"Sou órfã há mais anos do que fui filha. Meu luto tirando carteira de motorista, votando e comprando bebida", conta Lilá, narradora deste romance. Entre os silêncios da funerária onde trabalha maquiando mortos e da casa agora vazia, ela atravessa os dias às voltas com o peso da família e a ausência da mãe.
Narrado por uma voz única, de humor afiado, Cor de defunto faz do cotidiano um espaço de invenção. Aqui, vida e morte se iluminam em aproximações inesperadas, entre o riso e o espanto, no compasso de quem segue adiante.
"Uma voz original, ágil e de honestidade desconcertante nos conta a vida de uma mulher e os desamparos do seu mundo. Relembra o passado recente, refaz seus passos, ri de tudo que é possível. E, de vez em quando, nos deixa de joelhos diante de tanta dor ― para nos fazer rir de novo no parágrafo seguinte. Ela trabalha em uma funerária, discreta e sóbria. Observa com profundidade todas as nuances da morte, enquanto mastiga balas de iogurte. Na sua voz há uma cadela de seis dedos, um luto profundo, cadáveres, uma cantora cega, maquiagem após a morte, um espírito chamado Sérgio, centopeias e a cor amarela derramada por tudo. Na sua estreia literária, Cami di Malta nos conta uma história brasileira, contemporânea e assume seu lugar na constelação das melhores jovens autoras de seu tempo." Socorro Acioli
"Acompanhamos, solitários e solidários, a história de uma filha e da morte da mãe da filha. E de outras mortes que a protagonista testemunha na funerária em que trabalha. Li (e ri) a todo tempo apavorado. Reconheci fogos fátuos queimando em outros quintais. Ouvi gemidos familiares. Rezas. Incelências. Oralidades. Coisa rara essa obra literária. Cor de defunto prega na nossa cara. E vai fundo em tudo que é alma-gambiarra." Marcelino Freire
Cami di Malta nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1992. É pós-graduada em Escrita Criativa pela Universidade de Fortaleza (Unifor), onde começou a escrever seu primeiro romance, Cor de Defunto (Autêntica Contemporânea, 2026). Depois de viver em cinco países, hoje divide residência entre Brasil, Malta e Indonésia, atuando como escritora e tradutora.
A história gira em torno da Lilá, uma moça que trabalha numa funerária, cuidando dos cadáveres, maquiando e preparando os corpos. E o que chama atenção é que o foco do livro não é só essa profissão em si, mas a jornada interna da Lilá, os conflitos dela, as dores, o luto pela mãe, toda uma construção de personagem muito forte e intensa.
A escrita da Cami di Malta é muito visceral, com umas descrições bem escatológicas, mas de um jeito hiper realista, quase teatral. A gente consegue imaginar tudo na cabeça, as cenas, os ambientes, as emoções. E, ao mesmo tempo, o livro tem um humor de quem ri da própria desgraça, de momentos que parecem pesados, mas que, na narrativa, ganham uma leveza peculiar.
O livro é curtinho, dá para ler rapidinho, e acho que é uma leitura que vale muito a pena para quem gosta de uma narrativa forte, de personagem, e de uma escrita que te envolve do começo ao fim. Não é aquele tipo de história que foca em uma trama cheia de reviravoltas, mas sim na profundidade emocional da protagonista e na construção de um universo bem próprio. E o melhor: tem uma autenticidade que foge do óbvio, uma coragem de falar sobre o cotidiano de uma forma honesta e sem firulas.
falei com uma amiga há alguns dias que não aguentava mais ter que lidar com lutos (foram vários nos últimos 3 anos - não mortes, mas rupturas de vínculos, sendo uma recente inclusive). venho falando sobre isso na análise também, mas só ontem me dei conta que os últimos livros que li foram o gato do adeus e cor de defunto. esse livro foi uma surpresa, uma escolha aparentemente "aleatória" que achei fuçando em uma lista de lançamentos. começou devagarinho, mas conforme fui avançando na leitura fui sentindo uma urgência como uma pulsação, uma dor que lateja, e terminei a leitura apressada, como se tivesse sido levada numa corrente nas vivências da Luiziane. e fui mesmo, porque muito me identifiquei com ela. do meio para o final me lembrou muito a escrita da Mariana Salomão Carrara misturada com Clarice e Lygia. uma mistura de dor, prazer, secura cotidiana e poesia. de morte (em seus vários sentidos) e vida, tudo emaranhado.
O livro tem uma proposta bem interessante ao trazer a influência do luto na construção da personalidade de uma pessoa, mas acho que ele se perde muito na narrativa. Pelo fato da história não ser linear e a protagonista esconder alguns acontecimentos ficamos perdidos em alguns detalhes da história, acho que pode ter sido o intuito da autora durante a escrita, mas senti falta do aprofundamento de algumas questões
uma leitura bem interessante, curiosa e um tanto quanto peculiar, abordando o luto de uma filha pela mãe (ou talvez por ela mesma), cheia de metáforas e analogias, com um tom bem teatral, o que pode gerar um certo estranhamento no leitor!
3,5⭐️ Embora a história seja de uma tristeza só, a linguagem bem-humorada e escrachada faz um bom contrapeso. É o primeiro livro dessa autora e acho que vale a pena acompanhar o trabalho dela!