“A memória não se acumula sobre outra. A recente não é resgatada antes da milésima. Que não fica esquecida sob o peso das novidades, do presente. O passado interage com o segundo vivido, que já ficou para trás, virou memória recente. Memórias se embaralham.
Então me explica rápido: por que velhos com demência se esquecem das coisas vividas horas antes e se lembram das vividas na infância, décadas antes? Minha mãe, aos oitenta e cinco anos de idade, com Alzheimer, não se lembra do que comeu no café da manhã. Mas vê meu filho, de um ano e pouco, e o reconhece, como pouquíssimas pessoas. Vê sua foto e o reconhece. Tem saudades dele.”
No início do mês fui ao cinema ver o filme “Ainda estou aqui”. Quando saí daquela sala de cinema, foi como se todas as minhas células partilhassem um pouco de toda aquela dor e sofrimento. Eu precisava de continuar a viver naquela história, precisava de ler o livro. E fi-lo. Podem perguntar: "mas não é repetitivo?". Nem por isso, há factos que estão desvendados, é certo, mas a verdade é que vi o filme e li o livro com perspectivas muito diferentes: cada um, à sua maneira, quer passar uma mensagem ao mundo, mostrar algo de diferente na família de Rubens Paiva e, em particular, mostrar ao mundo de forma muito diferente, quem foi Eunice Paiva. Este é um dos poucos casos em que vos digo para verem primeiro o filme e, só depois, lerem o livro.
Este é um livro de memória nos vários sentidos da palavra: Marcelo, o autor e narrador, faz um mergulho imenso na história dos seus antepassados, na sua infância e na tragédia do seu pai para criar um livro de memórias sobre o que aconteceu à sua família. Neste mergulho, Marcelo debruça-se sobre uma personagem em específico, a sua mãe, e vai-nos mostrando este passar do tempo, dos anos e dos episódios sobre a sua perspetiva e da sua mãe que, no final da sua vida, perde a memória.
Ao contrário do filme, encontramos um livro com uma narrativa fragmentada, sem sequência temporal, e com uma muito mais forte posição do narrador enquanto elemento neutro, que conta aquilo que viu e viveu de forma muito exata. Já o filme segue uma narrativa cronológica e também bastante emocional.
É neste livro que podemos encontrar relatos e documentos escritos que nos trazem informação sobre a detenção de Rubens Paiva, pai de Marcelo, sobre todas as tentativas de habeas corpus da familia, as suas lutas contra a justiça brasileira e contra a ditadura. Estes detalhes trazem à luz do dia alguns pormenores não tão explícitos no filme. As suas descrições arrepiam e ensurdecem, deixam um espaço vazio e muitas questões na nossa cabeça.
Por outro lado, um dos pontos também bastante interessantes do livro em comparação com o filme, é Eunice Paiva. Através do livro, podemos perceber quem era esta figura: uma mulher culta, firme, pouco emotiva, de vícios e manias, sempre bastante pragmática durante toda a sua vida, quer perante os filhos, quer perante todas as lutas que levantou pelo marido ou enquanto advogada. É neste livro que conseguimos perceber a essência desta mulher e, aos poucos, ir vendo o levantar do véu em cada camada, em cada página da sua vida, que o seu filho conseguiu colocar neste livro.