Mustafá Suleyman - A Próxima Vaga
Neste seu livro, Mustafá Suleyman, cofundador da DeepMind, a criadora do DQN (Deep Q-Network), o primeiro algoritmo de redes neuronais profundas, alerta-nos para a intromissão de novas tecnologias no nosso modo de vida e para as repercussões que as novas tecnologias vão ter no nosso modo de vida e na nossa realidade política e social. Até aqui nada de novo. Vários são os “áuspices” que nos têm alertado para uma potencial emergência e autores como Yuval Noah Harari e Daniel Susskind contam-se entre os que se têm dedicado a estes alertas. Noutras plataformas muitos filmes e séries como a britânica Black Mirror são suficientemente explicitas sobre os riscos que poderão estar envolvidos.
A novidade contida no livro de M Sulyman é que o autor não se limita a ver a IA de forma isolada, mas perspetiva-a numa interação entre o “universo IA” e outras áreas da ciência e da tecnologia. Para o autor é errado pensar isoladamente nos riscos da IA como inovação isolada, mas antes num conjunto de inovações articuladas e potenciadas entre si, um conjunto de forças disruptivas que como uma vaga (daí a ideia do título) vai varrer com um tsunami toda a sociedade desde os seus aspectos básicos e as tecnologias de que nos servimos no dia-a-dia a outros mais complexos como a forma como organizamos o mundo do trabalho, a sociedade, mas também as nações e a humanidade se articular e coabitar. Mustafá Suleyman em “A Próxima Vaga” alerta-nos para o que temos à porta. Será que podemos resistir, será que temos controlo? Estas são as perguntas que o autor faz e para as quais não há certeza de se ter direito de resposta.
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O conteúdo
Para o autor, a IA não é algo que possa ser descrito com a simplicidade de uma ferramenta. A IA é efectivamente uma ferramenta, mas uma com particularidades com as quais nunca nos tínhamos confrontado. Ela permite-nos actuar em variados e múltiplos domínios, e o resultado dessa acção vai rapidamente resultar numa alimentação retroativa de potenciação das suas próprias capacidades, ou criando novas áreas e caminhos de desenvolvimento tecnológico e por essa via indirecta influenciar as capacidades da ferramenta inicial (a IA) criando as condições para um novo ciclo de crescimento, uma nova onda, uma nova vaga, uma transformação só comparável à que imaginamos com um tsunami. E se o potencial de transformação positiva, ou de destruição é grande e provavelmente imparável tal como aconteceu noutros momentos da nossa história – revolução agrícola e industrial, esta de agora vai primar pela rapidez (é só pensar nos avanços tecnológicos dos últimos anos e nas transformações a que assistimos na nossa sociedade). Vamos observar avanços importantes no mundo da tecnologia, robotização, IA, nanotecnologia, biotecnologia, manipulação genética, da “simbiose” entre biologia e nanotecnologia e da informação, tudo avanços que ocorrerão em cada uma destas áreas, mas cujo desempenho resultado final ficará muito para além do somatório das partes. Porém, os avanços que este mundo nos trará podem ser imensos mas os riscos não podem ser menosprezados.
Os perigos
Numa fase inicial tudo vai parecer óptimo. As oportunidades de negócio vão florescer, vão surgir “start-ups” “unicórnios”, potentados económicos como a Open AI. No inicio tudo vai parecer que tudo resulta na criação de múltiplas oportunidades de negócio e de trabalho. Vai ser difícil encontrar quem esteja disponível para trabalhos pesados, incómodos ou mais deprimentes. Esta falta de mão de obra vai forçar as empresas a encontrar soluções alternativas no mundo da robotização e automação. Ao contrario do que supúnhamos, pelo menos no momento actual, não vai ser a pressão dos mercados a induzir a automação. Esta vai resultar da escassez da mão de obra. Já hoje assistimos a isto. Porém, com a explosão do sector da automação esta vai tornar-se uma opção e a pressão sobre o trabalho humano e a sua valorização vai começar a manifestar-se.
O que não sabemos nem temos como saber é qual vai ser a evolução do mercado de trabalho; qual a resposta do mercado de trabalho às transformações tecnológicas que por aí vêm. A introdução das novas tecnologias vai aumentar a produção, e com muito menos intervenção humana. Mas serão bens que se destinam a quem?
A revolução industrial iniciada em 1760 com a invenção da máquina a vapor por James Watt e o tear mecânico por Edmund Cartwright em 1784 marcaram um período que modificou radicalmente o modo e a qualidade de vida dos de então. Teve evidentemente consequências nefastas para alguns, provocou movimentos de resistência como os encabeçados por Ned Ludd, poderá ter contribuído para a insatisfação contida na revolução francesa, poderá ter tido todas estas consequências mas o seu saldo é positivo. Porém é abusivo transpor este optimismo de então para os dias de hoje. A revolução de finais do seculo XVIII início de XIX ao contrário da actual foi muito mais lenta na sua implementação que ocorreu ao longo de 150 anos, para além de ter atingido apenas 5% de uma população mundial de 1,25 MM de seres humanos. A vaga que por aí vem não será seguramente assim. Será muito mais rápida, e atingirá um planeta com já mais de 8MM de habitantes. E a pergunta que deveremos fazer, independentemente da sociedade e do mercado do trabalho se conseguir adaptar é se estas novas tecnologias e o crescimento nelas contida é suportável por um planeta já exaurido? Essa é a pergunta que deveremos fazer, será que podemos continuar a crescer? Quais as consequências desse crescimento para Gaia, a casa comum, o planeta vivo?
Estas novas tecnologias podem elas ser benéficas para o ambiente, para alterações climáticas, para redução de CO2 e para um melhor controlo dos recursos, mas será que o planeta aguente esta fuga para a frente? Ou será que os “astrotopistas” de Mary-Jane Rubenstein têm razão na sua visão futurista?
Mesmo que estas promessas se concretizem e as ameaças que lhes antevemos não passem de infundados receios, não tenhamos duvidadas que esta tecnologia tem também um lado negro que vai de crises sociais, a um maior fosso entre ricos e pobres, ao aumento da desinformação e crises sociais, á perturbação da segurança de pessoas e povos, às ameaças da biotecnologia, a novos riscos biológicos artificialmente criados e a guerras à la carte entre muitos outros.
O homem revê-se no mito de mito de Prometeu e ao tentar controlar as forças da natureza acaba como vítima das sua próprias ações. Neste metabolismo da natureza pela civilização que começou pelo controlo do fogo e da energia, com esta nova vaga passamos para um outro patamar que ninguém com segurança poderá prever onde nos pode levar.
A armadilha da aversão ao pessimismo.
Esta é uma expressão criada por Mustafá Suleyman para enquadrar a dificuldade das pessoas individualmente ou coletivamente como sociedade acordarem para a realidade e quanto mais não seja, preocuparem-se com os riscos que se avizinham. O autor conta um episódio ocorrido em algures na década passada onde alertava uma plateia para os riscos que poderiam estar escondidos nesta revolução. Ninguém pareceu incomodar-se e o autor não o refere, mas eu sei o que sentiu. Outros exemplos podem ser assinalados. Por exemplo, quem assistir a uma conferencia de Yuval Harari, sempre mais focadas nas consequências sobre o mundo da informação, vai ficar assustado com o que ali é dito. Porém se olhar bem para a assistência vai perceber que aquelas pessoas que o aplaudem pela sua eloquência e na vã vaidade de participar num evento de eleição, quando saírem da sala não vão “perder” um minuto que seja a preocuparem-se com as consequências do que ali é dito.
É porque a aversão ao pessimismo é a posição maioritária na nossa sociedade, no que respeita à novas tecnologias mas também para outros riscos bem mais consolidados como o das alterações climáticas, o da perda da biodiversidade e o da agonia de Gaia, que percebo e não consigo condenar a acção de grupos que sem terem como se fazer ouvir usam expressões mais ou menos violentas como o “Extinction Rebellion” para “acordar” os zombies do consumismo e crescimento.
E este aspecto pareceu-me o mais deprimente do livro. O autor identifica bem os riscos, identifica bem os conhecidos como os potencias, ainda que alguns eu os situaria no âmbito da ficção, mas seja como for, as soluções que elabora para os riscos presentes parecem-me pífias ao ponto de perceber que nem o autor tem a mínima ideia do que deve ser feito. Insistir em palavras ocas como autocontrolo, auditorias de segurança, regulação e entidades reguladoras, é mais do que já temos e que a ver de pouco serviram - o autor dá como exemplo o controlo da energia nuclear e da proliferação de armas nucleares durante a guerra fria. Porém basta ver em ponto o mundo se encontra em 2024 quanto a este risco para perceber que a fuga para frente nunca tem retrocesso. Dito isto, mais valia ter assumido a próxima vaga como um risco desconhecido e eventualmente imparavel.