Neste seu livro de estreia, publicado em 1932 por um sindicato operário a seis escudos o exemplar, Rodrigues Miguéis inaugurou uma obra incontornável do século XX português. Esta novela narra a história de crime e castigo do órfão Renato Lima, que nas palavras do autor «é apenas o subproduto duma fauna provinciana que em Lisboa desagua». A trama inicia-se em pleno julgamento deste ser humilhado e volta ao ponto onde tudo começou, na voz da personagem principal, para explicar como um homem honesto, num contexto social altamente hostil, acaba a roubar compulsivamente o patrão e a cometer um homicídio.
JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS nasceu em Lisboa, a 9 de Dezembro de 1901. Formou-se na Faculdade de Direito de Lisboa (1924) e foi um dos fundadores da revista Seara Nova (1922). Advogou, foi professor do ensino secundário, presidente da Segunda Liga da Mocidade Republicana e co-director do jornal O Globo. Licenciou-se em Ciências Pedagógicas na Universidade de Bruxelas (1933) e fixou residência nos EUA (1935) como redactor-associado da Reader’s Digest e, posteriormente professor universitário. Escreveu contos, romances, novelas e peças de teatro. Apesar de quase toda a sua produção ter sido escrita longe da pátria (o que explica a preferência por temas do exílio e da emigração), mantém o humorismo magoado, a simpatia humana e o lirismo tipicamente portugueses. São suas obras principais: Páscoa Feliz (1932, Prémio Casa da Imprensa), Onde a Noite Se Acaba (1946), Saudades para Dona Genciana (1956), Léah e Outras Histórias (1958, Prémio Camilo Castelo Branco), A Escola do Paraíso (1960), a peça de teatro O Passageiro do Expresso (1960), Gente da Terceira Classe (1962), É Proibido Apontar (1964) e O Milagre Segundo Salomé (1975). Foi condecorado pela Presidência da República com o Grande-Oficialato da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1979. Faleceu a 27 de Outubro de 1980, em New York.
Um livro muito muito intenso. Entre a lucidez e a loucura, o crime e o delírio, somos transportados para a narração da vida de Renato que assume em alguns momentos uma força tão intensa que nos sentimos angustiados. Lembro-me de ter tido essa sensação com o Crime e Castigo. Um excelente livro de um autor incompreensivelmente pouco conhecido.
Foi a primeira vez que li este autor, com o qual nem sequer estava familiarizada. O livro não é fácil, como qualquer descida a uma mente perturbada não o seria, mas está bastante bem escrito, e deixa-nos agarrados às páginas em ansiedade crescente a tentar perceber o desfecho adivinhado pelo que já se tinha lido no início do livro.
Crónica social duma época díficil e conturbada, foi um óptimo modo de conhecer este escritor, fiquei com vontade de ler mais.
Novela de uma condição social ou novela de uma alucinação? "Páscoa Feliz" caminha entre as duas coisas, aumentando aos poucos a confusão no leitor. O feito de Rodrigues Miguéis é notável por conseguir, através de uma narrativa simples, engrandecê-la com uma descrição da loucura que se torna estranhamente íntima do leitor. Uma raridade de um autor que, tal como alguns outros da nossa língua, parece ter sido parcialmente esquecido, entre os "cânones" que sobrepõem escritores em relação a outros.
Foi a surpresa do verão. Fininho, pequenino, jeitosinho, lê-se num dia. Não conhecia o autor, por mais que tivesse ouvido falar dele, não lhe lera quase nada. Depois descobri, pesquisando, que foi quem escreveu um conto que adorei (Arroz do céu, ou algo do género). É incrível a semelhança do registo Narrador/Personagem (o Renato) com o famosíssimo Mersault de O Estrangeiro, de Camus. Não desenvolvo este raciocínio porque não há nada pior do que "spoilar" o Estrangeiro. Andava pelas vinte, trinta páginas engo(lidas em voz dramatizada), já me ia passando pela cabeça quão genial é este autor, quão extraordinária é esta personagem, que já assim, de supetão, lhe tenho vontade de dar cinco estrelas (vício recente adquirido neste estaminé). Passo o resto do livro a recordar-me que é uma história publicada em 1932, está o Salazar a tornar-se Presidente do Conselho, há gente já a ser presa por fazer marotices anti-situação. Passo o resto do livro, pendurada no testemunho do Renato e nem dou conta que estou sentada num autocarro, e que me apetece começar a dramatizar-lhe a voz à frente dos passageiros. Folheio-o freneticamente à procura de um significado para o título (quase me levou a adiar a sua leitura para a próxima Páscoa), e enfim encontro-o. Sim, o livro é sobre loucura. Ou sobre lucidez. É lerem e depois decidam vocês. (se rimou, é porque é verdade) Paninho 'pa mangas.
nunca tinha me encontrado com a escrita deste senhor que me surpreendeu bastante pela positiva. somos postos na pele de um esquizofrénico condenado a ser livre e assimilamos na nossa vida o papel que temos perante o mundo e esta sociedade e até nós próprios. de facto, para ser escrito em 1926 e não ter tanta fama deixa-me perplexo, este é um romance simples e de escrita fácil de entender que nos deixa sempre agarrados ao livro ou então nos obriga a saborea-lo com calma, o que eu muito alegremente fiz. direto sem encher capítulos com assuntos fora do ritmo da narrativa de uma escrita muito bem ornamentada com pequenos momentos em que o escritor dá as suas visões em vez de apenas se limitar a contar uma história. incrível termos um camus e sartre muitos anos antes destes ficarem famosos a escreverem algo tão importante para o existencialismo como isto, recomendo muito.
Páscoa Feliz, first published in full in 1932, was the first novel of Miguéis, a famous Portuguese writer expatriated in the US from 1935 until his death forty five years later. A tale of a petty accountant slowly turning schizophrenic. Although not a cheerful story, its somewhat dostoievskian flavor, and a vertiginous pace at some points, grabs the reader's attention until the end.