Ambientado no calor brasileiro, Caderno Proibido acolhe intensas experiências eróticas; umas talvez sejam imaginadas, outras serão provavelmente reais e autobiográficas. É essa a matéria da compilação que nos traz os poemas mais «chocantes» de António Botto.
Para este Caderno Proibido, livro que o autor planeava publicar, tendo morrido antes de o fazer, Botto escreveu poemas sem subterfúgios, carnais e explícitos, podendo mesmo – tudo dependendo da linha vermelha que se escolha – ser considerados pornográficos e obscenos.
Muitos leitores, estamos certos, vão deliciar-se com a expressão das mais profundas relações amorosas, dos mais intensos sentimentos, de paixão e de emoção, mas também de ciúme e posse, sexo e emoções estéticas.
São esses os poemas que aqui se reúnem com organização, fixação dos textos e prefácio de Victor Correia.
Uma obra transgressiva que vem colmatar uma lacuna na edição das obras de António Botto.
António Botto nasceu em Concavada, freguesia do concelho de Abrantes, filho de Maria Pires Agudo e de Francisco Thomaz Botto. O seu pai trabalhava como "marítimo" no rio Tejo. Em 1908 a sua família mudou-se para o bairro de Alfama em Lisboa, onde cresceu no ambiente popular e típico desse bairro. Recebeu pouca educação formal e trabalhou em livrarias, onde travou conhecimento com muitas das personalidades literárias da época, e foi funcionário público. Em 1924-25 trabalhou em Santo António do Zaire e Luanda, na então colónia de Angola. Apesar de ser homossexual, António Botto foi casado até ao final da sua vida com Carminda Silva Rodrigues ("O casamento convém a todo homem belo e decadente", como escreveu). Em 9 de Novembro de 1942, António Botto foi demitido do seu emprego como escriturário do Arquivo Geral de Identificação) por, entre outras razões, “não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social;” Ao ler o anúncio publicado no Diário do Governo, Botto ficou profundamente desmoralizado e comentou com ironia: "Sou o único homossexual reconhecido no País..." Para se sustentar passou a escrever artigos, colunas e crítica literária em jornais, e publicou vários livros, entre os quais Os Contos de António Botto e O Livro das Crianças", uma coleção de sucesso de contos para crianças. Mas tudo isto se revelou insuficiente. A sua saúde deteriorou-se devido a sífilis terciária que ele recusava tratar e o brilho da sua poesia começou a desvanecer-se. Era alvo de troça quando entrava nos cafés, livrarias e teatros. Por fim, cansou-se de viver em Portugal e, em 1947, decidiu emigrar para o Brasil. Para juntar dinheiro para a viagem organizou, em maio desse ano, recitais de poesia em Lisboa e no Porto, que resultaram em grandes sucessos, com elogios por parte de vários intelectuais e artistas, entre os quais Amália Rodrigues, João Villaret e o escritor Aquilino Ribeiro. A 17 de Agosto partiu finalmente para o Brasil com a sua mulher. No Brasil residiu em São Paulo até 1951, quando se mudou para a cidade do Rio de Janeiro. Sobreviveu escrevendo artigos e colunas em jornais Portugueses e Brasileiros, participando em programas de rádio e organizando récitas de poesia em teatros, associações, clubes e, por fim, botequins. A sua vida foi-se degradando de dia para dia e acabou por viver na mais profunda miséria. A sua megalomania agravada pela sífilis era gritante e não parava de contar histórias delirantes das visitas que André Gide lhe teria feito em Lisboa ("Se não foi o Gide, então foi o Marcel Proust..."), de ser o maior poeta vivo e de ser o dono de São Paulo. Em 1954 pediu para ser repatriado, mas desistiu por falta de dinheiro para a viagem. Em 1956 ficou gravemente doente e foi hospitalizado por algum tempo. Em 4 de Março de 1959, ao atravessar a Avenida Copacabana, no Rio de Janeiro, foi atropelado por um automóvel. Cerca das 17h00 de 16 de Março de 1959, no Hospital da Beneficência Portuguesa, Botto, mal barbeado e pobremente vestido, expira. Em 1966 os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa e, desde 11 de Novembro do mesmo ano, estão depositados no Cemitério do Alto de São João. O seu espólio foi enviado do Brasil, pela sua viúva Carminda Rodrigues, a um parente que o doou, em 1989, à Biblioteca Nacional.
Uma peça chave para compreender melhor a dimensão humana, erótica e literária de António Botto, revelando facetas da sua voz poética e das suas vivências que até agora estavam ocultas no tempo.