Nono livro de poemas de um dos mais consagrados poetas, contistas e tradutores brasileiros em atividade, este volume traz Paulo Henriques Britto em sua melhor forma. Avesso ao sentimentalismo, aos arroubos, à autocomiseração, o autor criou uma poética extraordinária, com linguagem afiada e irônica, equilibrada entre o ceticismo e a descrença.
Embora os poemas de Paulo Henriques Britto sugiram resignação e pessimismo, uma segunda leitura pode revelar o sentido oposto. A própria insistência em escrever — em tentar encaixar o mundo na forma fixa do verso — opera como um "impulso visceral, orgânico,/ que mantém o cérebro ativo/ e combate ataques de pânico". Como ele demonstra na série "Intransitivas", a função terapêutica da poesia não pode ser "É palavra em lugar de droga,/ espécie incorpórea de ioga".
Não se trata, é claro, de imaginar que o poema possa oferecer soluções para os problemas do mundo ou dar fim às nossas angústias individuais. Longe disso. Mas o humor mal-humorado e desesperançoso do poeta atesta que "o poema cria uma existência/ não real, mas não de todo improvável,/ uma presença falsa que compensa". É nessa ausência, ou falsa presença, que a poesia mostra ser capaz de oferecer "o gosto, o som, a cor" e, assim, curiosamente, cumprir "o que promete".
Paulo Fernando Henriques Britto (Rio de Janeiro RJ 1952). Poeta, contista, tradutor e professor. Vive no Rio de Janeiro, exceto nos períodos entre 1962-1964 e 1972-1973, quando mora nos Estados Unidos. Os conhecimentos linguísticos e culturais adquiridos nesses períodos o levam a se especializar nos estudos, bem como trabalhar como professor e tradutor de língua inglesa. Forma-se em português e inglês no curso de letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Pela mesma instituição obtém título de mestre e, mais tarde, torna-se professor em cursos de tradução, criação literária e literatura brasileira. Estreia como poeta, em 1982, com Liturgia da Matéria. À obra seguem-se outros volumes de poesia, como Macau (2003), pelo qual recebe o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. Prosador e ensaísta, publica contos em Paraísos Artificiais (2004) e Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (2009), este com textos que partem do álbum homônimo do músico Sérgio Sampaio (1947 - 1994), para falar sobre o tropicalismo. É tradutor de diversas obras importantes, tendo vertido do inglês para o português cerca de 80 livros, entre os quais se destacam O Som e a Fúria, do americano William Faulkner (1897 - 1962), e Beppo, do inglês Lord Byron (1788 - 1824).
Eu já gostei de outros livros do Paulo, e gosto de algumas coisas aqui. Mas esse é o típico livro de um poeta acadêmico. Tudo alinhado, tudo no seu devido lugar, e sinceramente, sem um pingo de sal. Falta um amor demente, um toque de loucura, sei lá o quê. Mas tem momentos bons. Só não saí disso. É tipo, chover no molhado. Não se corre nenhum risco, não tem nenhuma sujeira. Me lembrou instrumentos de cirurgia e ambiente hospitalar. Aquela luminosidade falsa e fria. Sujem as mãos poetas!
Mais um compilado de belos poemas! Admiro a obra de Paulo por ser um escritor que domina as bases da poesia clássica a ponto de criar a sua própria poesia brincando com tais recursos, sobretudo o soneto petrarquiano (amo). Os temas perpassam a existência e o processo de escrita — temas recorrentes em sua obra. Aqui recomendo "Poema de ano-novo", "Mantra III", o I de "Intransitivas", o XIII de Terminais, o II de "Quatro glosas e "Uma autotradução". Sempre muito prazeroso!