Stephen March - A Próxima Guerra Civil
Comecei a leitura de “A Próxima Guerra Civil” de Stephen Marche com o maior interesse e expectativas. Já há alguns anos tinha lido a novela distópica de Cormac McCarthy, “A Estrada”, leitura que na altura me tinha deixado intrigado. Todo o enredo se passa, tal como o nome indica, ao longo de uma estrada. É uma viagem com uma origem enigmática e um destino ainda mais incerto. Tudo se passa num cenário pós apocalítico, em que o pós é descrito mas em que o leitor fica eternamente suspenso sobre as causas da catástrofe, o por que perdeu a sociedade toda a malha civilizacional tal como a conhecemos. A paisagem descrita como “negra” remete-nos para a devastação de um inverno vulcânico?; nuclear?; impacto de um asteroide?, verdadeiramente não temos como saber, mas também não é importante, o que se releva desse livro são as dificuldades desse mundo.
Mais recentemente li de Don Delillo "O Silêncio", uma novela publicada em 2020 e que aborda a forma como uma comunidade restrita, num apartamento de NY lidam com um evento cuja origem desconhecem mas que resultou numa súbita desativação de toda a tecnologia em que a vida moderna se fundamenta.
De comum este dois livros é a fragilidade da nossa organização civilizacional. Uma organização complexa, mas que por ser complexa lhe retira resiliência e a expõe susceptibilidades capazes de levar ao seu colapso.
Mais recentemente, há poucos dias, vi o filme de Alex Garland, Guerra Civil de 2024, já agora com uma representação impressionante de Wagner Moura, uma história em que se mostra o caminho de uma sociedade, a dos EUA, em ruptura rumo à sua destruição. Saí da sala de cinema e fui procurar “A próxima Guerra Civil” de Stephen Marche.
Como é bom de ver as expectativas eram altas, e não foram defraudadas. Contudo o livro aponta, intencionalmente, suponho eu, para a eventualidade de uma guerra civil, quando na realidade apenas dois cenários têm esse desfecho como possível. Dito isto, parece-me mais adequado tê-lo como um livro sobre a desconstrução dos Estados Unidos e sobre o estado e futuro dessa “desunião”.
O livro assenta em cinco cenários e em quatro deles o autor ficciona uma história que nos transporta para o objectivo disruptivo a que se propôs. Contudo, e enquanto elabora essa história ficcionada vai-nos dando elementos e dados que nos transportam para uma realidade que por não ficcionada coloca a história bem para além de credível. Para muitos destes cenários a realidade já ultrapassou de tal forma a ficção que só por acaso ou por bondade teleológica as realidade ainda não se assumiu como catastrófica. Vivemos, melhor, vivem em particular os americanos, num mundo complexo cujas saídas não podemos eleger uma e tomá-la como garantida.
No primeiro cenário o autor transporta-nos para uma ponte, uma das muitas que a crónica ausência de manutenção coloca em perigo, e que por risco de colapso é interditada ao transito. De imediato as forças locais e antigovernamentais fazem-se ouvir e “bandos” de contestatários da mais variada proveniência juntam-se em torno de um “Sheriff” que simboliza a contestação, um movimento de nós contra os outros, de republicanos versus democratas, um resultado de um sistema político bipartidário, de supremacistas brancos versus todos os outros, de cristãos maioritariamente evangélicos, de adeptos das mais aberrantes teorias da conspiração, de anti-liberais, de terraplanistas, de criacionistas, enfim, uma “salada russa” que em comum têm serem brancos, supremacistas e odiarem o governo, qualquer forma de governo. Esta América é bem caracterizada pelo autor que aponta para as causas históricas que a levaram para este beco sem saída, causas que se instalaram na fundação, se agravaram durante a guerra civil, que nunca ficaram resolvidas na reconciliação, e que agora se manifestam num processo eleitoral confuso e que do sistema dos 3/5 evoluiu para uma fórmula eleitoral que não garante cada um valha um voto. Uma América onde o neoliberalismo e os consulados de Clinton, Bush e Obama ressurgiram em força e de onde emergiu uma nação fraturada e ferida de morte. É uma América de uns contra os outros, uma américa onde Trump habilidosamente vingou ao instigar essa dicotomia, colocando-se habilidosamente do lado dos antigovernamentais enquanto ele era governo. Fez a quadratura do círculo, uma figura geométrica só possível num mundo populista e distópico. Uma América que já não é uma nação multicultural, mas antes uma paleta de nacionalismos inconciliáveis.
Esta América de populismos múltiplos, fraturada pelo meio, é a América onde existem mais armas que população (390 de armas / 340 milhões de habitantes), onde 40% da população tem pelo menos uma arma no domicílio. É a América onde o uso de arma é defendido pela constituição, 2ª emenda, e uma América onde metade da população defende com a vida esse direito. É uma nação feita por milícias com uma constituição adequada à perpetuação dessas milícias. É muito combustível e qualquer evento pode ser a ignição suficiente.
Nesta América fraturada e dividida foi para mim surpresa o papel do Sheriff. Habituado que estava a ver o papel deste nos filmes como alguém responsável pela ordem local, mas também alguém avesso à intervenção federal. Achava eu que esta resistência era apenas uma questão de “egos” explorada cinematograficamente. Estava enganado. Em muitos locais essa figura representa a resistência das populações à ordem federal, e em muitos outros pode mesmo ser o líder, tal como nos é apresentado na figura de Richard Mack e na da presente ficção. Na evolução da história ficcionada o exercito é chamado a intervir para por fim a rebelião e terminar com a sublevação. Só que no processo tem de calibrar o músculo a aplicar uma vez que qualquer atitude em excesso pode incendiar uma nação cindida ao meio.
Esta é efectivamente a história onde o risco de uma guerra civil é mais aparente, nas restantes são mais situações que tendem a acentuar a divisão já existente e por isso elementos de desunião.
A segunda história conta-nos a história de um assassino, um assassino estocástico, num país onde o histórico dos assassinatos presidenciais nos diz que é de 1 em cada 11 eleitos enquanto a mortalidade em combate é de 82 por 100.000.
Na história ficcionada após o assassinato presidencial a América fica divida com muitos a condenarem o crime mas muitos outros a elevarem o assassino à condição de herói. Diz-nos o autor que na revolta do Capitólio de Janeiro de 2021, uma sublevação com 5 mortes e 141 feridos, teve no rescaldo um apoio de 45% junto das hostes republicanas, enquanto 60 e 70% dos republicanos acham ainda que os resultados eleitorais de 2021 foram fraudulentos. Curiosamente nº muito semelhante entre os democratas atribuiu a vitória de Trump à interferência russa.
Nos restantes capítulos os cenários são propostos por condições disruptivas como alterações climáticas, subida dos níveis das águas, tempestades, pandemias, catástrofes, tudo situações de desordem generalizada com múltiplos focos de violência e por isso incontrolável.
Em todo o texto o que mais me desagradou foi a alusão feita pelo autor às consequências que a pandemia do Covid de 2019 teve sobre o mundo e em particular sobre a sociedade americana. Nesta última foi notória a ausência de uma estratégia nacional e a forma como a autonomia dos estados influenciou a resposta epidemiológica. Pura e simplesmente não se conseguia compreender um racional de estados em que respirar em público era crime com outros ali logo ao lado onde a exposição chegava a ter aspectos provocatórios. Se o autor se tivesse limitado a apontar essas inconsistências teria todo o meu apoio quanto mais não seja pelo ridículo com que a situação se revestiu. Ter um presidente que “recomendava” a ingestão de lexia enquanto o seu conselheiro para os assuntos médicos, Anthony Fauci espalhava o pânico foi uma peculiaridade de então. Agora quando afirma que “a estratégia dos suecos face à pandemia foi displicente e que pagaram caro pelas más decisões com uma mortalidade desmesurada, é desconhecer a realidade. A verdade é que os suecos (e basta consultar o site do EuroMOMO para se perceber que os suecos foram enquanto povo o que o mais ponderado e acertado ao ter implementado medidas de confinamento minimalistas, ter deixado o vírus circular e assim diminuir a sua morbilidade e por tal ter uma mortalidade muito abaixo da média dos outros países. É ignorância do autor, mas uma ignorância que me faz desconfiar da veracidade de outros factores e números que avança e que serem de temas que não domino poderem de alguma forma estar enviesados para alinharem com a narrativa que defende. Fica-me essa dúvida!
O último capítulo é talvez o mais importante. Neste o autor aponta as causas pelas quais a “União” parece aos dias de hoje uma miríade inatingível e uma utopia, uma quimera.
A desunião proposta não é fácil e tem aspectos curiosos. Ao contrario de outras geografias onde a secessão é ponderada, Ontário, Escócia, Catalunha, há efectivamente nacionalidades distintas que justificam a sessação. No caso americano a sessação é curiosa porque quem quer sair fá-lo por se sentir a expressão correta do “americanismo” expresso pelos fundadores na constituição. É mais um querer expulsar os outros porque traíram o ideal americano. Os secessionistas julgam-se os detentores da pureza da construção de uma américa que foi pensadas para acomodar as diferenças mas que hoje já não as consegue acomodar. Desde o modelo constitucional, às instituições, ao modelo eleitoral, à representatividade dos eleitos, são todas sequelas legadas pelos pais fundadores que em vez de suportarem as diferenças ao não fazerem um esforço para as esgrimir acabam por as reforçar. E é assim que a questão colonial, a racial, o conservadorismo, a liberdade, o igualitarismo, a imigração, o modelo capitalista liberal e neoliberal, a família, a justiça, as desigualdades, a forma como lidam com um passado de uma nação construída em fundações de liberdade e igualdade teve em si desde o inicio tanta desigualdade e iniquidade. E a lista não fica por aqui. Questões sociais dependentes da função do estado e da sociedade, nomeadamente aos apoios sociais, educacionais e de saúde, deixam a sociedade americana irremediavelmente fraturada e com tendência para se assumir que as diferenças estão de tal forma marcadas que a separação dos estados será inevitável. Esta é uma forte possibilidade, e talvez a melhor saída segundo Stephen March.
Dizer que a sessação não é constitucional não é narrativa que possa sossegar os espíritos. As questões de geografia são políticas antes de serem legais. Mas mesmo que isso possa acontecer daí resultariam inúmeros problemas, legais, comerciais, económicos, sociais, de dimensão, etc, cuja resolução será porventura o grande entrave a uma decisão desse tipo.
“A Próxima Guerra Civil” de Stephen March é eventualmente um bom texto para quem se quiser iniciar ao estudo de uma América dividida e de que forma as causas para esta divisão nos conduzem às incertezas do mundo de hoje.