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Vénus em Chamas

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Despir as mulheres para as expor em público é um costume antigo - e não estamos apenas a falar de roupa.

Há séculos que a existência das mulheres é terreno aberto para todo o género de delírios e desaforos dos homens. As suas vidas - terrenas ou espirituais - foram e são instrumentalizadas ao sabor das novas ordens e dos sistemas de poder que frequentemente contrariam a nossa natureza, com particular prejuízo para a metade feminina da humanidade.

Através de uma narrativa híbrida, entre reconstituição histórica ficcionada e investigação, Pedro Vieira escreve sobre sete mulheres que são todas as mulheres, sujeitas ao poder deles, cujas existências foram contadas e adulteradas para servir uma narrativa ardilosa que bloqueia com eficácia qualquer tentativa de emancipação coletiva.

Vénus em Chamas recupera as histórias reais de Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena, imperatriz Teodora, Fillide Melandroni, Joana d'Arc, Harriet Tubman e irmã Lúcia, para refletir sobre a forma como a História e a Arte as apresentaram, representaram e imolaram, tantas vezes despindo-as de qualquer agência ou autoridade sobre si mesmas.

203 pages, Kindle Edition

Published February 16, 2026

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Pedro Vieira

51 books19 followers

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Displaying 1 - 4 of 4 reviews
Profile Image for Tamára.
413 reviews513 followers
October 12, 2026
Uma leitura interessante e sem dúvida inspiradora.
Profile Image for Nuno Mendonça.
106 reviews8 followers
September 17, 2026
“Diz-se que a História é escrita pelos vencedores, mas o lugar-comum pode ser parafraseado: antes de tudo, a História é escrita pelos homens.”

Foi esta a frase que ficou a pairar sobre toda a minha leitura de Vénus em Chamas. Pedro Vieira percorre as histórias de Maria, Maria Madalena, Teodora, Fillide Melandroni, Joana d’Arc, Harriet Tubman e Lúcia de Jesus para mostrar como tantas mulheres chegaram até nós através da voz de outros. Foram santificadas, sexualizadas, demonizadas, embelezadas, transformadas em símbolos e, muitas vezes, afastadas da pessoa real que existiu por baixo da personagem histórica. Talvez seja essa a ideia que mais me ficou do livro: muitas destas mulheres tornaram-se eternas sem alguma vez terem escolhido a forma da própria eternidade.

O autor escreve com a paixão de um ateu convicto e eu li-o a partir de um lugar diferente. Tenho fé e não creio que ela desapareça perante um inventário de argumentos racionais, porque há qualquer coisa de profundamente interior na experiência religiosa. Isso, porém, nunca me pareceu incompatível com reconhecer a evidência histórica acerca da forma como a Igreja condicionou durante séculos a visão da mulher. Para mim, a Igreja enquanto instituição e a própria fé ocupam lugares distintos, e talvez por isso tenha gostado tanto de ser provocado por este livro. Maria é um exemplo perfeito dessa tensão. Está no centro de uma das narrativas mais influentes da humanidade e, ainda assim, surge quase sempre como objeto da narrativa, raramente como dona dela. Falam dela, interpretam-na, santificam-na, mas pouco sabemos da sua própria voz. A passagem sobre a mulher dever obedecer ao marido porque ele é a “cabeça” e ela o “corpo” fez-me, por algum motivo, imaginar o Cândido de Voltaire a cumprir escrupulosamente semelhante organização do universo, e ri-me sozinho.

Maria Madalena talvez mostre ainda melhor o poder da posteridade para reinventar uma mulher. Uma discípula fundamental de Jesus acaba fundida com outras figuras femininas e transformada no imaginário cristão ocidental numa prostituta arrependida. Essa perversão da memória atravessa o livro inteiro. Quando uma mulher não controla a própria narrativa, outros acabam por decidir aquilo que ela será durante séculos. Foi também por isso que gostei tanto da presença de Paula Rego e do Jardim de Crivelli. Há um certo orgulho em ver uma mulher portuguesa recuperar estas figuras e devolver-lhes corpo, estranheza, violência e humanidade depois de séculos de idealização. Atanásio, a exaltação da virgindade, a chamada Pornocracia e a forma como Procópio construiu uma Teodora sexualmente monstruosa na História Secreta mostram como o corpo e a sexualidade femininos foram repetidamente usados para condenar, controlar e fabricar memória.

Joana d’Arc foi uma das histórias que mais me surpreendeu. Sabia quem era, claro, mas nunca tinha pensado seriamente no facto de toda a sua jornada começar nas vozes divinas que dizia ouvir, nem na transformação posterior da sua imagem. A mulher ligada à guerra, ao comando militar e à transgressão dos códigos de género da sua época foi sendo progressivamente embelezada e feminizada pela posteridade. A frase “Porque o trabalho sujo dos céus tem de ser feito cá em baixo, com espadas e lanças, piques e maças, alabardas, sangue e tripas esventradas...” é uma das que melhor traduz aquilo que Pedro Vieira faz quando está no seu melhor: retira o verniz da lenda e deixa à vista a matéria humana, suja, brutal e contraditória que existe por baixo dela.

Com Harriet Tubman surgiu-me outra reflexão, a existência de verdadeiros heróis fantasmas na História. Mulheres que estiveram presentes, fizeram o trabalho, correram os riscos e alteraram efetivamente o curso dos acontecimentos, mas que raramente receberam o lugar central que mereciam na memória posterior. A escravatura enquanto chattel slavery, com seres humanos tratados juridicamente como propriedade, já é suficientemente aterradora, mas o livro leva-nos também a pensar no modo como a própria heroicização pode apagar uma pessoa. Transformar Harriet numa figura quase mitológica, numa “Joana d’Arc negra”, pode acabar por torná-la plana, retirada do domínio da mulher real, com defeitos, medo, força, contradições e limitações. Santificar, demonizar e heroicizar acabam, por vezes, por produzir o mesmo efeito: trocar a mulher por uma personagem.

O capítulo de Fátima foi provavelmente o que mais me inquietou. Independentemente daquilo que cada leitor acredita ter acontecido em 1917, é difícil ignorar o contexto político e religioso em que o fenómeno cresceu. Uma Igreja profundamente atingida pela Primeira República, pela separação entre Igreja e Estado e pela perda de património e influência encontra em Fátima uma extraordinária força de mobilização popular. O paralelo com Lourdes e Šiluva torna-se inevitável, assim como a curiosidade de Severino Alves, um rapaz pobre e analfabeto que afirmara ter visto Nossa Senhora em Ponte da Barca apenas três dias antes da primeira aparição de Fátima e que acabou praticamente esquecido. Também me interessaram as reservas existentes dentro do próprio meio católico, os primeiros interrogatórios aos pastorinhos, as mudanças dos relatos ao longo do tempo e o papel de Manuel Nunes Formigão na consolidação da narrativa. No centro de tudo, porém, permanece Lúcia, talvez uma das figuras mais tristes do livro. Uma criança progressivamente absorvida por uma história muito maior do que ela, encerrada, interpretada e transformada em veículo de profecias, de política e de leituras sobre o destino de Portugal e do mundo.

Começamos com Maria e terminamos com Lúcia, duas mulheres separadas por quase dois mil anos e unidas por algo profundamente perturbador: ambas se tornaram maiores do que si próprias sem verdadeiro controlo sobre aquilo em que seriam transformadas. Talvez seja essa a verdadeira chama deste livro. Perceber que retirar humanidade a uma mulher não exige necessariamente odiá-la. Também pode acontecer ao venerá-la, idealizá-la ou transformá-la numa heroína perfeita.

No meio de tanta matéria pesada, ainda houve espaço para uma frase que adorei: “les beaux esprits se rencontrent”. Talvez seja isso que acontece aqui. Estas mulheres encontram-se através dos séculos numa experiência comum de terem sido contadas, interpretadas e apropriadas por outros.

Vénus em Chamas ensinou-me muito. Sobretudo, fez-me desconfiar de histórias que julgava conhecer. Terminei o livro com a mesma fé com que comecei, mas bastante mais atento à forma como as instituições, a religião, a política e a própria História moldam a memória, sobretudo quando essa memória pertence a mulheres.
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