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Perguntei a mim mesmo se as imagens que vemos na infância não serão armazenadas num cofre diferente da nossa memória, um cofre secreto, um cofre protegido para sempre da passagem dos anos. E perguntei a mim mesmo quantas lembranças da minha infância ainda mantenho lá, nesse cofre secreto, aparentemente esquecidas, à espera apenas da sua chávena branca de café.
“Tarântula”, que Eduardo Halfon admite poder ser a última novela de um ciclo, é mais uma peça no quebra-cabeças que é a rememoração do passado do autor e da sua família, num movimento de afastamento e aproximação à sua identidade como judeu e como guatemalteco, como se tem visto em toda a sua bibliografia.
O livro dos judeus e o livros dos guatemaltecos [Torá e Popol Vuh], se me é permitida esta simplificação, e se é que se pode chamar livros a essas duas obras monumentais que representam e definem as grandes colunas sobre as quais está construída a minha casa. Mas uma casa que eu, por alguma razão, desde criança, precisava de destruir ou pelo menos abandonar.
Nesta obra, o autor recua até aos anos 80, quando os pais, já exilados nos EUA, o enviaram a ele e ao irmão mais novo para um campo de férias destinado a crianças judias, nas montanhas da Guatemala, um país martirizado pela guerra civil. Depois de um par de dias em atividades típicas, há um volte-face que faz da estadia uma cena digna de Stephen King.
Eram todas atividades de doutrinação, naturalmente. Embora eu nunca lhes tenha chamado assim, nem a minha análise de pré-adolescente pudesse ser tão elaborada. (…) Todo o programa do acampamento estava desenhado para fomentar em nós o sentirmo-nos um judeu entre judeus. Como membros de um clube privado.
Numa encenação em que as vítimas se tornam os carrasco, bem mais real e actual do que seria desejável, as crianças e os jovens do acampamento são submetidos a humilhações e sevícias físicas e psicológicas com um intuito que escapa à sua inocência mas não ao leitor com algum conhecimento de História.
Este episódio macabro não aconteceu comigo e horrorizou-me, pelo que me custa a crer que Halfon, 40 anos depois, tenha aceitado encontrar-se com o psicopata que organizou aquele campo de tortura disfarçado de curso de sobrevivência para jovens judeus, o tenha seguido para um lugar manhoso a que o outro decidiu levá-lo e tenha permitido que o interrogasse e intimidasse como se ainda fosse o miúdo de 12 anos, para ouvir as suas explicações, que qualquer adulto pode depreender sem que um tipo da extrema-direita sionista lhe faça um desenho, limitando-se em troca a fazer uma ou duas perguntas ligeiramente provocadoras, num dos momentos mais anti-catárticos da literatura. Questionado sobre a linha temporal do presente, Halfon diz que tudo neste livro aconteceu realmente, apesar de haver partes manipuladas ou exageradas. Se se concede a si mesmo essa liberdade, custa-me que tenha sacrificado a verosimilhança desta forma, como na cena em que reconhece de imediato, encadeado pelas luzes de um palco, uma mulher que não via desde os anos 80, a então rapariga que, nos dois ou três turnos de vigia nocturnos do dito acampamento, tinha preferido ler “Franny e Zooey” a conversar com ele.
Através deste vilão radicalizado, “Tarântula” aborda o trauma colectivo e expõe um medo que se transforma em paranoia e, consequentemente, em ódio, o que se poderá aplicar ao conflito que mais nos convier, com a ressalva de que este livro foi entregue para publicação antes de 7 de Outubro de 2023.
Disse-me com gravidade que as crianças judias deviam aprender o mais cedo possível a defender-se de ataques físicos e agressões verbais. Devem aprender o mais cedo possível, acrescentou, que todos os demais são antissemitas, que o mundo inteiro gira em torno desse ódio tão antigo.