Logo após um jogo de futebol do clube que apoia, José Lima é surpreendido nos arredores do estádio pela polícia e por um grupo de civis, que o acusam de ter participado em desacatos com adeptos da equipa adversária. Meses mais tarde, o que então parecera apenas um equívoco lamentável transformar-se-á num calvário. José é detido em casa, suspeito de tentativa de homicídio, e levado para a prisão por um crime que não cometeu. Passada no Portugal dos anos 90, e tendo como pano de fundo a cultura cabo-verdiana e as feridas dos tempos coloniais, Foi o Preto é uma história crua sobre racismo e injustiça, narrada com mestria, contenção e autoridade.
Lê-se num par de horas, este belo livro de Ângelo Delgado, mas cabem la vidas inteiras: a do jovem negro injustamente acusado de um crime que não cometeu, a dos familiares dele, até a do tipo que o acusou, do seu cúmplice, de toda a gente, protagonista ou secundária. Todos os pontos de vista e historias individuais, e a maneira como o puzzle de vidas encaixa, num pequeno grande épico viciante e importantíssimo de ser lido nesta altura, por toda a gente. Leiam, está aqui tudo.
“A bordo, poucos eram aqueles que mantinham uma relação íntima com os livros. Esse divórcio era, aliás, umas das razões para o casamento com o Exército e, como prenda, uma lua de mel no tórrido continente africano.”
Em "Foi o Preto", um jovem é injustamente acusado e aguarda julgamento em prisão preventiva. A sua originalidade reside no facto de mostrar vários pontos de vista e com isso realçar como o racismo está, de facto, presente e intrínseco na sociedade portuguesa.
É uma história que desafia, principalmente quem está numa situação de privilégio, a refletir sobre a forma como a sociedade está organizada e como o racismo continua a ser perpetuado nos currículos escolares, na falta de representatividade nas profissões mais qualificadas ou nos meios de comunicação. Todos fomos criados numa lógica racista, de superioridade em relação a outros, aos negros, aos ciganos, a estrangeiros de geografias mais desfavorecidas, mesmo que muitos não se apercebam disso ou nunca tenham parado para pensar no assunto.
Um livro tão importante e necessário!! Revi-me em muitos momentos e expressões da cultura Cabo-verdiana e Portuguesa. Tão, tão bom!! Imperativo para quem tem a alma impregnada com as cores de África e quem tem Cabo Verde no coração!💖
Uma história sobre a realidade que todos os portugueses sabem que existe, mas que teimam em fechar os olhos e a querer saber mais. O racismo sistémico do país vive-se em todas estas pequenas histórias. Um livro importante, ainda mais nos dias de hoje.
estou genuinamente surpreendida, nem sabia que dava para contar uma história a partir de remendos de outras! incrível, que escrita fenomenal!!! que livro completo!
Está a acontecer um fenômeno interessante: gostei tanto do livro que nem sei por onde começar a falar.
Começo por dizer que é um livro curto mas de grande impacto. Eu senti em vários momentos que poderia chorar, mas ainda consegui chegar ao fim sem fazê-lo.
O livro conta-nos como a vida do Zé, um jovem preto, cabo-verdiano, é preso após ser acusado injustamente de um crime. Achei muito interessante ser de múltiplos pontos de vista e por se passar em vários lugares também. Amei cada menção em Cabo Verde e especialmente Santo Antão e Porto Novo ❤️ e todas as pequenas frases/expressões em Crioulo.
Eu senti tanto a história, e a sensação foi de praticamente estar a ler uma biografia.
É difícil tentar falar deste livro sem dar spoilers, mas só leiam! Prometo que vão amar e vão terminar a leitura sem perceber.
que livro incrível; uma recomendação automática. apesar do autor repetir muito os seus temas e as suas críticas, fá-lo de uma maneira incrível, através de personagens diversas e vozes também elas únicas. é curto e lê-se bem, até com as suas descrições macabras, desconfortáveis e, infelizmente, muito reais.
“Mandam-nos para a nossa terra, para a sanzala. Mandam-nos comer bananas como os macacos. Mandam-nos tomar banho para que não cheiremos mal. Mandam-nos esfregar a pele com força para que tentemos ficar brancos como eles.”
Foi o Preto, de Ângelo Delgado, é uma obra imprescindível. Uma narrativa que une densidade estética e profundidade humana. O autor consegue transformar um tempo e uma voz numa experiência incrível, muito para além de uma mera história.
O livro distingue-se pelo seu domínio da língua e pela precisão emocional: as frases têm ritmo e propósito, não há floreados desnecessários. Abre espaço para uma reflexão direta sobre identidade, memória e lugar. É uma escrita exigente e subtil, mas que nos ajuda a construir imagens nítidas da narrativa.
Para quem valoriza uma literatura que desafia e recompensa, esta é uma leitura que enriquece a compreensão do que a literatura pode fazer, numa voz muito singular. Adorei!
Há livros que nos informam. Há livros que nos confrontam. Este claramente faz as duas coisas. Há livros que são escritos para explicar. Outros são escritos para serem ouvidos. “Foi o Preto” é, acima de tudo, um grito. Um grito que interrompe o silêncio e obriga a olhar para uma dor que muitas vezes foi e ainda é ignorada. E os gritos têm essa função: fazer parar, fazer ouvir, fazer sentir.
Talvez o maior valor do livro esteja exatamente aí: não nas respostas que dá, mas no desconforto que provoca.
Porque no fim, o que fica não é apenas a pergunta sobre racismo ou identidade. Fica uma pergunta maior: depois de ouvirmos o grito, somos capazes de o escutar?
E talvez seja precisamente por isso que este livro merece ser lido. Muitos parabéns ao autor por não deixar o tema morrer e por contar histórias que tantas vezes ficam por contar.
“Foi o Preto” não é, para mim, um livro sobre plot twists é um livro sobre causa e nesse sentido, arrasou.
Tive alguma dificuldade em avançar na leitura, não por falta de interesse, mas porque é uma temática que me toca profundamente. É uma narrativa revoltante, pesada e desconfortavelmente real.
Não é uma leitura fácil, nem pretende ser. É daquelas que nos obrigam a parar, a sentir e a refletir.
Frase favorita: “A narrativa contra imigrantes africanos tem vindo a aumentar de volume e a sociedade portuguesa não se queixa dos decibéis.”
Um livro que se lê rapidamente, mas cujo conteúdo fica a ecoar em nós. A narrativa centra-se em Zé Lima, um jovem adepto do Sporting que é injustamente acusado de um crime que não cometeu, e na sua família. A injusta acusação leva-o a passar uma estadía na prisão, simplesmente, porque os seus acusadores não gostam do seu tom de pele. Ambientado nos anos 90, este livro também nos dá conta dos grupos racistas que percorriam a noite de Lisboa e confronta-nos com a descrição de um crime que, infelizmente, não nos é desconhecido, pois foi inspirado na morte de Alcindo Monteiro.
Leitura dura, pesada, revoltante, mas essencial. Um nó difícil de desfazer em certas passagens. Que esta leitura nos faça perceber o lugar de privilégio que nos é dado apenas por termos uma pele fraca em melanina.
“Sim, porque há limites, e quem ousar ultrapassá-los terá, de uma forma ou de outra, de esbarrar numa grossa e intransponível parede de betão. O Zé esbarrou nela. Caiu. Quando se levantou e olhou em frente, estava preso. A razão? Ser preto.”
Somos todos responsáveis: quando nos calamos, quando olhamos para o lado, quando fingimos que não vimos.
"Dormir é o mas proximo de ser livre quando se está na prisão"
"Falhámos! Todos! O Estado falhou minhas senhoras e meus senhores. Não conseguimos proteger um cidadão inocente que nada cometeu ou, se preferirmos - e sem meias palavras -, cometeu o erro de nascer de outra cor, uma cor mais escura, escura demais para os cânones de muitos."
Pensei muito no meu filho ao ler este livro. Uma mentira pode derrubar toda a estrutura de uma família. Interromper brutalmente a vida de um jovem inocente. Desmitifica a ideia de que os descobrimentos portugueses foram maravilhosos e pacíficos Transparece como é que ideias baseadas no desconhecido e sem fundamento duram e transpõem décadas e gerações, e até quando?
Uma história que nos faz pensar, colocar em perspetiva algumas outrora certezas e afastar preconceitos. Uma escrita simples, mas inteligente e arrebatadora.
“Das suas bocas sai ódio e esse, que se saiba, não tem gramática.” “(…) embora a História nos diga que chegada a hora da desumanização, o género fica à porta: todos contam.” 👏🏻
Que livro fantástico! Pela escrita, pela história e sobretudo pela mensagem. De leitura obrigatória. Até devia até ser incluído no Plano Nacional de Leitura!
O que mais gostei nesta obra foi da narrativa e da oportunidade de conhecer esta versão da história, já que esta é tantas vezes enviesada pelo preconceito e pela falta de empatia. Bom livro.
Livro que se lê numa bela tarde de leitura! Tema muito sensível mas obrigatório ser falado e escrito! Gostei muito da experiência com o Ângelo! Curioso para mais!