Num ensaio sobre Dante, T. S. Eliot diz que “a poesia genuína é capaz de comunicar antes de ser entendida”. Isto porque a poesia fala não só à razão, mas ao que em nós vai além do intelecto: corpo, sentidos, emoção, instinto, intuição... Em Fazer círculos com mãos de ave , Ana Estaregui aprofunda sua pesquisa sobre as interações entre natureza e cultura, humano e mais-que-humano, numa escrita não circunscrita a um eu único: “o coração assopra coisas indecifráveis/ dá a ver aquilo que vê/ [...] sem os olhos ensina a pensar/ como pensam os poemas/ como pensam os bichos”.
Essa poética nasce de uma visão de mundo e de linguagem menos antropocêntrica e mais próxima das perspectivas indígenas. Não por acaso, as referências a cantos, crenças, línguas e costumes indígenas proliferam e inspiram muitos dos poemas. Outra ideia forte do livro é a de que “são os poemas que procuram as pessoas/ e não o contrário”. É como se, ao expandir as fronteiras da linguagem e da consciência, a poeta pudesse ouvir a voz da natureza (plantas, animais, elementos) ― e a poesia sempre foi o lugar privilegiado para isso: “tenho um pássaro no lugar do coração/ carrego sementes e palha na boca/ ensino espaço/ em troca ele me devolve/ um brevíssimo canto/ regulo o meu ouvido para que ouça”.
Os poemas de Ana sempre me encantam. Os 97 deste livro passam como uma brisa fresca no rosto em dia quente, fazem a gente sentir nosso estar no mundo de um jeito sensível e atento aos detalhes e magias da natureza. Ser parte desse todo através da palavra, a honra que a escrita da autora nos proporciona.
mais um livro de estaregui lido e faço questão de frisar isso. é a minha poeta contemporânea brasileira favorita, aliás. gosto muito de como soam os seus versos e de suas referências. neste livro ela traz algo que já estava sendo construído em sua poesia: o cotidiano na natureza. tem algo de espiritual também que me comove muito, talvez porque esse tema precise (ao menos, para mim) passar pelo que transcende. gosto muito dessa poesia que nos empresta seus olhos sensíveis para que possamos perceber a natureza de uma forma mais singular e que nos traz uma nova filosofia. nós que também fazemos parte dessa natureza, dessa banalidade. sou leitora de haikais japoneses e grande admiradora da poesia de manoel de barros, então foi um prato cheio. não é o meu favorito da estaregui, mas recomendo para quem é afeito a esse tipo de poesia.