Para a teologia mística tradicional, existem três tipos de intervenção demoníaca, ou preternatural, na alma do homem: a tentação, a obsessão e a posessão. Muito embora a terceira fase, mais espetaculosa, possa ocorrer em pessoas moralmente corretas, de certa forma "ex nihil", entre a tentação e a obsessão há uma clara hierarquia demoníaca, sem solução de continuidade.
Angústia, o romance mais ambicioso de Graciliano Ramos, é uma fenomenologia de como a tentação, quando não se procura vencer, quando o sujeito se fechou para a transcendência, passa à obsessão. É, na minha particularíssima opinião, um dos poucos romances brasileiros que contribui de modo universal para a compreensão da alma humana e de seus mecanismos.
Narrado em primeira pessoa, aparentemente nos conta eventos do passado, mas logo esse esboço de memorial é abandonado, e as amarras estilísticas de uma narrativa de lembrança são afrouxadas em favor duma concentração no fluxo de pensamentos do personagem principal e narrador, Luís da Silva.
Ficamos sabendo que Luís da Silva é da terceira geração de uma família de senhores de terra em decadência após a abolição da escravatura. Foi uma criança estranha, que brincava sozinha, funcionalmente aleijada por uma queda de cavalo, e que ouvia vozes vindas das paredes nos momentos de silêncio. Sinal duma perturbação inicial é a forma como trata seu avô e seu pai: o avô, que ainda guardava veleidades de importância em sua decrepitude, é tratado pelo nome completo: Trajano Pereira Aquino Cavalcante e Silva. O pai, um folgazão metido em leituras quixotescas, já é menos importante: Camilo da Silva. O narrador se lembra a si mesmo como o Seu Luisinho saído da boca do Seu Ivo, um mendigo que lhe vem importunar por vezes. Enfim, sente-se como o fim duma linhagem, a concentração de uma queda vertiginosa de poder.
Após passar fome e vagar pelo mundo, usou de suas letras e de uma boa dose de servilismo para ganhar seu pão, no que marcou de vez sua oposição ao mundo da infância, o mundo que vemos em outro romance de Graciliano, São Bernardo. Luís é Paulo Honório e Madalena e Padilha juntos, e ainda todos os personagens trágicos do movimento nordestino. Fruto de uma mixórdia de raças e culturas, influências desencontradas, de músculos flácidos, contrários aos duros tóraxes de seus antepassados, está metafisicamente perdido no mundo.
Luís embate-se com um problema mudo, ou não expresso no livro: ele é o último de sua linhagem, decaiu mais do que seus antepassados, e agora, com 35 anos, arrisca-se a morrer solteiro, sem filhos, encerrando aquele tronco que com seu avô Trajano era vigoroso. Sem jeito que é para com mulheres, falta-lhe a leve arrogância necessária para conquistá-las. Afora Marina, de que já tratarei, ele apenas contou com o serviço de prostitutas caridosas e maternais, nunca conquistou nenhuma mulher, vencendo-lhe as naturais barreiras da pudidícia. No entanto, em episódios claramente szondianos, os personagens de seu passado vão-lhe enchendo a cabeça, num cortejo por vezes medonho, embaralhando-lhe a percepção da realidade, impelindo-o não só a procriar com Marina, como a repetir seus feitos, seus erros e acertos. Mas seus braços são fracos, seus dedos escuros, seu fôlego falta, e se instala uma crise de auto-imagem pavorosa.
Uma breve busca em compêndios de crítica literária mostra que sobre o advento de Marina, seu enrabichamento por Julião Tavares e o assassinato cometido no fim muitas linhas foram escritas, competentes e às vezes magistrais linhas, as quais não repetirei. Mais importante que os acontecimentos externos, para mim, tanto na primeira leitura, feita em 2011, quanto nesta releitura, são aqueles de ordem psicológica, e a linguagem empregada para descrevê-los.
A epítome didática dessa linguagem está nas últimas páginas do romance, um longo, imenso parágrafo, onde fantasmas, alucinações e realidade se entremesclam no melhor estilo “Jacob’s Ladder”, atingindo até mesmo o gênero de horror psicológico que falta aos outros romances de Graciliano (mas que curiosamente encontra paralelo numa passagem de terrores noturnos do pequeno Graciliano no autobiográfico "Infância"). Mas essa confusão também se vê em estágios anteriores da narrativa, quando o personagem, tentando calar sua brutalidade, acaba cedendo às tentações e abrindo a porta para a obsessão.
Vêm bem a calhar a estas linhas, e não acredito de forma alguma que esse “calhamento” seja obra do acaso, que o professor Olavo de Carvalho tenha dado recentemente a aula sobre estase imaginativa. Pois é disso que, no campo intelectual, trata o livro. Luís da Silva admite mesmo que só lia porcaria, romances inúteis, não tinha acesso à grande literatura, que no fundo o intimidava. Entre isto e a frivolidade de Marina, bem como o balão de gás de Julião Tavares, há em verdade pouca distância.
A falta de imaginação de Luís gera, nesse plano intelectual, um campo fértil para suas obsessões. O retorno sempre e sempre das mesmas figuras, o apego inarredável a histórias e passagens de sua vida, mostra a que estágio um homem privado de alimentação, descanso e condições mínimas de dignidade física e mental, em grande parte por sua própria culpa, pode chegar.
O processo de civilizamento da alma de Luís é incompleto e imperfeito. O ambiente depressivo em que se meteu o domina e simboliza todo o horizonte de consciência atingido pela vida citadina. Desespero e angústia o espreitam a cada novo acontecimento. Mesmo seus bons momentos com Marina são objeto de crítica e acidez, o personagem não se pode permitir a felicidade.
Apesar disso, ainda é capaz de sentir culpa, de se inquietar eloquentemente, ao contrário de outro personagem de Graciliano, Paulo Honório. Como não se lembrar das famosas linhas:
“nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que deram lucro. E como sempre tive a intenção de possuir as terras de S. Bernardo, considerei legítimas as ações que me levaram a obtê-las”.
Talvez faltasse a Luís essa visão clara do que faz e de seus objetivos. Ao contrário, ele devaneia, e chega a crer em absurdos, como, por exemplo, que aparecer no teatro, supreendendo Marina e Julião Tavares, ia trazer a pequena para seus braços. E depois que os dois se separam, ele só sabe a chamar de puta, não a acolhe nem considera a possibilidade de perdoá-la, perdendo a oportunidade de se reconciliar com a garota.
Para mim, Angústia lembra por demais o grande romance “Crime e Castigo”. Todavia, o romance russo começa com o personagem já obcecado pela idéia do crime, e se ocupa dum processo análogo ao que, em Angústia, vamos ver apenas no final. Mas a analogia entre um e outro não se finda na semelhança do tema e da abordagem, e na diferença do momento encompassado pela narrativa.
Se todas as críticas e livros inteiros sobre o grande livro de Dostoievsky fossem perdidos, ficaria uma impressão unânime: a profunda perturbação, arrependimento e promessa de redenção de Raskolnikoff. A este luxo de complexidade, não entrega Graciliano o seu Luís da Silva.
E o livro começa onde termina, como um círculo, um eterno retorno nietzscheano: ao personagem não é dado recuperar-se, fica preso para sempre em suas misérias. Carpeaux comentou que Graciliano tem grande compaixão pelos seus personagens. Talvez a grande compaixão de um gênio ateu se limite mesmo a livrar o criminoso do doloroso processo de expiação, para o qual não vê qualquer transcendência, ou reconhece alguma salvação.