"Como um passarinho que se vê fechado pela primeira vez numa bela gaiola de ouro e que, voando daqui para ali tenta passar por entre cada uma das grades da sua prisão para voar para a liberdade, Heidi ia de uma janela para a outra tentando abri-las para ver outra coisa que não fossem paredes e janelas, pois lá fora tinha de existir sol, erva verde, as últimas neves a derreter nas encostas da montanha, todas as coisas que ela tinha vontade de contemplar."
Começando pelo princípio: está a chegar o natal e eu resolvi mimar-me. Tenho uma paixão de estimação por esta história e queria ter mais esta edição para juntar às outras. Esta parte ficou arrumada em menos de 24 horas. Compra feita, comecei a ouvir os comentários habituais de "a Heidi não é realista"... Então, aqui fica: desde que o meu inglês foi corrigido por uma criança de 3 anos que, para lá de falar duas línguas, já sabe ler!, nunca mais aceitei que me dissessem que há personagens infantis impossíveis - Heidi incluída!
As crianças são um mundo, não vale a pena fazer apostas.
E de ano para ano (já lá vão umas releituras deste livro), há sempre algo mais que descubro nas entrelinhas.
Está lá a bondade, a generosidade, a crendice também - nada disto é novo.
Mas Heidi é uma obra que espelha também a dicotomia mundo natural / mundo citadino; que faz a apologia dos valores tradicionais; que defende as crianças e um sem número de outras coisas que as várias leituras me têm feito descobrir.
Aquilo que todos sabemos (primeira parte da história que esta edição vem dividida em dois):
A órfã Heidi é levada até às montanhas para viver com o avô; lá conhece Pedro, a avó, o prazer da vida salutar... E entre o rapaz, o avô e as cabras nada mais lhe ocupa o espírito até que é repescada e levada para Frankfurt onde será a companhia muito desejada de Clara, uma criança paraplégica.
Mas tirar Heidi das montanhas é como retirar a Heidi o ar que respira..
A história é, de facto, simples, mas o livro bate aos pontos as adaptações (anime, filmes...) - nele o avô é um personagem complexo, possessivo e mais perturbado do que qualquer personagem que normalmente encontramos neste tipo de literatura; a tia Dete tem um talento para se desfazer de responsabilidades e abandonar pessoas que mete dó; Pedro é um rapaz com problemas de comunicação e aprendizagem relativamente sérios; a governanta de Frankfurt é uma criatura abusiva e ignorante; e a necessidade de perdão e reparação são características comuns a praticamente todos os personagens.
Há bastante para processar neste mundo "ideal" de Heidi.
"- Porque é que a ave de rapina guincha sempre assim tão alto cá para baixo, avô?
- Ela faz troça das pessoas cá em baixo, que passam o tempo sentadas nas aldeias a aborrecer as outras e a cochichar. Se seguisse cada um o seu caminho, e subissem às montanhas como eu, seriam mais felizes."
A escrita é singela, muito acessível, sem dúvida, mas as descrições das montanhas arrumam com muitos escritores. Spyri cresceu num meio (natural) privilegiado, é impossível igualar a sua inspiração.
"(...)com uma magnificência que ela não recordava, nem nunca vira nos seus sonhos, os cumes do Falknis refulgiam lá no alto, os seus campos de neve estavam tingidos de vermelho e sobre eles flutuavam nuvens rosadas no céu. A erva dos campos do planalto luzia dourada, um brilho fulgente fazia cintilar todos os rochedos em volta e o vale, lá em baixo, parecia mergulhado no ouro e na luz."
Alguns diálogos são fortes - tão fortes que todas as adaptações que conheço (mesmo em livro) os minizam e lhes tentam retirar a carga negativa - e a defesa da vida nas montanhas face à vida nas cidades faz-se de forma quase ininterrupta:
"- Cala-te! - gritou o avô com voz tonitruante, mirando-a com olhos flamejantes. - Leva-a e dá cabo dela! E nunca mais a tragas, porque não a quero ver como te vejo a ti, com esse chapéu de plumas na cabeça e essas palavras infames que te saem da boca!"
As figuras de estilo que Spyri introduz na narrativa são um sem fim de artifícios que lhe permitem ultrapassar o género de "literatura infantil": as imagens de corrupção associadas à vida citadina são recorrentes - a solidão, a pobreza andrajosa, a maldade e a indiferença estão sempre ligadas a personagens que vivem em Frankfurt; o simbolismo está presente várias vezes - a casa é uma gaiola; a escuridão da cidade iguala o desconsolo espiritual; as metáforas são brilhantes - a subida à montanha está diretamente ligada à conquista da adversidade; a descida da montanha à derrota.
Spyri chega mesmo a desconstruir a sua narrativa com uma boa dose de humor e senso comum:
"-Como sabe, senhor Sesemann, tínhamos decidido procurar uma companheira para a Clara, e, como sei o quanto é importante para si que a sua querida filha esteja rodeada por uma criança bem comportada e educada, pensei então numa menina vinda da Suíça, porque esperava ver uma que fosse como aquelas sobre as quais li tantas vezes nos livros e que, nascidas no ar puro da montanha, atravessam a vida por assim dizer, sem pisarem a terra.
- Eu cá penso - comentou o senhor Sesemann - que os meninos na Suiça pisam terra firme. Porque senão Deus ter-lhes-ia dado asas em lugar de pés."
Tudo junto, Heidi é uma narrativa um tanto ou quanto utópica (sugerindo que o espírito inocente de uma criança não só compreende o mundo intuitivamente, como, inclusive, tem o poder de operar mudanças nos outros), assente em valores religiosos (que nem sempre deslizam incólumes pelos nossos olhos) e enquadrada num tempo e espaço distantes, mas por isso mesmo se a pode classificar como uma alegoria sem que perca nenhuma parte do seu valor.
Razões suficientes para começar já o último volume.
Por último, não resisto a achar curiosa a opção da ilustradora para a capa - o cãozinho que nela figura (o bom velho Joseph) é uma adição dos estúdios Ghibli [edit: Zuiyo], e não foi escrito por Johanna Spyri... Teria sido uma boa ideia dar uma vista de olhos ao original, muito embora seja um contágio quase inevitável.