidão não surge como acidente emocional nem como consequência circunstancial da vida. Surge como território. Como fundação.

Ao terminar a leitura, uma palavra insistia em regressar. Invulnerabilidade.

As sociedades urbanas modernas construíram uma rede tão eficaz de suporte à existência que um indivíduo pode viver funcionalmente sem depender afectivamente de ninguém. Come-se, trabalha-se, desloca-se, paga-se contas, ocupa-se o tempo. Tudo funciona. Nada falta no plano material, desde que haja dinheiro. Não é preciso ser rico nem pobre, apenas ter o suficiente para uma suposta autonomia. O afecto deixou de ser necessidade para se tornar possibilidade. É nesse intervalo que o romance se instala.

A protagonista não é apresentada como vítima de um acontecimento extraordinário. A sua condição é banal, reconhecível, quase administrativa. Não possui rede familiar activa, não mantém relações amorosas duradouras, não cultiva amizades profundas. À sua volta existem colegas, vizinhos, presenças ocasionais que coexistem sem verdadeiro encontro. O gesto mais inquietante não reside apenas na ausência de vínculos. Surge no movimento duplo que o livro revela com precisão clínica. Ela não procura ninguém, mas também ninguém a procura.

Não há hostilidade aberta nem exclusão evidente. Apenas trajectórias paralelas. Cada um absorvido na própria sobrevivência quotidiana. O mundo actual permite, e talvez incentive, esta convivência sem ligação, onde olhar verdadeiramente para o outro deixou de ser necessidade colectiva. Aquilo que poderia parecer fragilidade individual revela-se antes um sinal do tempo.

Nada disto soa estranho ao leitor. Pelo contrário, é perturbadoramente familiar.

Ao acompanhar a personagem, começamos a formular as mesmas justificações que organizam a sua vida. Evitar encontros desgastantes. Desconfiar da intimidade fácil. Preservar o espaço pessoal. Preferir estar só a partilhar presença sem sentido. A certa altura, a pergunta deixa de ser sobre ela e passa a ser sobre nós. Onde termina a lucidez e começa o afastamento patológico? Em que momento a autoprotecção se transforma em clausura?

É aqui que ‘Matilde’ se torna profundamente inquietante. Não pela excepcionalidade dos acontecimentos, mas pela sua verosimilhança emocional. O romance não empurra o leitor para o delírio. Convida-o a aproximar-se lentamente dele, sem perceber exactamente quando a fronteira foi atravessada.

A escrita acompanha esse movimento. A linguagem é económica, quase mecânica, composta por frases curtas, repetidas, depuradas até ao essencial, sujeito e complemento. O autor parece colocá-la ao serviço da narrativa mais do que usá-la como afirmação estilística. Essa escolha revela-se coerente com o universo do romance e, de certa forma, ética. A escrita recusa ornamentar aquilo que é vivido como funcional, repetitivo, quase automático. As anáforas criam um ritmo de rotina e compulsão, como se a própria frase obedecesse à vida que descreve. A forma não comenta o afastamento humano. Habita-o.

O romance constata uma solidão fundamental. A protagonista revela-a em cada acção. O afecto, que poderia ser a única forma de mitigá-la, não existe ou surge idealizado. A clausura existencial instala-se. A independência funcional confunde-se com liberdade e o isolamento descamba em patologia e delírio. Parece-me o diagnóstico do livro. A invulnerabilidade torna-se, portanto, um modelo de vida. O preço dessa escolha é uma existência aparentemente segura, organizada, mas progressivamente desumanizada.

A frase final permanece depois do livro fechado. A solidão como chão. Como lugar firme. Como fundação. Não discordo, é condição. Mas o autor desloca-nos a consciência para uma pergunta silenciosa: Se já não precisamos uns dos outros para viver, o que restará de humano quando deixarmos de nos procurar?

Foi o primeiro livro que li de H. G. Cancela. Suspeito que não será o último. Há ficções que inventam mundos. Outras limitam-se a mostrar o nosso com uma nitidez desconcertante. ‘Matilde’ pertence claramente à segunda categoria.
Profile Image for Dora Silva.
258 reviews92 followers
February 22, 2026
🔍 Encontrado um dos livros 5⭐️ de 2026!
Vou contar tudo no Livros à Lareira com Chá no YouTube.

✒️ " ..acordava a ouvir a chave a rodar na fechadura, os passos no corredor, e via que a porta do quarto se abria no escuro. Lembrava-se do pânico de como acendia a luz e fixava a porta. Nunca havia ninguém, mas não deixava de se sentir em perigo. A sua inquietação era profunda ".

🥺 Terminei o livro Matilde e confesso que foi muito difícil processar tudo.

A escrita de H.G.Cancela é muito intensa, neste caso foi uma escrita muito sensível, crua e ao mesmo tempo poética, algo que permite logo ficar agarrado à história, e é quase impossível largar até ao último parágrafo.
Vamos conhecer a história de Matilde,uma história muito angustiante e claustrofóbica, uma mulher que fica grávida e que apesar de toda a vida simples e comum,tem em si algo que nos deixa muito incomodados.

📄 A sua história é tão sensorial que é muito fácil sermos invadidos pelos pensamentos, os sentimentos e até mesmo os medos da nossa protagonista, uma mulher inexperiente durante uma gravidez inesperada.

Todo o livro é uma história muito densa e é inevitável não apreciar a loucura que toda a história nos expõe.
Esta obra é um exercício onde nos deparamos com momentos simples mas que rapidamente ficam fora de controlo.
Éum relato intimista e muito profundo sobre solidão, instabilidade e busca de sentido,.

😕MATILDE fica connosco mesmo depois de fecharmos a última página,os seus comportamentos mexem muito com o leitor, e por isso este é daqueles livros difíceis de se falar e que não devemos dizer muito para não estragar a leitura de outros possíveis leitores.

Recomendo mesmo muito a leitura, mas não esperem uma obra fofinha,cute ou uma vida perfeita e cheia de floreados porque o livro tem um nome fofo e uma capa linda e muito atrativa mas guarda uma história carregada de temas duros.

Este livro dói, é daqueles que pertuba e não se esquece de todo.
👀
Profile Image for Anne.
35 reviews
February 17, 2026
Matilde, de H.G. Cancela, é uma obra que não se lê de forma leve ou indiferente. Não é uma narrativa que nos acolhe. É antes uma espiral em que o leitor entra e permanece, sem ter onde se agarrar.
À primeira vista, e como o próprio narrador parece sugerir, poder-se-ia dizer que estamos perante um romance sobre a solidão. No entanto, para mim, o livro foi sobretudo um ensaio sobre a loucura e o alheamento da realidade. O que me inquietou foi o caráter silencioso e solitário da espiral de loucura de Ana Maria, personagem principal e única deste romance.
Os pensamentos de Ana Maria são tão obsessivos que acabam por envolver o leitor num crescendo de loucura para o qual não se avizinha qualquer tipo de redenção.
Os longos parágrafos, a ausência de capítulos e a concentração numa única personagem sem relações humanas significativas reforçam o sentimento de clausura e intensificam a necessidade de fuga da mente da personagem, ou a necessidade de continuar a ler do leitor.
A ausência de diálogos, ou de outras perspetivas, intensifica a sensação de isolamento.  O leitor está preso a uma única voz e a um único olhar sobre as situações descritas.
Foi, para mim, uma leitura desconfortável, que me fez sentir o peso, o vazio, o desencaixe da personagem.
Matilde não é um romance para todos os momentos, nem para todos os leitores. É um livro que não pretende agradar, mas antes inquietar e desafiar.
Profile Image for Monica Mil-Homens.
577 reviews31 followers
March 4, 2026
Um verdadeiro murro no estômago. Estreia com este autor.
Demorei a escrever esta opinião e mesmo assim não estou segura de que consigo passar para vós o que este livro me fez sentir.
Era apenas uma boneca. É assim que começa, é assim que o autor nos guia, que era apenas uma boneca. U m a b o n e c a.

Li, fui lendo. Sem capítulos distintos somos impelidos a ler sem paragens. Faz sentido, torna tudo mais frio, mais cru, mais frenético. Tive que parar mais ao menos a metade porque sentia falta de ar, fisicamente sentia aflição. Também eu com doença mental e dependente química, como leitora, tive que respirar fundo.
Recomecei, e a protagonista continua a ser uma mulher profundamente perturbada, profundamente alheada da realidade. Uma casa a arder, um comboio desgovernado. Honestamente acho que ainda não tinha lido uma personagem tão bem caracterizada e construída que me fizesse sentir tanta angustia e ansiedade. A escrita do autor é quase como um mar revolto em dia de tempestade apenas a aguardar o pescador distraído para o tomar como seu.

Curioso que enquanto lia “Matilde”, uma vizinha teve um surto psicótico e pegou fogo a tudo em casa. Um horror para os familiares que tiveram que solicitar a ajuda das autoridades para que a mesma não cometesse suicídio. Ver espelhada a dor na cara dessa mesma vizinha, transtornada por não saber como o fez e porque o fez. Diz-se que deixou de tomar a medicação. Lembrei-me de "Matilde. Retornei ao livro nesse mesmo dia.

A chegada ao final do livro não me sossegou. Não há como sossegar. Fico entre a compreensão e o devaneio, entre o que entendi e o que deveria ter entendido. É duro, é selvagem, é bruto e desumano. Não é um livro para todos, mas é sem dúvida um dos melhores que tive a oportunidade de ler nos últimos tempos. Aceito recomendações de mais livros do autor que nos transmitam este tipo de sensações. Fiquei fã.
@bibliotecamil_insta
Profile Image for Joana Baptista.
48 reviews
Read
April 18, 2026
Acabei Matilde e não fiquei bem.
Fiquei com o corpo pesado, com um nó no peito e lágrimas que nem sei bem de onde vieram.
Talvez seja por ter uma bebé. Talvez seja por não conseguir sequer imaginar deixá-la chorar mais de um minuto, quanto mais virar costas. E ainda assim, este livro obrigou-me a olhar para esse abismo.
Isto não é uma história confortável. Não é suposto ser.
É sobre o que acontece quando a mente falha, quando a solidão cresce demais, quando a realidade se distorce ao ponto de já não reconhecermos o que somos.
E isso assustou-me.
Não pela personagem.
Mas pela possibilidade.
Este livro não me tocou — quebrou-me.
Enquanto mãe.
Enquanto mulher.
Profile Image for Carla Gonçalves.
69 reviews7 followers
March 12, 2026
Li “Matilde” e fiquei completamente absorvida pela mente da protagonista. Senti de perto a sua solidão, fragilidade emocional e a necessidade constante de ser validada. À medida que a narrativa avançava, percebi como a sua perceção da realidade se ia distorcendo, mostrando de forma intensa como a saúde mental pode ser desafiadora e afetar cada pensamento e cada decisão. O autor constrói uma personagem contraditória, mas humana/real dominada por medos, obsessões e pensamentos paranoicos. A escrita é direta, crua e realista, e permitiu-me sentir toda a intensidade e desconforto da sua mente.
O facto de o livro surgir como um fluxo contínuo, sem capítulos, fez-me sentir ainda mais a dureza da história, senti-me em apneia, tive de parar várias vezes para respirar e processar tudo. Mas, amei, amei este livro. Recomendo-o muito, contudo acredito que deve ser lido no momento certo, porque a sua temática pode despertar alguns gatilhos.
Profile Image for Catarina Varges.
6 reviews1 follower
February 5, 2026
A angústia que me acompanhou ao ler este livro, fez-me revoltar com a Ana Maria, mas também sentir uma dor profunda por aquela solidão tão profunda e tão louca.
O livro prendeu-me do início ao fim e terminei com uma intensa dor interna e a pensar em como tudo começa de forma simples e termina tragicamente.
Profile Image for Eunice Tavares.
64 reviews1 follower
February 20, 2026
Um livro perturbador e magnífico. Fica entranhado na nossa mente e dificilmente o esquecerei.
Profile Image for Belisa Nogueira.
106 reviews9 followers
February 22, 2026
4,5⭐

Achei uma leitura intensa e claustrofóbica. Acompanhamos uma só personagem durante a transformação vertiginosa da sua solidão em desespero/paranóia/loucura.

"Mas a solidão era outra coisa. Esvaziava-lhe a boca e os olhos, esmagava-lhe o coração."
Profile Image for Sónia Carvalho.
208 reviews17 followers
March 21, 2026
"Matilde" de H. G. Cancela, é um romance duro e algo inquietante que nos faz mergulhar nos territórios mais frágeis da mente humana. O autor aprofunda uma escrita marcada pela densidade psicológica e pela exploração do sofrimento interior.

A protagonista, Ana Maria, é uma mulher isolada, sem rede familiar ou afectiva que a sustente. A endometriose, doença que ameaça a sua possibilidade de maternidade, quebra-lhe o corpo, mas também o espírito, abrindo as portas a uma solidão destrutiva. A baixa auto-estima instala-se e leva a compulsões alimentares (como tentativa de preenchimento emocional) e a um ciclo vicioso de doença mental e auto-destruição. A paranoia instala-se gradualmente, distorcendo a percepção da realidade e levantando à dúvida central do romance: será Matilde uma presença real ou uma projecção da mente fragilizada de Ana Maria?

"Matilde" é um romance sobre o vazio e sobre o modo como a ausência de amor e reconhecimento pode levar à fragmentação do eu. Uma leitura intensa e algo perturbadora, que teria sido mais impactante para mim se a primeira página do livro, estivesse no final.
Displaying 1 - 14 of 14 reviews