Em 1965, o general Humberto Delgado, inimigo público número 1 de Salazar, foi assassinado perto de Badajoz por uma brigada da PIDE. A chefiá‑la estava Rosa Casaco, que, fugido do país a seguir ao 25 de Abril de 1974, viria a ser condenado a oito anos de prisão e a tornar‑se, após uma entrevista incluída neste livro, um dos rostos mais emblemáticos desta força policial. Sólido e temido bastião do Estado Novo, ninguém escapava ao raio de acção da PIDE: nem Calouste Gulbenkian, o homem mais rico do mundo, que foi preso em 1942; nem o ex‑presidente da República marechal Craveiro Lopes, vítima de chantagem de carácter sexual; nem sequer o bispo D. Eurico Dias Nogueira, submetido a constante vigilância, com cartas interceptadas até para o Vaticano e para o próprio Salazar. Estas são algumas das Histórias da PIDE que José Pedro Castanheira investigou ao longo dos anos para o Expresso, todas reportando neste volume ao período de Salazar.
JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA nasceu em 1952. Jornalista profissional desde 1974. Estudou Economia e Jornalismo. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas. Foi chefe de redacção do vespertino A Luta e trabalhou durante dez anos no semanário O Jornal. Ingressou em 1989 no Expresso, onde é redactor principal. Tem-se dedicado ao jornalismo de investigação e é autor de uma dezena de livros. Ganhou alguns dos mais prestigiados galardões do jornalismo atribuídos em Portugal: o Prémio Nacional de Reportagem de Imprensa e o Prémio do Clube dos Jornalistas.
Histórias da PIDE é um livro necessário, não pelo conforto da memória, mas pelo desconforto que provoca. José Castanheira escreve contra o esquecimento e, sobretudo, contra a tentação muito portuguesa de suavizar a violência quando ela vem fardada de Estado.
O livro expõe o absurdo interno do regime a partir de episódios que, por si só, desmontam qualquer tentativa de normalização da ditadura: o facto de Calouste Gulbenkian ter sido preso pela PVDE diz tudo sobre a lógica paranoica do sistema, ninguém estava a salvo, nem sequer quem financiava culturalmente o país. A repressão não obedecia a critérios morais, apenas à fidelidade cega.
A figura de Rosa Casaco atravessa o livro como um símbolo maior dessa violência impune. Os crimes que cometeu, as ordens que executou, o sangue que ficou pelo caminho - e a absoluta ausência de responsabilização. Castanheira deixa claro que Rosa Casaco não foi uma exceção: foi um método. Como ele, houve muitos. E isso talvez seja o mais perturbador.
Em 1958, nem a Igreja escapava se saísse da linha. O exílio forçado do bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, mostra como o regime não tolerava dissidência, nem sequer moral ou espiritual. A ditadura exigia alinhamento total - político, religioso, humano.
O livro também desmonta mitos: Craveiro Lopes, respeitado internacionalmente, foi afastado por não agradar a Salazar. Spínola, que defendeu o regime na Abrigada, reinventou-se depois como rosto do 25 de Abril, e acabou condecorado. A história oficial, lembra Castanheira, nem sempre coincide com a história justa.
Há episódios particularmente violentos, como a ordem de Silva Pais para que Rosa Casaco abrisse fogo contra a população no Porto. Ou a forma como figuras centrais da repressão - Rosa Casaco, Casimiro Monteiro, Barbieri, Ernesto Ramos, entre outros - atravessaram a transição democrática sem julgamento, sem condenação, sem verdadeiro confronto com os seus atos. Humberto Delgado surge aqui como contraponto trágico: a coragem enfrentando aparelho que nunca foi verdadeiramente desmontado.
Este livro não é apenas sobre a PIDE. É sobre a falta de justiça, sobre a continuidade silenciosa, sobre como uma democracia pode nascer sem acertar contas com os seus fantasmas. Lê-se com indignação, com tristeza, e com a sensação incómoda de que ainda há muito por dizer.
Cinco estrelas, porque lembrar também é um ato político. E porque o esquecimento, esse sim, seria cúmplice.