Com uma prosa que se equilibra entre a melancolia, a estranheza e o humor, Vida doçura é um romance avassalador sobre a elaboração do luto, as lacunas da infância, as tramas difusas que compõem a memória e a matéria-prima da solidão.
Jocasta é uma escritora que leva uma vida isolada e desregrada em um apartamento bagunçado no centro de São Paulo. Enquanto tenta se dedicar a escrever seu novo livro de contos, mergulha nas lembranças provocadas pelo trauma de ter perdido a mãe aos sete anos.
Ao longo desse processo dolorido e caótico, desenvolve uma compulsão nada óbvia pelos vídeos de Jovana, uma youtuber que apresenta sua rotina perfumada, organizada e alegre, em um estereótipo de como a vida deveria ser.
Ao se deparar com o oposto radical de sua própria existência, a protagonista se vê atormentada pela solidão em uma trama a um só tempo comovente e tragicômica, com toques de suspense policial.
mãe: um fantasma anêmico, como o lobo vestido de vovó. você vê as fronteiras evidentes, você vê o lobo, você vê a avó. você vê sem medo de ser uma armadilha. você cai na armadilha. você vê o truque, o artifício, o que está exposto, mesmo assim há um estranhamento. um susto, um engano. ficção e realidade.
Em Vida Doçura acompanhamos Jocasta e Jovana, duas personagens de universos profundamente distintos.
Mais de perto vemos a depressão de Jocasta e sua alienação/fuga em acompanhar uma youtuber de classe média baixa, Jovana, que basicamente fala de sua vida doméstica e dos cuidados com sua filha.
Pela tela, vemos a própria Jovana, que conhecemos pelos “vídeos” com seus bordões, recortes e partes aceleradas. Basta um olhar um pouco mais atento para ver a tristeza que ali também está presente.
Quando Jocasta, obcecada, remonta as pistas dos vídeos e localiza Jovana, temos toda uma parte nova do romance de atravessamento. Essa saga por vezes é até engraçada, mas há muita melancolia.
No fundo, a tentativa de Jocasta, que aos 50 anos, tenta elaborar o vínculo perdido tragicamente com a sua mãe é muito triste.
Natércia é uma das autoras que mais gosto de acompanhar, por sua criatividade e pela vontade e coragem de ousar.
Li todas as páginas sentindo aquele gosto que fica no fundo da xícara de café com muito açúcar. O doce caramelizado pegando na garganta, enjoativo, mas familiar e cheio de ternura. Bonito, bonito mesmo. Ninguém escreve assim
Confesso que no início não estava gostando do livro, mas aos poucos fui me envolvendo com as vidas vazias de Jocasta e Jovana. Raramente tive tanta compaixão por duas personagens, e como são atuais!
Essa é uma obra que mergulha profundamente nas emoções humanas através de uma narrativa visceral e carregada de intensidade. A história gira em torno de duas protagonistas bastante distintas: Jocasta, uma escritora que vive em São Paulo e enfrenta o luto pelo suicídio da mãe, e Giovana, uma youtuber que constrói uma imagem de rotina aparentemente perfeita e simples. O que começa como uma observação da vida de Giovana se transforma em uma obsessão crescente de Jocasta, que passa a acompanhar cada detalhe da rotina da outra, buscando entender ou até mesmo invadir sua vida.
A escrita de Natércia Pontes é marcada por um talento notável para transformar elementos crus, por vezes desconfortáveis, em poesia. Sua habilidade de dar beleza à dor e ao sofrimento é algo que já havia se destacado em trabalhos anteriores, e aqui ela consegue criar uma atmosfera de beleza dolorosa, onde a narrativa se torna uma espécie de poesia sombria. O estilo é direto, sem rodeios, e consegue transmitir toda a carga emocional presente na história.
O impacto emocional da obra é profundo. Ela não é uma leitura fácil, não pela complexidade textual, mas pelo peso das emoções que carrega. O livro retrata de forma crua e sem maquiagem os traumas familiares, as perdas irreparáveis e a dificuldade de lidar com a dor. A narrativa consegue evitar o pieguismo, mantendo uma linha delicada e controlada até as cenas finais, que são particularmente metafísicas e dilacerantes. Essas últimas páginas deixam uma marca duradoura no leitor, levando-o a refletir sobre a fragilidade da vida e a complexidade da alma humana.
3.75! o livro muda da água do vinho da metade pro final. amo a escrita na natércia e adoro todas as referências dela. soube traduzir sensações que até hoje mal consegui colocar em palavras.