Leo Huberman é um caso interessante de autor que está praticamente esquecido em seu país natal, os EUA, mas que desfruta de enorme reputação no Brasil, onde foi escolhido para o Clube do Livro da Gabriela Prioli em 2020.
História da Riqueza do Homem foi traduzido no Brasil em 1969 e logo se tornou um bestseller. Huberman, socialista convicto e professor da Universidade de Columbia, conta a história do capitalismo desde a metade da Idade Média até a década de 1930 por um ponto de vista claramente marxista, ou seja, onde condições econômicas ditam a organização política e cultural da sociedade. O livro é bem escrito e o método marxista de análise ajuda a providenciar um bom fio narrativo à história, pois para explicar a evolução da sociedade deve-se apenas seguir seu modo de produção e o conflito de classes resultante, o que ajuda a dar ordem ao aparente caos da história humana. Se a história escrita até o início do século XX, e mesmo em bestsellers contemporâneos, é a agência dos atores históricos - as decisões pessoais dos grandes homens (e aqui são homens mesmo, não mulheres) - que molda a história, para a história de Huberman a sociedade é, em grande medida, levada no turbilhão criado pelas forças econômicas e o conflito de classes.
Escrito em 1936, Huberman termina o livro anunciando que o fascismo de Mussolini e Hitler levaria à guerra, algo que pode ser claro hoje em dia, mas que não era a muitos na época, o que pode ser comprovado pelo Acordo de Munique, entre Hitler em Chamberlain, em 1938. Huberman também afirma que o sistema de produção adotado na União Soviética, com planejamento estatal, era superior ao adotado pelos países capitalistas, que gerava crises constantes, colocando em evidência a tradicional tese marxista de que as contradições internas do capitalismo levariam à sua ruína.
O que Huberman não previu era que o capitalismo do pós-Segunda Guerra iria adotar em massa o planejamento estatal inaugurado na União Soviética, enquanto o sistema soviético iria se ressentir da alocação ineficiente de recursos em razão da falta de livre mercado. Ademais, ao contrário do que afirma Huberman, que adota uma postura inocente quanto à vontade do trabalhador socialista em dar seu melhor à sociedade socialista igualitária, o fim da propriedade privada mostrou-se fatal à inovação.
O sucesso do livro do Brasil entre estudantes de ensino médio e universitário é facilmente comprovado ao menos por aqueles que passaram pelo ensino médio na década de 1990, como eu, visto que os livros didáticos da época parecem quase um copiar e colar das teses de Huberman. Em décadas mais recentes, no entanto, o público que teria lido Huberman parece tê-lo substituído por autores marxistas mais refinados, como Eric Hobsbawm.
Por fim, gostaria de saber quais crítica um medievalista teria ao livro. Por motivos óbvios, o Brasil não é um país com grande tradição de estudos medievais na universidade, o que deve ter contribuído para a grande reprodução do que Huberman diz sobre o período. Esse campo de estudos avançou muito na Europa do pós-Segunda Guerra, então minha impressão é que História da Riqueza do Homem deve estar repleto de absurdos sobre o período.
Enfim, o livro não é ruim, especialmente se você estiver lendo mais a título de curiosidade do que como fonte confiável sobre história do capitalismo ocidental.