“Era só o que faltava, a gente brigando entre a gente. Um país todinho fodido desses, e a gente nessa! Eu hein… E lá do outro lado, no lado dos bacanas, geral tá tranquilaça, só curtindo a vida”, disse Tonho.
“Mas e quem tá no meio do caminho entre aqui e lá? Como é que fica?”
Tonho me olhou com um ar divertido.
“Quem tá no meio é fodidaço igual a nós, mas finge que não sabe disso.”
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Eu tinha me condicionado para a decepção, estava me preparando mentalmente para ela desde o momento em que terminei a última questão daquela prova. A mãe, inclusive, já havia começado a me consolar, me aconselhou a ir na dona Juca Benzedeira, disse que agora eu podia tentar conciliar um ano de cursinho com algum trabalho.
Até ali, dona Feliciana fez tudo o que pode para me dar condições mínimas para que eu não precisasse deixar a escola. O que ela não conseguiu foi me oferecer ferramentas para eu lidar emocional e psicologicamente com a realidade de ser bem-sucedido. Ela não sabia o que era ter êxito, essa sensação fazia sua estreia tanto em mim quanto nela.
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E eu estava cansando daquela vida em que uma conta puxava outra: o terno que sugeria a gravata; a comida que harmonizava com um vinho específico; a visita que pedia a mobília da moda; o cargo que pedia um carro… que eu não podia pagar.
Eu havia escolhido trabalhar no banco de maneira muito consciente, para ter segurança financeira, estabilidade, para construir um patrimônio. Portanto, não foi o banco que me escolheu, não recebi dele nenhum chamado em meus sonhos, a decisão de estar lá foi fruto da necessidade. E se eu tivesse dinheiro suficiente para me manter? No que eu trabalharia com prazer o resto da minha vida? Descobri que eu nunca tinha pensado sobre qual seria o meu real talento, e pensar nisso foi como voltar à juventude, para aquela fase da vida em que vamos definir nossos rumos.
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Pode parecer incrível, mas de certa maneira era mais fácil quando morávamos na Matadouro. Nossos filhos eram menores, estudavam aqui, nós também trabalhávamos no centro, mas eu tinha perto de mim Zuleica, minha mãe, dona Feliciana, dona Juca Benzedeira e vizinhas que, quando era preciso, uma ficava com o filho da outra. Todo mundo era mãe e tia de todo mundo. Quando nos mudamos para o centro, passamos a ter muito mais recursos materiais do que naquela época, mas muito menos recursos afetivos e de suporte. Não há dinheiro que compre um “Tua mãe não tá aqui, então eu sou a lei”; “Não apronta, porque quando ela chegar vou contar tudo”; “Arrume as coisas com calma, filha, deixa os garotos brincando no meu quintal”.
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A minha implicância com o retorno do Ernesto à Matadouro é porque eu também quero voltar, mas não para um lugar concreto. Tenho uma saudade profunda do que nos levou a unir nossa vida, do que sonhávamos juntos para nós não apenas materialmente. Ele acha que precisa pisar ali para conseguir se lembrar de quem ele era, mas eu não.
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Quando contei para Zuleica, ela disse:
“Ah, é um nome diferente, bem coisa do Ernesto mesmo. Pelo menos vai tirar a menina da mesmice de Lucianas, Marias, Cláudias, Márcias…”
“O que vocês dois têm contra o que é comum?! Esses nomes que você falou são lindos. Também é bonito ser igual a todo mundo. Que mal tem ser apenas mais um no meio da multidão?
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Ter me tornado imigrante me fez olhar para a minha casa de maneira diferente e me fez menos duro, menos dono da verdade, menos julgador. À medida que eu ia criando novas relações, via que esse negócio de construir outras referências não é tão fácil. No fim, eu estava sempre tentando atender a alguma expectativa que não era minha, e me perdia de mim.
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Voltei à carga mais tarde, mas não tomaram nenhuma providência prática e ainda tive que ouvir um “coisa de criança, não se preocupe”.
“Coisa de criança ensinada a ser racista!”’
Quando são menores é coisa de criança. Quando são jovens, estão repetindo o que aprendem em casa. Quando são adultos, ou estão reproduzindo a estrutura, ou têm questões psiquiátricas. E quando são velhos estão senis. É esse o ciclo das desculpas irresponsáveis pelo crime.
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Priscila estava tendo com Nandi uma atitude parecida com a que minha mãe teve comigo, ou seja, achava que protegia a filha modificando-a. A diferença brutal entre elas eram os egos: um inflado e o outro quebrado. Minha cunhada, diferentemente da minha mãe, queria fazer da filha a sua imagem e semelhança. Já minha mãe queria fazer de mim a imagem e semelhança de mulheres iguais à minha cunhada.
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Força, Nandi, eu te pedi, quando você tinha oito anos! Te pedi porque também fui muito exigida nessa mesma idade. Força, autocontrole para não reagir com raiva, polidez nos gestos e na voz, aceitar, sorrir, gostar e me moldar a uma imagem que não era a minha.
Alguns fatos vão me ocorrendo apenas agora, enquanto escrevo. O Augusto e eu brigávamos demais porque ele adorava dizer que eu tinha inveja da sua mãe, e não é que ele estava certo? Ele só errava na causa desse meu sentimento, que não tinha nada a ver com a aparência da Priscila, mas com a liberdade que ela desfrutava de ser o que bem quisesse, do jeito que achasse melhor, de falar o que bem entendesse. Ela não precisava dessa tal “força” que viviam querendo que eu tivesse.