Foi com certeza uma leitura extremamente densa. A história é extremamente real, e por isso, nos traz um peso emocional muito difícil de carregar durante todo o livro. A escrita do Itamar é perfeita nesse sentido, pois conseguimos sentir quase como se a situação estivesse acontecendo com a gente. Ou seja, é uma leitura travada, e não por um enredo engessado, mas por um sentimentalismo palpável e gritante. Diversas vezes precisei parar de ler para respirar. A leitura realmente me pegou.
Entretanto, ao longo do livro, me surgiram algumas críticas pontuais com relação ao estilo de escrita que o Itamar escolheu adotar neste livro. Essas críticas se fundamentam na experiência que eu tive com a escrita do autor em seu livro "Salvar o Fogo", em que também é abordado uma história sensível e de extrema importância, com o mesmo peso emocional de "Coração Sem Medo". Assim, durante a leitura, notei que o autor optou pelo uso desenfreado de incisos e hipérbatos, o que, na minha opinião, torna a leitura mais complicada.
Em diversos momentos, a ordem das frases era rearranjada sem um motivo explícito, ou então, novas informações eram adicionadas no meio das frases sem muita filtragem do que era o não necessário para o entendimento completo do leitor acerca dos personagens e da história. Essas questões me incomodaram ao longo da leitura tendo em vista o quão real são as circunstâncias em que o livro está inserido. A violência policial em periferias é algo que acontece mais do que imaginamos. Está presente no dia a dia de diversas pessoas. E sabemos que essas pessoas são as mais distantes da literatura, são as que menos possuem oportunidades e acesso à livros. Por isso, acredito que tornar a escrita de uma história tão real e que gera identificação em algo de difícil compreensão me incomoda muito, especialmente para esta parcela da população brasileira.
Individualmente, não achei a leitura tão dificultosa como estou abordando, mas em diversos momentos precisei rele ruma frase ou outra para ter certeza que era aquilo mesmo. E acredito que este tipo de escrita mais afasta do que aproxima. Não estamos em um momento para tornar a leitura mais inacessível. Realmente acredito que isso seja um problema ao longo do livro, pois senti uma diferença gritante entre a escrita de um livro para o outro. E isso se relaciona com mais uma crítica que tenho do livro, a sua extrema falta de confiança no que está sendo exposto, tanto com relação à escrita do autor e com o entendimento do leitor. Por exemplo, em diversos momentos do livro, o autor tenta deixar algumas questões em aberto, dado a pouca informação que os personagens possuem aos determinados acontecimentos. A determinada situação é muito inteligente e interessante, exceto pelo fato do autor ficar repetindo as mesmas brechas narrativas deixadas em aberto, por ele mesmo, várias e várias vezes ao longo da história.
Por último, gostaria de falar sobre mais uma escolha feita pelo autor com relação à sua escrita que me gerou certo incômodo. Para isso, gostaria de retomar a minha última e única experiência com o autor, o livro "Salvar o Fogo". Neste, temos muito presente, durante toda a história, a crítica social sobre reforma agrária, dado que ambos os livros fazem parte da trilogia da terra, que giram em torno desta temática. No livro citado, é muito clara a crítica de Itamar sobre escritura e posse de terras, mesmo que feita de forma muito sútil, algo que me chamou muito a atenção durante a leitura. O oposto ocorre em "Coração Sem Medo". Itamar recorre à críticas expositivas demais, e ao fim do livro, quase repetitivas. O autor escolhe nos dar explicações que, ao meu ver, não eram necessárias e nem ao mesmo acrescentam para o núcleo principal do livro, em prol de uma crítica que já estava sendo feito e, acima de tudo, compreendida! É como diz o ditado: para bom entendedor, meia palavra basta. rsrsrs
Acho que estas frustrações tem uma relação direta com o fato de eu ter gostando MUITOOO do último livro dele, enquanto este aposta em um tipo de escrita e narrativa diferente, sendo mais explicativa. Mas num geral, o livro é muito bom. A construção da personagem principal é perfeita. A escrita, por mais que tenha me incomodado em alguns aspectos, é perfeita para nos fazer sentir a dor que Rita Preta está lidando. Além disso, gosto muito como Itamar aposta na ideia de que as dificuldades, dores, comemorações e belezas dos nossos antepassados ecoam em nós até hoje, de geração em geração, assim como acontece com a terra. É top. To com o Itamar até o fim.